Cadê a Mulher Maravilha nas bancas e livrarias?

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Não é incomum que as amizades venham em conversas privadas ou mesmo em postagens abertas comentar sobre leituras de Mulher Maravilha. Dois amigos, Filippo Pitanga e Samantha Brasil, por exemplo, ficaram encantados com a história de Hiketeia, lançada pela editora Panini em 2003. Marina Cavoli, querida amiga carioca, me mostrou orgulhosa os encadernados que adquiriu recentemente sobre a princesa amazona. Com o advento do filme, muito material foi lançado, bem verdade, mas ainda temos tantas coisas fora de catálogo que me fizeram perguntar: Cadê a Mulher Maravilha nas Livrarias?

Muitos poderão dizer que faço uma crítica exagerada, já que podemos ver muitas publicações da Mulher Maravilha, inclusive livro teórico. Oportunamente, a edição de Mulher Maravilha após o evento Renascimento, saiu no momento em que Diana estreava seu primeiro filme longa metragem nos cinemas. Neste ano de 2017, desde fevereiro, a editora Panini tem publicado em volumes, a fase de George Perez, além de dar continuidade à fase de Brian Azzarello desde abril do ano passado. Infelizmente, comparada a seus dois irmãos, Superman e Batman, a Mulher Maravilha sofre de um desconfortável atraso. Um exemplo simples é a série Lendas do Cavaleiro das Trevas, que já trouxe material de Alan Davis, Gene Colan, Jim Aparo, Marshall Rogers, Neil Adams, que entre 2014 e 2016 foram distribuídas num total de 19 edições. Diana está chegando em seu quarto volume, ainda em George Perez.

Hiketeia: a capa!

Não há muita dificuldade em se entender o apelo comercial de outros personagens, mas talvez a super-heroína esteja em seu melhor momento agora em 2017. O exemplo que dei acima, Hiketeia, poderia sem sombra de dúvidas ganhar uma republicação. Primeiro por se tratar de uma das melhores obras sobre a personagem, escrita por Greg Rucka e com a bela arte em parceria entre J.G. Jones e Wade Von Grawbadger, originalmente em 2002. Inclusive tal obra faz uso de dois importantes elementos na história da personagem: o conhecimento de Grécia Antiga e violências sofridas por mulheres em situação de risco. Hiketeia com certeza seria (ou será, quem sabe) uma obra a ser devorada pelo entusiasmado público recente da Mulher Maravilha. Outra passagem criativa de Greg Rucka no título da princesa amazona foi em Mulher Maravilha: Rivalidade Mortal, pela mesma editora, Panini, em 2006.

Outro atraso considerável tem no oportuno momento um espaço não apenas para dar continuidade a uma série, como para enriquecer uma biblioteca de tais obras. Estou falando do selo Crônicas, que desde o ano de 2007 vem trazendo ao público brasileiro as primeiras edições dos grandes astros da editora DC Comics. Batman e Superman começaram a ser publicados em 2007, hoje com 3 edições, cada. Já o Lanterna Verde começou em 2009, e publicaram duas edições. É bem verdade que a super-heroína já era minimizada em sua terra natal, já que Batman e Superman alcançaram 10 volumes e ela apenas 3. Entretanto, não seria o momento ideal desse material, boa parte inédito e com os discursos originais de seu criador, estar nas livrarias brasileiras? Essas primeiras edições, aleatoriamente, chegaram a sair aqui em edições como Coleção DC 70 anos (volume 3), em 2008, e Coleção DC 75 anos (volume 1), em 2010, ambas pela editora Panini. Na época saiu até mesmo uma coletânea semelhante com o Superman e com o Batman, o primeiro em 2008 e o segundo em 2009.

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Coletânea com histórias de diversos períodos dos 70 anos da personagem.

Não é uma crítica agressiva, uma acusação de abandono sobre a super-heroína, já que fomos agraciados por muitas boas obras. Há de se aplaudir a encadernação belíssima de Mulher Maravilha: Terra Um (comentei até dela em outra postagem, lembra? Lembre aqui!), roteiro de Grant Morrison e a linda arte de Yanick Paquette, em dezembro de 2016. Além, claro, citando mais uma vez, a excelente fase de George Perez, com seus tratos feministas, e a recente encarnação da super-heroína nos volumes de Brian Azzarello. Faz-se, também, referência às edições Mulher Maravilha: O círculo (edição 17), Mulher Maravilha: Paraíso Perdido (edição 26) e Mulher Maravilha: Deuses e Mortais (edição 38), como parte da coleção da Eaglemoss, entre 2016 e 2017.

Mas se posso sugerir, nesta crítica, algumas boas edições, que com certeza vão agradar o leitor que quer revê-las ou mesmo os que gostariam de conhece-las, faço das fontes de minha pesquisa boas recomendações. O centro de minha pesquisa no mestrado, a saga das Amazonas de Bana-Mighdall (Lembre que falei delas? Aqui!), ainda dentro da fase do George Perez, mas que é bem capaz de ser lançada nos volumes próximos da série Lendas do Universo DC (saiu aqui, pela editora Abril, em 1991, na edição 23 da revista Super Power). A fase Segunda Gênese, de John Byrne, de 1995, poderia ser lançada completamente por aqui, não apenas para sanar as crateras narrativas provocadas pela editora anterior, como, também, trazer um bom material para o público atual. As duas fases supracitadas caberiam muito mais confortavelmente em edições fechadas ou fazendo parte de uma coletânea, infelizmente não aproveitada no ano passado, quando Diana completou 75 anos.

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Espírito da Verdade, uma obra prima!

Muitas edições icônicas, hoje bastante afastadas tanto pelo tempo quanto pelo contato com o público leitor, podem fazer parte desta lista. Acredito que a edição Mulher Maravilha: O Espírito da Verdade, com arte de Alex Ross com roteiro de Paul Dini, publicado em terras brasileiras pela editora Abril em 2002, posteriormente em volume coletânea, pela Panini, em 2008, com sua belíssima capa pintada, conquistaria de imediato quem anda em busca da imagem de Diana nas livrarias. Seria interessante, também, ler o período em que os editores fizeram drásticas mudanças na Mulher Maravilha, nos trabalhos de Denny O´Neil e que foi publicada no Brasil pela editora Ebal a partir de 1972 como As Aventuras de Diana (que comentei no texto sobre estética na Mulher Maravilha). Claro, não há necessidade de abarrotar bancas e livrarias com coisas, não é ser oportunista, mas ser oportuno, já que após o filme a curiosidade e o interesse do público aumentou consideravelmente.

As demandas são muitas, não apenas para um personagem-produto como Mulher Maravilha, nem mesmo se limita a sua editora, DC Comics. O mercado enfrenta muitas adversidades, e nem sempre dá para agradar a Gregas e Troianas, mas talvez se possa fazer de tal crítica acima, não uma devassa acusatória, mas uma sugestão não apenas para republicações, mas, também, às leitoras e leitores de caçarem em sebos as obras supracitadas, uma espécie de “cânone” aqui listado, que inclui o material que está atualmente acessível.  Nessa espécie de “seleção natural” das bancas e livrarias, o apreço do público é muito importante para as decisões editoriais, mas nada como permitir que o mesmo saiba que acervo existe antes do hoje!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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