Bat-Faraó: Um Morcego na Pirâmide!

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Essa semana atrasei o texto por conta dos preparativos do evento que ocorrerá sobre egiptologia no Museu Nacional. A SEMNA – Semana de Egiptologia do Museu Nacional, teve início nesta segunda feira (28/11) e vai até a sexta feira (02/12), com palestras e apresentações de trabalhos que reúnem pesquisadores brasileiros sobre o Egito Faraônico e dialoga com franqueza com o público. Saiba mais sobre o evento em sua página. Na quarta feira (30/11) estarei apresentando pesquisa sobre representações e imaginários deste mundo fabuloso da antiguidade africana, particularmente numa história em quadrinhos do BATMAN.

Tal região e história africana são bastante comuns nas histórias em quadrinhos, como tratei nos textos sobre África no meu blog, especificamente na segunda parte (leia aqui). Temos exemplos dos mistérios decifrados por Tintim (Os Charutos do Faraó, recentemente pela Globo Livros), passando pelos mais diversos super-heróis. O Egito Antigo está nas veias de super-tipos como Gavião Negro (o egiptólogo Carter hall), é a força motriz de vilões como O Monolito Vivo (que deu muito trabalho aos Vingadores) e a reencarnação super-vilanesca de Akhenaton (na Marvel). Os deuses egípcios são presença nas duas grandes editoras, Marvel e DC, e eventualmente participam de histórias. Em outros casos, são esfinges e múmias que preservam os imaginários dos leitores, com as suas ameaças e enigmas (apesar do enigma proposto pela aberração metade leão e metade homem ser um mito heleno sobre a mítica criatura egípcia. E quem não lembra da esfinge do Castelo Ratimbum?).

Capa com o Deus-Morcego Nehkrun

Muitos textos poderiam (ou poderão) serem feitos sobre esse mundo do Antigo Egípcio nas histórias em quadrinhos, mas o foco aqui é uma publicação do Batman que tratou o tema levemente diferente. Trata-se da série em duas partes chamada Batman: O Livro dos Mortos, publicada em 1999 (Lançada aqui pela editora Abril em 2000), com roteiro de Doug Moench e arte de Barry kitson, fazendo parte do selo Elseworld (Túnel do Tempo), onde autores podem modificar elementos, datas e estruturas dos personagens para produzirem boas histórias. Essa história, então, não faz parte do cânone formal do Batman, mas apesar de não atingir um grau de excelência, certamente marca a história do personagem-produto pela audácia dos elementos que foram dispostos.

Nesse mundo alternativo, os pais de Bruce Wayne foram mortos por um assassino a mando de uma conspiração que preferia manter segredos antigos ocultos às sociedades contemporâneas. Thomas e Martha Wayne foram engajados egiptólogos que aproximaram-se demasiadamente em desvendar mistérios do Antigo Egito. Até então, nada inovador. Enquanto ocorre a narrativa principal, existe uma segunda narrativa gráfica intercalada, sobre um passado remoto onde seres tecnologicamente avançados, possivelmente de outro planeta, eram idolatrados como deuses: os deuses da mitologia egípcia! Bem ao estilo Eram os Deuses Astronautas, de Erich von Däniken, livro lançado em 1968 onde o autor expõe ideias de que as entidades seriam seres de uma civilização mais desenvolvida. Esses serem humanoides (e brancos, que tédio), teriam sidos os criadores da raça humana e deixaram, preocupados com o legado, grandes conhecimentos apenas acessíveis através de um nível de maturidade alcançada.

Os estudos de uma egiptóloga, a doutora Sheila Ramsey, despertaram o interesse de Bruce Wayne, principalmente para decifrar o assassinato de seus pais. Aí que a história em quadrinhos toma um pitoresco rumo, fazendo interferências entre egiptologia e egiptomania, entre a ficção e a realidade nos estudos sobre o Egito Antigo. Acreditando num elo entre os antigos Egípcios e os Maias, a doutora Ramsey se vale de um mito perdido: o Deus Morcego. Suas marcas são encontradas numa placa figurativa, em baixo relevo, do século VI no acervo fúnebre do rei Pacal II e que ficou vulgarmente conhecida como O Astronauta de Palenque, por causa do sítio arqueológico de Palenque em que foi encontrada. Na figura alguns vislumbram o líder numa postura que interpretam como no comando de engrenagens de um veículo muito além de seu tempo.

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Doutora Ramsey e a continuação do projeto Upuaut

A ficcional personagem, a doutora Ramsey, abraça diversas ideias de entusiastas reais como Edgar Cayce e Maurice Cotterell. As Sociedades Secretas europeias, na coqueluche do orientalismo e das descobertas e mistérios da arqueologia, se valiam de uma miríade de elementos, como fez o famoso e polêmico Aleister Crowley e seu Livro da Lei. Contemporâneo de Crowley, Edgar Cayce foi um médium que incentivou a ideia de que existem caminhos secretos e câmaras escondidas, inclusive sob as patas da monumental esfinge em Gizé. A história em quadrinhos apresenta tal ideia que é fervorosamente seguida pela doutora Ramsey e que Bruce compartilha investigação. Maurice Cotterell, durante décadas de dedicação, encontrou compatibilidades entres as civilizações Egípcias e Maias através de um conjunto de códigos, como faz a personagem na história em quadrinhos.

Equipe do projeto Djedi introduzindo o veículo robótico no canal, sob liderança de Sahi Hawass em setembro de 2002. De cabeça raspada está Gregg Landry, engenheiro da IRobot.

Os Maias e os Egípcios tinham, de certo, muitas coisas em comuns, como avanços em conhecimentos matemáticos e astronômicos. Em suas vivências religiosas, o natural e o sobrenatural se confundiam, assim como astronomia e astrologia, o que pode justificar muitas das ideias sobre um misterioso passado. Com isso, é compreensível que o assombro das pessoas de hoje sobre os avanços intelectuais das pessoas do passado produzam uma falta de credibilidade. Um personagem antagônico na história, rivaliza com as ideias da doutora Ramsey. O senhor Aswan faz um alerta que, apesar de sua postura quase de vilão, interferindo e atrapalhando o trabalho dos protagonistas, é bastante pertinente: tais ideias são insultos aos egípcios, como se não fossem capazes de produções e por isso se precisasse de raças alienígenas ou magias para explicar seus registros.

Além disso, a doutora Ramsey e Bruce Wayne seguem adiante os planos de desvendar um recente mistério (recente em 1999). Na Grande Pirâmide de Gizé, protegida pela esfinge, existe uma complexa estrutura em seu interior, com câmaras fúnebres e de pertences do morto e, também, dois dutos outrora entendidos como de ventilação e que são inacessíveis a seres humanos. Entre 1992 e 1993 o egiptólogo e engenheiro Rudolf Gantenbrink introduziu veículos robóticos em um dos dutos e encontrou uma porta corrediça como anteparo. O atual responsável pelas escavações e pesquisas no Egito,  Sahi Hawass (levemente parecido com o Aswan), afirma que os antigos egípcios nunca faziam nada por acaso, existia sempre um propósito. O trabalho de investigação do duto pela equipe alemã liderada por Gantenbrink ficou conhecido como projeto Upuaut.

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Após a porta movediça, uma parede com um mapa, na ficção. O quadrinho foi feito alguns anos antes do projeto Djedi, que perfurou a pedra com um broca (e não usou um ácido, como na HQ).

Não se trata de uma previsão quase de Nostradamus, mas um seguir lógico e racional de que as câmaras seriam novamente investigadas. Assim se dá o projeto Djedi, liderado pelo então chefe geral de egiptologia Sahi Hawass, agora a partir de 2002 fez inúmeros avanços, como a perfuração da porta corrediça que, com ajuda de uma câmera móvel, mostrou haver um novo anteparo e um pequeno espaço contendo sinais hieroglíficos.  Uma simulação computadorizada demonstra a descoberta após a perfuração da porta corrediça, veja aqui! A história em quadrinho, de 1999, antecede os eventos do projeto Djedi para, na ficção, indicar um “mapa do tesouro” para desvendar o grande mistério na história. Não menos sensacional, em nossa realidade, os mistérios ainda estão sendo decifrados e são mais humanos do que a imaginação tende a se perder.

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Construção da pirâmide por civilizações extraterrenas, desvendando o mito, mudanças no eixo da terra! Batman egiptólogo!

O imaginário é o fio condutor da curiosidade das pessoas sobre mitologia e história do Egito Antigo. Há um evidente fascínio que essa parte da história da humanidade exerce nas pessoas e que o entretenimento sabe usar inegavelmente. A história do Batman, O Livro dos Mortos, trata deste fascínio, é um sintoma de um leque de elementos interligados que seduzem as pessoas, o próprio nome “livro dos mortos”, originalmente “livro para vir (sair) para o dia”, passa de uma liturgia registrada em papiros ou mesmo em outros suportes fúnebres para guiar o morto para uma espécie de segredo macabro da imortalidade ou da volta à vida ao estilo “volta dos mortos vivos”. Longe disso. É preciso desmitificar o Egito Antigo para valorizarmos melhor as mulheres e homens que fizeram tão rico mundo social, para podermos dar o devido valor aos seres humanos do passado e as suas conquistas aparentemente tão distantes de nosso conhecimento. Não é preciso o fantástico ou o inóspito para termos o prazer do fascínio se nos dedicarmos a entender (juntos a estudos como os presentes na SEMNA) como esse passado pode ser extraordinário.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Essa estória é bem curiosa mesmo, e fica divertido ler Batman num contexto de “Deuses Astronautas”, Edgar Cayce, Maurice Cotterel… Quando li, deu-me a impressão que o Deus Morcego reencarnou como Bruce Wayne, mas faz um tempinho que li. Achei bem interessante o roteirista ter usado estes nomes do século XX para compor a trama.

    Tenho a impressão que a leitura dela, mesmo que extremamente conservadora, como no ponto mencionado dos deuses serem caucasianos, acaba mostrando o quanto essas ideias de que o Egito só foi o que foi graças a alienígenas uma amostra do quão fantasiosas são essas teorias. Concordo que não seja uma obra excelente, mas ao conseguir encaixar estas teorias do século XX com a egitomania acaba mostrando o quanto parecem ser fantasiosas.

    Seria interessantíssimo uma estória com o Batman no qual ele investiga grupos que mantém esse “misticismo alien” em torno do Egito com propósitos de gerar turismo, dinheiro e tudo o mais, além de terem um ranço racista nessa mesma perspectiva, daí o Morcego desvenda essa “conspiração”. Bem, acho que viajei um pouco agora…

    Tudo de bom!

    • Savio Roz

      Verdade, é sintomático o efeito que essa HQ demonstra. As pessoas curtem essas ideias, ainda que não as legitimem concretamente. Mas é triste que toda essa construção de “fruto de seres de outros planetas” sempre tenha seu nascedouro na falta de fé sobre as pessoas do passado. Como se nossa incapacidade de compreensão fosse o limite, o ápice, e por isso esses “trogloditas” são incapazes de façanhas que não entendemos.
      Existe outras HQs do Batman e Egito, vilões até mesmo no seriado de 66. Mas essa eu escolhi por algumas singularidades. Aproveita o clima e releia ela! Terá outros pontos de vista!

  • O livro do Von Däniken é de 1968, mas essas ideias já eram difundidas, a série literária alemã Perry Rhodan mostrava isso em 1962, com o Atlan, o alien arconida

    http://www.projtrad.org/index.php?option=com_content&view=category&id=18&Itemid=604

    • Savio Roz

      E também muitos no final do XIX já pregavam essas ideias. O Daniken marca por conta da seriedade científica de sua fala.

      • Paralelo a isso, no século XIX tinha o Camille Flammarion, que era astrônomo, espírita e escritor de ficção científica que acreditava que podia ter seres vivos no Sol.