A antropologia de Tarzan

A lenda do Tarzan

Quando iniciei pesquisas sobre representações da África nas histórias em quadrinhos, não fui pioneiro. Muitos pesquisadores já haviam mapeado esse território e obviamente Tarzan estava presente na boa maioria dos textos. Mas timidamente as ocupações pouco aprofundam uma costa segura e adentram a densa floresta do que se pode ser feito. Com a chegada do filme A Lenda de Tarzan, nada como reaver a relação que a história tem com esse conhecido personagem.

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Tarzan é personagem principal da série de novelas de aventura e suspense que Edgar Rice Burroughs elaborou desde 1912 nas páginas da barata revista Story Magazine. Compilou-se um total de mais de 20 livros os últimos publicados depois de sua morte em 1950, e foram desses livros que migrou as narrativas para histórias em quadrinhos. Primeiro foram tiras periódicas em 1929 desenhadas por Hal Foster, sendo seguido por uma infinidade de artistas, como Jesse Marsh, Rex Maxon, Russ Manning, Alberto Giolitti, Joe Kubert, John Buscema, entre tantos outros. Não havia como controlar o sucesso, eram produzidas séries pelo mundo afora, não autorizadas, surfando na onda Tarzan.

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Onda que ficou conhecida por meio de dezenas de dezenas de personagens semelhantes, algumas mulheres como Sheena, de 1937, até mesmo um homem negro (conhece o Lion Man, da All-Negro Comics?). Esses irmãos de selva, também criados longe da civilização, foram apelidados pelo jornalista Francis Lacassin como tarzanides, e esgotaram ao máximo a ideia. Mas Tarzan não era totalmente original, pois sofreu inspiração da novela O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, lançado em 1893 e completado no ano seguinte. Neste livro, o escrito inglês narra as aventuras de Mogli, um menino criado por lobos na mata indiana (já viu o recém lançado filme?).

Tanto Mogli quanto Tarzan narram eventos até bastante comuns em narrativas históricas de diversas sociedades humanas: as crianças selvagens. Esse tema nada tem de ficção, pois são registros de crianças que viveram longe da sociedade e por isso não foram educadas, não tiveram humanos como exemplos de comportamento, conduta e expressões. Esses registros datam desde mitos antigos, como Rômulo e Remo, os personagens fundadores de Roma. Esses eventos sempre estiveram presentes, mas foi a parte da Era Moderna que tiveram importância crucial nos estudos de antropologia e nas construções de teorias sobre a vida social dos humanos.

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Até o final do século XV as relações de povos Europeus com outras sociedades eram explicadas (ou tentava-se) através da religião. Somente com a revolução intelectual do período iluminista é que se buscou cientificar as diferenças tantos dos indivíduos quanto de suas sociedades, gerando conceitos como Estado de Natureza, Direito Natural e Contrato Social. Tarzan nem imaginava, enquanto pululava entre cipós, que o mundo que o criou e todas as suas aventuras nos quadrinhos (e depois no famoso desenho da Disney) estavam enraizados em polêmicas disputas entre estudiosos. Tais pensadores começaram a ponderar como eram os seres humanos na inexistência da sociedade organizada.

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Os filósofos conhecidos como Contratualistas compreenderam que, em algum momento, e isso vai variar de sociedade a sociedade, os indivíduos fundam a sociedade através de um contrato. Não é necessariamente uma “pedra fundamental”, mas essa união de interesses e acordos surge a partir de uma necessidade, e é esta necessidade que vai dividir os pensadores. John Locke ainda questionará mesmo um mundo pré-contrato, pois para este as Leis da Natureza ainda eram racionais para os indivíduos que as tomassem (matar para vingar-se ou tomar algo ainda exige abstração). Para outros, esse homem natural, sem o Contrato Social, viveu bastante longe da razão.

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É assim a querela entre Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau, que pensaram esse Homem Natural (estou usando o termo da época e não ocultando a mulher pela representação masculino, ok?) totalmente diferentes um do outro. Para Hobbes, que lançou sua hipótese no livro O Leviatã em 1651, esse Homem Natural era um ser perverso e egoísta, dominado pelo medo do mundo e do outro, e por isso a sociedade existe para que esses homens (lobos dos homens) pudessem conviver sem o extermínio total. Rousseau seguiu a lógica contrária, entendendo o Homem Natural como naturalmente bom, sendo corrompido pela vida em sociedade, como está no seu escrito Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens de 1754. Para ambos, porém, o homem está destituído de razão.

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Outro campo, mais vivido por naturalista que juristas, vem modificar essas concepções do ser humano em seu estado de natureza, pois entra no cenário do conhecimento a Teoria Evolucionista. O ponto crucial dessa concepção biológica começou com Carlos Lineu e a taxonomia, que ainda no século XVIII definiu Chimpanzés (Homo Troglodytes) como uma segunda espécie humana, que nem os macacos Mangani, de Tarzan, com grupos organizados e vida rudimentar tribal. No século XIX foi a vez de Charles Darwin dar suas contribuições, com as obras A origem das Espécies, de 1859 e A Descendência do Homem, de 1871. Agora Tarzan não estava somente sendo germinado pelas suas emoções, mas, também, pela sua natureza física, biológica.

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Mas sem saber, os evolucionistas incentivaram os antropólogos a pensarem e justificarem as desigualdades por meio de conceitos de evolução, nascendo, assim, a Evolução Cultural. Essa concepção estimulou ainda mais a ideia de que os estados europeus eram ápices evolutivos. Para esses pensadores do final do século XIX, as sociedades poderiam ser compreendidas através de uma hierarquia vertical em que a selvageria seria a base, seguida da rudimentar barbárie e seu topo seria a civilização. Fácil entender como Tarzan, homem branco e descendente de europeus, consegue se destacar na isolada e involuída África.

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Mas Tarzan é ficcional, então não vai interferir de maneira tão importante a ponto de que pensemos se o ser humano tem uma natureza longe de sua sociedade. Será mesmo? Como falei no início do texto, essas reflexões sobre o Estado de Natureza têm na própria realidade o seu laboratório para se pensar, talvez não a essência humana, mas, pelo menos, a extensão daquilo que é socialmente construído. Uma lista bastante ampla se pode fazer sobre as Crianças Selvagens (algumas nem tão crianças), como o caso inglês de Peter – o Selvagem (1724), o caso francês de Victor de Aveyron (1798), o caso indiano (olha, que nem Mogli) das meninas lobo Amala e Kamala (1920), o caso ucraniano de Oxana Oleksandrivna Malaya (1991) e o recente caso da Rochom P’ngieng, mulher adulta, que fora encontrada desnuda no Camboja e que depois de grande descontentamento voltou a viver na floresta.

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Em todos esses casos, diversos elementos sofreram interferências, como o comportamento, a timidez diante da nudez, a alimentação e até mesmo a linguagem. Ainda que Tarzan tenha todo o potencial para construir diversas linguagens e manter posturas e comportamentos humanos, serão as influências sociais daqueles de seu convívio que lhe farão seus modos. Vão muito além de costumes e práticas, já que depois de adultos, essas Crianças Selvagens não “voltam” a serem humanas, seguem ainda sendo boa parte do construíram nas idades mais novas. Nossa própria “humanidade” é uma longa e extensa construção que seguiu caminhos diferentes, mas que estão tão mais próximas quando comparadas ao tal Estado de Natureza.

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E num mundo onde nossas sociedades se vangloriem de conquistas tecnológicas e materiais, as perseguições e injustiças contra os “diferentes” não nos fazem civilização, mas, sim, barbárie. As autonomias dos indivíduos estão cada vez mais oprimidas pelas expectativas da sociedade, e quanto mais ignorante a sociedade é, mais injustiças são produzidas em nome das diferenças. Diferenças de credo, de gênero, de orientação sexual, de cor. Volta, Tarzan! Volta para selva, pois aqui as coisas caminham desastrosamente!

Texto por Sávio Roz.

  • Iza

    Curti!

  • O nome da revista era All-Story, tem um personagem chamado Saturnin Farandoul (ou Saturnino Farandola em italiano) do ilustrador e escritor francês Alberto Robida que é comparado com Tarzan, publicado em 1879 no livro Voyages très extraordinaires de Saturnin Farandoul

    • Savio Roz

      Essa eu não conhecia. É bastante comum que a literatura tenha mesmo esses viajantes audaciosos no final do século XIX. Virou uma verdadeira modinha os filhos abastados aventurarem-se em sítios arqueológicos e na cultura do outro. Claro, tudo isso com muita hierarquização racial, num período de tanta força do racialismo.

  • Meio-off, numa edição de setembro de 1937 de O Tico-Tico tem duas pranchas do Tarzan pelo Oswaldo Storni, uma inspirada num conto de Jungle Tales of Tarzan: Tarzan and the Black Boy e outra na origem, eis o pdf

    http://memoria.bn.br/pdf/153079/per153079_1937_01668.pdf

  • Existem muitos tarzanides, mas há também os conanesques, o primeiro deles é Crom, the Barbarian,criado pelo Gardner Fox em 1950.