As Amazonas Africanas: As Mulheres Maravilhas do Daomé

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A mitologia recheia nosso imaginário sobre o passado com as figuras das amazonas a ponto de serem a base narrativa para a Mulher Maravilha. Essas personagens míticas (já tratadas aqui) foram, para os gregos antigos, um mecanismo discursivo de repúdio a um governo de mulheres e/ou de feminilização (e por conseguinte desqualificação) do outro. Até então, essas figuras femininas agressivas apareciam em narrativas míticas para compor o herói que as dominavam, como fez Hércules. Mas eis que na história da África existem guerreiras amazonas reais que podem muito bem nos fazer repensar o mito das mulheres guerreiras e o mito dos determinados papeis de gênero! Vamos seguir mais uma viagem?

Estátua romana, século I-II d.C. Traços masculinos, essa cópia romana de original grega (possivelmente uma estátua de templo dedicado a Artemis) contem os seios intactos. A ausência dos seios é um mito dentro do mito.

O mito das amazonas aparece em diversos textos na antiguidade helena, como em Heródoto e Pausânias. Curiosamente elas são representadas sempre munidas de agressividade fora do comum, potencialidade bélica indiscutível, e, claro, a vitória sobre as mesmas concediam aos heróis um status ainda mais apurado: vencer e escravizar (e se casar) com uma amazona era um sinal inegável de bravura! Mulheres que “lutam como homens”, como Penthesilea, Hipólita e Antíope, amedrontavam os gregos e ensinavam às mulheres sobre seus papeis femininos e os perigos de se desviar de tal feminilidade. O criador da Mulher Maravilha, William Moulton Marston, fez uso dessas narrativas, tão perenes no imaginário euro-ocidental, para questionar a desvalorização da mulher no começo do século XX. Sua criação, a Mulher Maravilha, fruto de sua afeição ao mito das amazonas, confronta esse imaginário de que mulheres não podem ser fortes (e ao mesmo tempo amorosas, segundo Marston). A questão primordial estava, então, nos papéis sexuais.

É bastante significativo que para manter o controle sobre as mulheres as culturas façam divisões sexuais das ocupações e performances. Um mecanismo de manutenção da hierarquia numa sociedade sexista se faz através dessas divisões de papéis pelo gênero. Gênero, numa redução útil apenas a este texto, é o conjunto de atribuições que as sociedades fazem sobre as pessoas de acordo com seus sexos. Em tais processos, obrigações e privilégios são determinados sobre os indivíduos de acordo com os sexos que possuem, limitando seus comportamentos e estabelecendo parâmetros sobre o sentir, o agir, o ser. Com isso em mente, os mundos políticos e das guerras foi sempre condicionado como tabuleiros masculinos. Mulheres que fogem aos papeis que lhe foram construídos geralmente são pintadas masculinizadas, suas sexualidades questionadas, são mulheres “anormalizadas”. Mas estamos falando de normalidade? As diferenças entre os sexos, fundamentalmente diferenças biológicas, não sustentam as desigualdades impostas entre os gêneros, ainda que muitos assim o pensem e outros tantos assim o queiram.

Uma lendária Ahosi. Também era chamada Mino, em língua fon, que significa “nossas mães”.

Nas histórias em quadrinhos, muitas mulheres assumiram esses desvios de papeis, inclusive a Mulher Maravilha. Em 1937, Sheena, a mais emblemática Tarzanide (lembra do texto sobre Tarzan e a Antropologia? Opa, não conhece? Leia aqui!), enfrentava feras e perigos na África, avançando em certas posturas, mas mantendo a sua “feminilidade” em outras, como a busca por par romântico. Durante a Segunda Guerra as mulheres assumiram os espaços de trabalhos, depois de décadas de luta para assumirem os espaços educacionais e o direito ao voto. Nas páginas dos quadrinhos, Lois Lane tomava seu lugar de destaque enquanto reporter de um grande jornal, enquanto a Mulher Maravilha propagava uma superioridade feminina. Quando Marston morreu e os roteiros da super-heroína amazona foram parar nas mãos de outros autores, na década de 50, buscaram “feminilizar” ela: criando dilemas morais onde Diana precisaria escolher entre a vida de aventuras ou seu papel derradeiro de mulher (casar e ter filhos). Não faltaram mulheres na ficção e na realidade desafiando esses papeis que lhe eram limitados, ainda com alguns retrocessos e resistências. Mas houveram, também, rupturas bastante curiosas, como as mulheres guerreiras do reino do Daomé.

O reino do Daomé foi um dos que mais se expandiu com as relações comerciais com os povos Europeus, principalmente no fornecimento de escravos. Esse reino, localizado nas entrâncias à margem do golfo de Guiné, onde hoje se localiza a República do Benim, prosperou bastante em comparações com seus vizinhos. Durante o século XVII, o reino estabeleceu novas estruturas políticas por conta do enfraquecimento das instituições tradicionais em decorrência da escravidão, tornando-se um Estado hegemônico no século XVIII. Como aponta o historiador queniano Bethwell Allan Ogot, “ao conceito tradicional de Estado, considerado como uma versão mais ampla da família, sucedia o de Estado forte e centralizado, com um monarca absoluto no seu comando a exigir lealdade sem reserva de todos os cidadãos” (OGOT, 2010, p.1062). Boa parte do sucesso militar e de defesa, por conseguinte o avanço do Estado centralizado desse reino, se deu pela presença singular das chamadas Ahosi.

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A artista francesa YZ Yseult espalhou imagens de mulheres guerreiras nas ruas do Senegal.

As Ahosi (que significa “esposas do rei”) foram a tropa de elite de mulheres que protegia o rei do Daomé. Os registros datam sua origem com o reinado de Aho Houegbadja, no século XVII. Com o passar do tempo, essa prática de militarizar mulheres foi se aperfeiçoando a ponto de formar uma verdadeira horda de mulheres condicionadas aos rigores do combate. Chegando a seis mil mulheres, de acordo com alguns historiadores, o poderio militar do Daomé contava com o elemento surpresa que certamente confundia o adversário que estivesse esperando a feminilidade passiva e “do lar”. Acostumados com a covardia feminina, quando confrontaram mulheres que tinham outra doutrina comportamental, se viam a mercê de guerreiras implacáveis. Quando os europeus se depararam com essas mulheres, por conta do referencial que tinham deste tipo de situação singular, não tardaram a apelida-las de “amazonas”.

Pensativa Ahosi.

As amazonas do Daomé surgiram de mulheres caçadoras, foram adaptadas para a guarda real e logo se tornaram uma casta militar de mulheres. Se foram permitidas pelas baixas masculinas em combates constantes contra os vizinhos do reino e na captura de escravos para o comércio de cativos ou uma estratégia numérica diante de uma ameaça externa através do aproveitamento dessa parcela da população, o que se sabe é que as jovens mulheres, recrutadas forçadas ou opcionalmente, passavam por árduo treinamento. Essa construção de guerreira envolvia o uso de diversas armas (no século XIX até armas de fogo), combate corpo a corpo, técnicas de sobrevivências em situações hostis, tudo isso envolvendo uma mística própria. Essas aguerridas guerreiras foram decisivas na batalha de Savi, no século XVIII, e surpreenderam os franceses no século XIX. Com os feitos em combates e o saldo positivo, logo essas guerreiras ganharam notoriedade e fama principalmente com seus adversários. No recente trailer do filme Pantera Negra, super-herói da Marvel Comics, aparecem a guarda real, formada por mulheres. Essas habilidosas guarda-costas, chamadas Dora Milaje, provavelmente chamarão a atenção do público por se portarem como eficientes guerreiras.

Quando escrevi a dissertação de mestrado sobre a Mulher Maravilha e Feminismo, priorizei a leitura do doutor Marston, criador da Mulher Maravilha, do mito grego antigo das mulheres guerreiras amazonas. Para não correr escapar ao raciocínio definido no trabalho dissertativo, migrei os estudos sobre essas mulheres para apresentações em eventos sobre mitologia e história da África. Devo boa parte do agradecimento ao colega e amigo historiador Carlos Silva Jr que fez a relação feliz entre essas tantas amazonas. Talvez o que essas mulheres guerreiras daomeanas possam nos ensinar é que os mitos se permitem serem lidos por outras interpretações, de que as mulheres ocupando papéis em cenários de guerra não seja um desvio de uma natureza feminina, mas a fragilidade desses papeis que se confirmam como culturalmente construídos. As Ahosi sintonizam com a narrativa sobre mulheres guerreiras do historiador chinês Sima Qian (entre os séculos II e I a.C.). Qian relata o desafio imposto a Sun Tzu, famoso militar e autor do livro A Arte da Guerra, no século IV a.C., de demonstrar suas habilidades de liderança. Instruídas as concubinas do rei, tornaram-se uma tropa de excelência. A guerra é uma invenção humana… que nem os papéis de gênero!

 

Para saber mais!

OGOT, B. A. História geral da África, V: África do século XVI ao XVIII. Brasília : UNESCO, 2010.
A arte de YZ Yseult: http://yzart.fr/
Uma HQ sobre as Ahosi, pela Unesco: The Women Soldier of Dahomey

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Camila Souza

    Oi, eu gostaria de ler sua dissertação!

    • Savio Roz

      Olá, Camila! Ela foi defendida, já, mas a instituição ainda não disponibilizou ela no site. Acredito que este mês isso aconteça, venho aqui lhe avisar sem falta!
      Obrigado pelo prestígio!