All-Negro Comics: Pioneirismo negro nos quadrinhos dos anos 40!

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           Orrin Cromwell Evans era um homem determinado. Usou de suas conquistas profissionais para valorizar o negro a sua maneira. Jornalista, escreveu sobre a exclusão racial na Segunda Guerra Mundial, para o jornal Philadelphia Record. Mas vamos lembrar dele por ter sido o primeiro editor negro de quadrinhos! Na postagem sobre antropologia de Tarzan, falei rapidamente da revista All-Negro Comics, lembrada por um de nossos leitores no texto dos super-heróis negros da Milestone Comics. Tudo isso há quase 70 anos atrás!

          Quando trabalhava no Philadelphia Record, Evans recebeu ameaças de morte por conta de sua bandeira política a favor da causa negra. Era o único jornalista negro no periódico. Não era nada fácil ser um jornalista negro nos anos 30, pois, numa conferência de imprensa, foi expulso pelo famoso piloto Charles Lindbergh. Quando fez uma série de matérias sobre o racismo nas forças armadas durante a guerra, em 1944, recebeu menção honrosa no prêmio Hayword Hale Broun, mas também conquistou muitas inimizades. O jornal Philadelphia Record foi fechado e Evans se viu desempregado AllNegroEvansnum mundo onde sua cor de pele lhe condenava.

              Mas Evan (no destaque em foto) arregaçou as mangas e, mesmo não estando formalmente empregado, escreveu artigos e notas para diversos jornais da Filadélfia. Seu nome estava eventualmente em matérias do Philadelphia Independent, Chicago Defender, jornal American Music, entre outros. Fez parte da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, a NAACP, organização provedora de fiscalizações e lutas pelos direitos civis para as populações negras nos Estados Unidos, desde 1909. Era preciso trabalhar em prol da representação racial, e não foi apenas no jornalismo que ele encontrou um caminho.

            Evans era um grande colecionador de historias em quadrinhos, com uma coleção de fazer inveja. E ligou sua paixão com seus planos de igualdade racial e justiça social. Ele entendia que para ter representatividade, era necessário ter negros honestamente desenvolvidos em séries de quadrinhos, e, mais ainda: seria uma atitude de grande valor ter uma revista com boa parte de seus personagens sendo homens e mulheres negros. Foi então que juntou forças com seu antigo editor do Philadelphia Records, Harry T. Saylor, o amigo e editor da sessão de esportes do jornal, Bill Dirscoll, e projetou a editora All-Negro Comics Publication, em 1947.

         allnegro1No mesmo ano, a editora estreou com a revista All-Negro Comics no mercado estadunidense de quadrinhos. Com muita dificuldade, já que distribuidoras e muitos lojistas estava desinteressados na publicação. A revista tinha 48 páginas em cores e vinha com oito histórias e materiais informativos, como a página de apresentação da revista onde o próprio, Evans, enaltece o pioneirismo da revista e uma penúltima página com um dos personagens avisando: “Lembrem-se, crianças, o crime não compensa!”.

                 O claro objetivo da revista era ser pedagógica e trazer nas peles de seus personagens uma cor a se orgulhar pelos leitores que nela pudessem se reconhecer. A primeira história, feita por John Terrell, traz a aventura noir de Ace Harlem, chamado pelo próprio autor de o “famoso detetive negro”. Na mimosa segunda história, The Little Dew Dillies, temos dois bebês, um anjinho e uma sereiazinha, num tom bem mais leve com arte de Cooper. Seguidos de uma dupla página com uma curta novela em texto e outros quadrinhos, como Sugarfoot, de Cravat, bem ao estilo “Ferdinando” do Al Capp. Todas elas com a totalidade dos elencos de personagens negros, com exceção de Lion Man.

A terceira história, na ordem, é a do Lion Man, que citei em texto anterior sendo um negro em aventuras na África bem ao estilo AllNegro3tarzanide. Escrita e desenhada por George J. Evans Jr, irmão de Orrin C. Evans, narra a história de jovem cientista que deixa os Estados Unidos em missão das Nações Unidas para proteger a Costa do Ouro, colônia britânica na época que conquistou independência somente em 1957 (praticamente dez anos depois da revista) tornando-se Gana. Acompanhado por Bubba, um jovem órfão Zulu, Lion Man combate gananciosos exploradores brancos que pretendiam roubar urânio (e fazer bombas nucleares!).

             Foi a única história que teve presença de homens brancos, como vilões, uma lógica inversão de valores raciais. Apesar da intenção de promover a representatividade da identidade negra, a história de Lion Man nada fez de inovador ao tratamento que era dado à África, nas histórias em quadrinhos , comumente, com todo seu exotismo e o nativo tratado como incapaz. Limitados em seu espaço e tempo, dificilmente poderíamos exigir que descrevessem melhor a África, já que tinham outros tarzanides por fontes e inspirações.

         AllNegro4 Infelizmente, nunca passou desta única edição, talvez por conta dos editores e distribuidores que ficaram descontentes com sua empreitada. Evans seguiu sua carreira de jornalista, ganhando notoriedade em publicações da Filadélfia. Morreu em 1971, mesmo ano em que a NAACP, meses antes, lhe fez uma homenagem em convenção nacional criando uma bolsa de estudos em seu nome. Evans não deixou uma vasta produção, mas seu pioneirismo certamente influenciou as gerações seguintes (como a Milestone, lembra?) a invadirem com justiça um espaço tão segregado pela cor.

Fonte:http://www.tomchristopher.com/orrin-c-evans-and-the-story-of-all-negro-comics/

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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