A Bela e a Fera? Não! A virgem e o Assassino!

superstiling

Recentemente mudei alguns dos meus quadrinhos de lugar e é sempre um delicioso exercício de memória. Como ver um álbum de família. Na leva, peguei alguns quadrinhos japoneses e os reorganizei, me deparando com coisas repetidas ou edições diferentes. Foi o caso de Crying Freeman, do roteirista Kazuo Koike (um dos criadores de Lobo Solitário, que a Isabelle Felix citou em um dos vídeos! Não assistiu? Ora, basta clicar aqui!) e com arte de Ryoichi Ikegami, lançado no Brasil como minissérie em quatro partes em 1990 pela editora Sampa e relançada integralmente em 2006 pela editora Panini.

Resultado de imagem para emu hino
Emu Hino

A artista plástica japonesa Emu Hino testemunhou um assassinato, inclusive a identidade facial do matador conhecido como Crying Freeman. O assassino profissional da máfia chinesa recebeu tal alcunha por derramar tristes lágrimas assim que tira a vida de seus alvos. Hino sabe que sua vida está em risco, mas está completamente apaixonada pelo seu algoz. No derradeiro dia de sua prometida morte nas mãos de Crying Freeman, mesmo dia de seu aniversário de 29 anos, Hino faz seu inusitado pedido ao seu assassino: antes de tirar-lhe a vida, encerrar a sua virgindade: Antes de me matar – ela diz – pode fazer amor comigo? Tímida, chega a cobrir os olhos ao fazer tão estranho pedido e confissão, um arquétipo feminino bastante usual em novelas românticas e eróticas, como Anastasia Steele de 50 Tons de Cinza. É uma mulher comum, dificilmente desejável, com problemas com a autoestima e com a própria sexualidade. Nos dois casos, são mulheres reconhecíveis numa sociedade onde a hierarquia sexual estabeleceu a submissão e o recato como naturais para o gênero feminino. Emu Hino, assim como Anastasia, se depara com um homem singular. Yo Hinomura, o Freeman, é, assim como Christian Gray, altivo, bastante jovem e atraente, determinado. Poderoso. Mas ambos com segredos a serem desvendados e sofrimentos a serem curados: Feras.

Imagem relacionada
Crying Freeman – o Assassino que Chora

Esse drama envolve uma história de crimes, de honra, com muita violência, mas com pedaços de humor, erotismo, romance e até concepções de amor e família. A narrativa se inicia justamente com esse clima de história de crime organizado, com tramas envolvendo assassinatos, vinganças, códigos de honra, códigos de condutas. A literatura e o cinema eventualmente se valem dessas estruturas para contar boas histórias que prendem as pessoas. Mario Puzo fez com maestria isso, narrando sobre a máfia italiana em suas obras ficcionais. O crime organizado e suas verdades e mitos fazem parte, praticamente, de todas as diferentes culturas humanas em todos os continentes. E se isso serve de pano de fundo para se contar uma história que envolve um romance carregado de arquétipos, nada melhor que fazer um Romeu e Julieta da Yakuza!

Mark Dacascos

A relação entre a virgem e o assassino é o mote inicial da saga que durou entre 1986 e 1988 no mangá, e que foi transferida este primeiro arco na animação de mesmo nome em seis episódios entre 1988 e 1994. Alcançou bastante sucesso, a ponto de ter sido adaptado ao cinema numa versão chinesa chamada Dragon From Russia (originalmente Gong Chang Fei Long) em 1990 e na versão ocidental, mais famosa, chamada Combate – Lágrimas de um Guerreiro, de 1995, com o protagonista interpretado por Mark Dacascos e a virgem Emu (com o sobrenome O´Hara) interpretada por Julie Condra. O filme canadense é um exemplo de whitewashing, conceito onde mudanças ocorrem nos fenótipos dos personagens, algo que descaracteriza parte da narrativa e não tem a menor razão de ser feito.

Com o sucesso de filmes como A Bela e a Fera, nada como ver um ponto de vista bastante discrepante das relações pessoais interferido no destino. Enquanto o conto francês do século XVIII retrata a salvação de uma maldição (que torna bestial um príncipe) pelo amor de uma jovem beldade, Crying Freeman faz um caminho diferente. A proposta é de uma relação menos romântica e intensamente interferida por elementos externos. Além do mais, toda a narrativa é de uma violência corriqueira, além de uma erotização muitas vezes até exagerada, ainda que não consiga escapa da enfadonha censura japonesa onde posições sexuais explícitas são interferidas por órgãos sexuais apagados ou cobertos por imagens quadriculadas.

baiyashan
Bai Ya Shan

É curioso ver algumas questões de gênero e sexualidade tratadas na narrativa do quadrinho japonês. Para uma obra do final dos anos 80, tem até alguns pontos inovadores, mesmo com algumas mesmices sexistas ou naturalizações de violências. Há uma grande quantidade de personagens femininas que, mesmo muitas delas fazendo parte de um certo “harém” do protagonista, possuem clara independência e personalidade. Estereótipos dissidentes, como a negra halterofilista Pagnag (da organização criminosa africana “Presas da África”) e a corpulenta e habilidosa guerreira Bai Ya Shan, perambulam pelas páginas da série sem que haja qualquer espanto narrativo sobre suas singularidades físicas. Apesar de Bai Ya Shan levar o teor cômico da história, nem de longe ela é uma “gordinha engraçada”, pelo contrário, demonstra ser uma das mais aguerridas lutadoras, resolvendo diversas situações sem que isso seja acompanhado de riso. Pagnag, posteriormente chamada Black Eyes, se assemelha muito com a representação da mulher negra por uma força comumente masculina, como ocorreu com a Núbia nos quadrinhos da Mulher Maravilha (lembra desse texto? Escrevi sobre o assunto aqui!).

“Cabeça de Pássaro”

Entre tiros, facadas e lutas está muito sexo e até mesmo aulas de cultura oriental. Passando por descrições da história do crime organizado chinês, como no caso da sociedade secreta Green Bang (também chamada Qing Bang), às interferências políticas e militares da Guerra Fria nos continentes asiático e africano, percebe-se que houve pesquisa para sua feitura. A arte bastante competente e detalhista, apresenta belos cenários e corpos quase sempre desnudos. Nunca vi tanta luta de pelados! Armas brancas aparecem aos montes, com destaques para as aparições de uma “Cabeça de Pássaro” (arma do povo Fang, do Gabão), uma mabele Hunga Munga (arma do povo Mangbetu, da região do Congo), uma chakram (disco cortante bastante usado pelos Sikhs da Índia) e até mesmo uma espada katana do próprio Muramasa Sengo (século XVII). Colírios para os aficionados por cutelaria!

Crying Freeman pode ser uma divertida narrativa para quem procura doses certas de violência e erotismo, mesmo com um certo estranhamento. Há uma certa influência de O Poderoso Chefão no começo da série, inclusive com a presença de um Corleone na história! Buscando entender um padrão em cada arco, me surpreendi em muitos momentos com definições de piedade e mesmo de família. Isso me marcou afetivamente com a série, por isso mesmo guardada aqui dentre as carinhosas da coleção. Mas não espere a Bela e a Fera quando for ler! Seja quadrinho, animação ou filme, Crying Freeman é um inusitado conto de fadas.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

More Posts

  • Até concordo quanto a Julie Condra, mas o Dacascos tem ancestrais filipinos e chineses, geralmente faz papel de oriental, estranho foi em Double Dragon, onde foi irmão gêmeo do Scott Wolf.

  • Stefano Barbosa

    vi o OVA de Crying Freeman… o protagonista é verdadeiro garanhão. heheheh