Corajosa Ripley: Feminismo & a metáfora do Estupro Masculino na Franquia ALIEN

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Meu primeiro contato com Alien foi ainda muito novo, assistindo pela madrugada a programação de um canal de Tv aberto. Se eu estava sem o menor sono sem motivos e busquei na televisão um entretenimento, acabei presenteado de um motivo perfeito para não dormir mais. Lá estavamos nós, eu e a subtenente Ellen Ripley, tensos com a presença horrenda de uma criatura de outro planeta. A protagonista passava uma mistura ambígua de segurança e insegurança, sabendo tomar decisões inteligentes e sensíveis interferências causadas pelo medo. Se posso listar personagens que amo no cinema, com certeza Ripley está neste panteão (e é alguém que eu realmente escolheria pra ter por perto). Quando pude voltar a burlar a vigilância familiar (eu não tinha exatamente a idade pra assistir tais filmes) e assisti as continuações, amenizei o medo com a certeza de que Ripley era a pessoa certa pro trabalho.

Ellen Ripley e Jones (lembra dele?)

Muitos antes de Imperatriz Furiosa, de Mad Max (o mais recente filme, Estrada da Fúria, de 2015), Ripley bateu de frente com uma medonha praga no silêncio do espaço (onde ninguém pode lhe ouvir gritar). Não é apenas uma protagonista bem estruturada, como, também, um personagem que amadurece durante cada um dos filmes. Interpretada por Sigourney Weaver na flor da idade (com seus 30 anos na época), Ripley está no primeiro filme, Alien, de 1979, na continuação Aliens, de 1986, no terceiro filme Alien 3: o resgate e por fim em Alien: A ressurreição, de 1997. Sem a presença da personagem, a franquia ainda lançou os filmes onde a criatura divide tela com o predador (outro alienígena famoso dos cinemas), mas que mal valem a menção aqui. Atualmente foi lançado o filme Prometheus, em 2012, que narra suspense dentro do mesmo universo de Alien e que merece, quem sabe, uma atenção separada em outro texto.

Ripley é uma viajante do espaço sideral que confronta perigosos alienígenas, e isso em si não seria nada incomum na ficção científica. As aberrações vindas de outros mundos já fora tema de literatura fantástica, como as novelas de horror gótico de Howard Phillips Lovecraft (ou H. P. Lovecraft, para os íntimos), no começo do século XX, com imagens medonhas de seres de lugares desconhecidos. A literatura Pulp, entre o final do século XIX e início do XX, se valeu de diversas narrativas de confronto entre seres humanos e criaturas vindas de outros planetas, como na obra A Guerra dos Mundos, de Herbert George Wells (H. G. Wells, para os íntimos). No caso de Alien, além do protagonismo feminino sob a égide em maturação de Ripley, trata-se, também, de um projeto intencional de causar desconforto sexual e violento nos telespectadores masculinos.

O roteirista de Alien, Dan O’Bannon, assumiu que se valeu de um desconforto, o abuso sexual, para caracterizar o horror em Alien. Mas não se trata de um abuso objetivamente centrado em Ripley, pelo contrário, o alvo foi o público masculino. Ele mesmo, O´Bannon, em sua fala, afirma que buscou “ataca-los sexualmente”, em documentário sobre a série de filmes lançado em 2002, The Alien Saga. Atacar os homens.  Sim, O´Bannon assume sair do comum e orquestrar um desconforto para seu público masculino, através de metáforas de violências sexuais e seus incômodos frutos: A violação oral (e demorada) de um parasita, a “gravidez indesejada” e, por fim, o nascer de um monstro de dentro do corpo (no caso, do corpo do Primeiro Oficial Kane, atuação de John Vincent Hurt). O´Bannon diz: ‘E eu não vou atrás da mulher na audiência, eu vou atacar os homens”. Em matéria para o site Cracked, David Dietle se aprofundou em detalhes sobre esse projeto de violação masculina, pode ser lido aqui.

A grotesca arte de H. R. Giger

Isso justifica, também, a escolha da estética artística de H.R. Giger como visual de Alien: surrealista amalgama grotesco entre o humanoide, o inseto e o maquinário. Foi justamente O´Bannon quem apresentou a arte para o diretor Ridley Scott, com o compêndio de obras publico com o titulo de Necronomicon, em 1977. A criatura que inferniza a vida de Ripley na maior parte dos filmes, até então, tem uma aparência abjeta e obscena, bastante presente na linguagem visual do artista, num surrealismo fantástico digno do universo literário de H. P. Lovecraft.  Há um medonho pênis com dentes vindo de outro planeta e ele parece uma barata. Giger faleceu em 12 de maio de 2014, e fiz uma nota sobre seu falecimento que disponibilizo hoje em minha página (leia aqui!). Esse é o clima e o design que assombram Ripley nos corredores da nave de cargas Nostromo, num futuro onde a humanidade alcançou as estrelas.

Sigourney Weaver in Aliens (1986)jamarish: “ Ripley has to be in a sci-fi kickass ladies picspam, it’s the law ”
Atitude e coragem em ambientes hostis

As dificuldades da Subtenente Ellen Ripley não estavam exclusivamente ligadas á figura grotesca do alien. Desde o primeiro filme, era preciso impor suas decisões e competências que não estavam diretamente ligadas ao seu gênero, mas permite-se subentender. No primeiro filme, Ripley busca impedir a entrada de corpos estranhos (o tal parasita no rosto do Primeiro Oficial Kane), mas as lideranças masculinas, principalmente pelas figuras do Capitão Dallas e do Oficial de Ciências Ash, sabotam sua posição protocolar. Somente diante das reviravoltas do filme é que Ripley toma as rédeas da ação, mostrando uma progressiva maturação enquanto protagonista e enquanto pessoa. Ripley cresce nos três primeiros filmes. Este duplo protagonismo (sim, como personagem principal e como ocupação do espaço de poder), faz de Ripley uma personagem muito interessante.

 Ela não faz o arquétipo de herói de ação, impávido, que enfrenta o monstro com performance casca grossa. Ela tem inteligência, tem emoções, comete deslizes e até mesmo algumas atitudes que soariam covardes no romantismo ficcional, mas que são bastante plausíveis na vivência da realidade. Ripley tem medos, tem traumas, mas tem justamente a coragem de fato (a coragem, segundo Aristóteles, é o equilíbrio virtuoso, entre a covardia e a temeridade imprudente). A heroína está confortavelmente inserida no ambiente cultural de feminismo da segunda onda, e muitos críticos já abordaram a relação entre pautas feministas, como o controle do próprio corpo, a violência sexual em inversões de papeis de gênero, entre outros, e a franquia de Alien (quer ler mais um texto sobre o assunto? Leia aqui!).

Ripley andrógina e ameaçada

É o “campo e batalha” quem lapida o protagonismo e liderança de Ripley, em narrativas ondas as figuras masculinas são visivelmente temerárias e desastrosas. Na quadrilogia formal de Alien não há uma panfletagem educativa sobre equidade de gênero, mas narrativas que deixam questionamentos claros. No segundo filme, a personagem feminina, a soldado Vasquez (interpretada pela atriz Jenette Goldstein), surge com performances agressivas tidas por masculinas, acrescenta mais tempero para essa relação saborosa entre a ficção e as causas sociais. A crueza das desigualdades de gênero ocorre no terceiro filme, quando o bote salva-vidas que garante a sobrevivência de Ripley no filme anterior acaba caindo num planeta prisão com muitos homens lascivos e violentos, uma tensão de violência sexual intensa. Mas em Alien: A ressurreição tais questões ficam mais translúcidas e dão lugar à violência e ação, típicas de filmes de ficção científica que mesclem terror e aventura.

Nossa Ripley torna-se a heroína humanizada, ocupando os espaços outrora dominados pelo masculino e ainda assim não perde sua feminilidade. Nas cenas finais do primeiro filme ela se permite uma seminudez, uma fragilidade passageira, uma fugaz sexualidade que a narrativa de tensão não lhe permitiu antes. Ela não o faz por pauta política ou agenda militante, ela faz por uma objetiva progressão inteligente de sua competência diante das circunstâncias que envolvem o choque de criaturas, e isso não se faz menos feminista. O choque entre feminino e masculino, o choque entre ficção e realismo, o choque entre o humano e o alienígena. Nestes embates de polos a potencialidade de Ripley transpassa os limites que possam, quiçá, terem lhe sidos impostos. Mas, no fim das contas, a Ripley, duplamente protagonista e ambivalente entre o medo e a coragem, é a pessoa certa para o trabalho.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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