Dramas de Africanos Escravizados em Quadrinhos – a obra Cumbe

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Vivemos, atualmente, um momento crucial de mudanças no ensino, com a retirada de matérias como história e geografia do currículo obrigatório do ensino médio. Ainda assim vigora a lei 10.639 que estabelece “o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil” (Veja a lei aqui!). Com a medida, busca-se visibilizar a participação dessas pessoas do nosso passado e confrontar o ainda presente e resistente racismo em nosso país.

Mudanças veem ocorrendo em livros didáticos e novos paradidáticos foram elaborados e inseridos como instrumentos pedagógicos para auxiliar os profissionais de ensino nesta nova empreitada. Em apresentações minhas em todo o país, quando meus trabalhos se relacionavam com África, muitas pessoas vinham ao final do evento me procurar para saber quais histórias em quadrinhos usar e que maneira elas poderiam ser melhor aproveitada. Fiz o texto Tintin no Congo e a Lei 10.639: Conflitos e Acordos para a Aplicação em Sala de Aula, justamente para oferecer uma oportunidade de uso em aulas de história (o artigo está presente no livro Quadrinhos & Educação – volume 3, e pode, ainda ser adquirido através deste link). Recentemente, buscando uma leitura diferenciada, fui recomendado por Larissa, proprietária da Loja RV Quadrinhos, em Salvador (Veja o endereço da loja), pela HQ chamada CUMBE.

Marcelo D´Salete

Cumbe foi lançada em 2014 pela editora Veneta, com apoio do Governo do Estado de São Paulo e pela Secretaria da Cultura no ano anterior. Marcelo D´Salete, seu autor, já havia feito outras duas HQs tratando de racismo, Noite Luz e Encruzilhadas, mas o local temporal da narrativa de Cumbe é o período escravista do Brasil. O autor paulista, graduado em Artes Plásticas e mestre em História da Arte pela USP, fez criteriosa pesquisa sobre a história da escravidão no Brasil para a feitura de suas quatro narrativas independentes e presentes no álbum Cumbe. A riqueza de informações, mesmo as não explícitas, são prato cheio para o professor de ensino médio que quiser fazer uso do quadrinho como instrumento paradidático e dentre tantas possibilidades eu fiz alguns apontamentos e sugestões possíveis.

Antes de tudo é preciso entender que o uso dos quadrinhos como suporte precisa do cruzamento de informações de outras fontes. Se o objetivo é iluminar um conhecimento sobre  a África, as populações que foram escravizadas, é bom ter em mente (e em aula) que a diversidade era muito grande, a sua generalização é fruto do sistema escravista, raiz basilar do racismo contemporâneo. A costa africana transmitiu pessoas escravizadas entre os século XVI e XIX, legalmente ou contrabandeadas, em ciclos. O etnólogo Pierre Verger definiu esses ciclos como ciclo de Guiné (segunda metade do XVI, geralmente sudaneses), ciclo de Angola e Congo (entre o final do XVI e final do XVII, além dos angolanos e congoleses, houveram moçambicanos),ciclo da Costa da Mina (por quase todo o século XVIII, por conta de um surto de varíola em Angola, forçando os traficantes a buscar escravos em Gana e na Guiné, maioria de etnias sudanesas) e por fim o ciclo de Benin (entre 1770 e 1850, com forte presença das etnia iorubá).

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Cena de revolta armada em Cumbe

Os escravos eram forçados a trabalhar em diversas funções, mas seu uso mais corriqueiro foi na monocultura da cana-de-açucar. No quadrinho Cumbe estão presentes seus lugares físicos (Casa Grande, Senzala, Moenda, Igreja), sinais e signos (religiosidades, maternidade e hereditariedade), suas pessoas (Senhor, escravos, capitães do mato, crianças e velhos), mesmo que não sejam apontados e descritos. Até isso seria redundante. O foco de D´Salete é a narrativa, carregada de dramaticidade, mostrando os prismas de sofrimentos que as pessoas tão agredidas podem nos expor em feridas no corpo e na alma. São quatro histórias que nos apresentam, cada uma delas, uma miríades de informações e podem, conjuntamente ou separadamente, serem lidas e interpretadas pelos alunos numa sala de aula.

A primeira história, Calunga, fala sobre laços afetivos interferidos pela transformação dos indivíduos em mercadorias. Um casal sofre por conta de negociatas que envolvem suas pessoas, desespero e angústia levam a um desfecho fatídico. Logo nas primeiras páginas temos as vestes paupérrimas (frutos de críticas até mesmo da época), espaço físico e instrumentos do eito, Marcelo D´Salete enriquece o trabalho com detalhismo sobre o cenário. Há novas incorporações dos cativos, como a aceitação da fé cristã no uso de colares com crucifixos, e a permanência de uma memória simbólica, com a constante presença de um ideograma sona. O mar é um percurso muito forte para a lembrança das pessoas escravizadas, foi o trajeto desumano, seus lugares natais deixados para trás, “dois infinitos ali se estreitam num abraço insano” (Navio Negreiro, de Castro Alves).

Chibinda Ilunga

Na história Sumidouro, é a maternidade indesejada dos afetos contraditórios entre senhores e escravas e seu fruto proibido. É uma narrativa de silêncios. Ali, também, estão os amplos cenários, o tédio rotineiro dos viventes da Casa-Grande, suas opulências até no tempo, contra a miséria dos cativos. Herdeiros bastardos não são apenas segredos, são tabus. A hereditariedade não faz do infante escravo menos escravo e isso é um problema. Longe da colheita e do trabalho com a cana está a escrava doméstica. A proximidade com a casa faz laços mais íntimos, bastantes presentes na obra Casa-Grande e Senzala, do Gilberto Freyre (que inclusive tem até uma versão em quadrinhos lançada pela editora Global em 2005). Nesta narrativa é perceptível a força moral que a igreja tinha diante da casa e das relações pessoais, inclusive as sexuais.

A terceira história com o mesmo título do livro, Cumbe, fala de um tema bastante emblemático nas relações e dinâmicas da escravidão: a revolta. É uma narrativa repleta de signos a serem lidos, desde o simbolo da tartaruga cabinda, como símbolo de resistência, como o castigo no pelourinho e seu papel de exemplo visual, e também as escarificações identitárias. Há um supersticioso gato preto que nos lembra do infortúnio dos homens e mulheres cativos, bem como era um sinal de má sorte oficialmente registrado pela igreja desde o século XV, pelo Papa Inocêncio VIII, ficando quase perene na crença popular até os dias atuais. A figura de uma matriarca e sua bagagem de saberes, sua memória, narrando oralmente os passados dos envolvidos. A anciã ainda tem a companhia de uma estatueta de Chibinda Ilunga, rei herói mítico que explica a cisão da casa real Lunda. É uma história sobre a negação, segundo o filósofo Frantz Fanon, “ao assassinato daquilo que há de mais humano no homem: a liberdade” (FANON, 2008, p.184).

O cenário de Malungo, a quarta e última história, é justamente um povoado de escravos fugidos, escondidos e protegidos em grupos, isolados em mocambos, também chamados quilombos. Laços sociais e familiares entre os cativos, abusos cometidos pelo feitor, violências sexuais, são muitos temas que podem ser abordados nesta narrativa. A arquitetura mocambo em contraste com a da fazenda também serve como ponto de reflexão sobre a necessidade humana dos lugares. O quibungo, monstro folclórico das matas, já citado por Nina Rodrigues em Os Africanos no Brasil, faz sua bela alegoria às circunstâncias que envolvem a narrativa. O desfecho da história, quase onírico, é festivo e o traçado parece as bailantes figuras em belos contrastes da arte de Carybé em seus Sete Portas da Bahia. Belo.

As narrativas de Marcelo D´Salete são uma mistura bem aproveitada de crítica tensa contra as injustiças humanas e carinhosa ternura com as memórias dos oprimidos. No final do livro, nos oferta um glossário com as palavras mais presentes nas narrativas e uma lista de referências bibliográficas com nomes como Nei Lopes e Robert Slenes. O educador deve fazer a pausada e crítica leitura da obra antes de inseri-la em sala de aula, para pode usufruir ao máximo do que ela pode ofertar e fazer a abertura de diálogo franco em sala de aula. Cumbe é um lazer, nos oferta dramas humanos de tempos de dramas humanos, sem tornar-se piegas nem na narrativa e nem na dramaticidade. Uma das boas descobertas que fiz e certamente quero encontrar mais quadrinhos assim. E mais, pretendo usar e ver sendo usado esse quadrinho tão competente na proposta.

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Saiba mais!

CARYBÉ. As Sete Portas da Bahia. Correio Cultural. Pan Artworks, Salvador, 2014.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Editora EDUFBA, Salvador, 2008.

FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Editora Record, Rio de Janeiro, 1998.

VERGER, Pierre. Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX. Editora Corrupio, Salvador, 2002.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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