Duas-Caras: Mito, Psicologia e História

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Janeiro é o mês de homenagem ao deus Janus. Esse deus romano é representado em ilustrações e estatuárias como um homem com duas faces, sua associação direta é a dualidade e a mudança. Quando celebramos essa passagem entre um passado anual encerrado e um futuro porvir, nos encontramos em janeiro, o mês de Janus. No panteão de vilões esquizofrênicos do Batman, eis que o Duas-Caras faz da dualidade um jogo mortal decidido por uma moeda! Cara e coroa decidem os destinos daqueles que estão a mercê de seu poder. Traumas mudam as mentes das pessoas, e tanto o personagem ficcional quanto um real nos mostrarão tais paragens. Mitologia, história, psicologia… Vamos começar a HQmnese de 2017 com esse plano infalível!

Cabeça de Janus – Museu Nacional Etrusco

A mitologia romana, de onde se originam muitos nomes do calendário ainda em vigor, nos fornece Janus (ou Jano) como a origem do primeiro dos meses. Não tem influência do panteão grego, como é bastante comum à mitologia romana. É uma divindade bastante singular, presente nos calendários desde Numa Pompílio (715 a 672 a.C.) e descrita por Ovídio em seu poema Fastos, sobre os louvores elegíacos aos deuses romanos. Nestes textos, escritos no começo da era cristã, Janus é descrito como uma espécie de porteiro, detentor de transições entre mundos, com suas duas faces voltadas para dois polos distintos. Por conta disso, não é difícil entender que a psicologia busque na representação de Janus uma referência simbólica para a mudança de humor, de personalidade ou caráter. Nas edições de número 62 e 63 da revista Batman: Shadow of the Bat (lançada originalmente em 1992, e no Brasil na edição #25 de Batman – 5ª Série, pela editora Abril em 1997), a história que confronta Batman e Harvey “Duas-caras” Dent se chama Janus.

Duas Caras é um vilão do Batman que agrega numa única persona a dualidade e suas duas opostas faces. Criado em agosto de 1942, o Duas-Caras é inspirado no conflito entre o doutor Jekyll e o senhor Hyde no livro vitoriano O Médico e o Monstro, de autoria de Robert Louis Stevenson. O promotor Harvey Dent, bondoso, honesto e honrado defensor da justiça na cidade de Gotham, durante uma audiência contra o mafioso Sal Maroni teve o lado esquerdo de seu rosto desfigurado por um ácido (no caso do filme Batman: O cavaleiro das Trevas, de 2008, o personagem, interpretado por Aaron Eckhart, foi desfigurado pelo Coringa, interpretado por Heath Ledger). As histórias em quadrinhos onde a ameaça estava nas mãos de Duas-Caras tinham a dualidade como elemento crucial: o número de criminosos, o horário do crime, o endereço da ação, tudo com o Duas-Caras precisa ter a fixação com a dualidade.

Duas-Caras e sua moeda

Essa fixação sempre esteve presente em suas histórias. Em Faces (originalmente Batman Legends of the Dark Knight números 28, 29 e 30, em 1992, e no ano seguinte pela editora Abril, em minissérie em três edições com o título de Um conto de Batman: Faces), o vilão escapa do Asilo Arkham às 2:22 da madrugada, tem dois capangas gêmeos (Rômulo e Remo) que o ajudam a roubar um enorme símbolo Yin-Yang e um par de zebras. Esses são apenas alguns exemplos do comportamento obsessivo de Dent. E trata-se de uma obsessão consciente, justificando a existência de suas duas personalidades, a ausência de sua responsabilidade jurídica em nome da aleatoriedade decisória de uma moeda e promovendo a alegoria binária que tanto adoramos no vilão.

A personalidade dividida de Dent não se manifesta como um transtorno de bipolaridade, mas uma inquietação entre personalidades destoantes. Não enquanto identidades separadas, mas, uma dessas faces do Janus de Gotham é a ordem do consciente e a outra face, deformada, reflexo do caos do inconsciente. O Duas-Caras, em diversas histórias, apresenta o processo de trauma sofrido como estopim para uma relação aleatória com seus atos e suas responsabilidades. Tal antagonista está carregado de uma poética que só a (nona) arte poderia desfrutar, fazendo uso desse jogo entre oposições. A edição Duas-Caras Ataca Duas Vezes, em duas edições (publicada no Brasil pela editora Abril em 1995), traz duas histórias que estão recheadas de dualidades. Duas linhas de pensamentos surgem em caixas textuais na edição Batman vs Duas-Caras: Crime e Castigo (editora Mythos, 2002), onde as origens do personagem surgem como justificativa de sua relação doentia com o dois: seu pai, Christopher Dent, sofrendo de mudanças extremas de humor (no caso, ciclotimia, se considerarmos o tempo curto de mudança), o agredia.

Harvey Dent apresenta uma certa consciência de sua condição e da relação moral de seus atos, distante de uma oscilação de humor e, sim, um desequilíbrio de caráter. A relação do indivíduo com o seu espaço social (cultural e temporal) influencia a construção de sua índole. Por conta disso, não é um exercício simples fazer uma análise psicológica sobre Harvey Dent. Para começar, como ocorrido no texto sobre o Coringa, tratamos de um arquétipo fantasioso, um personagem construído e reconstruído por décadas de autores. A psicóloga Indianara Pereira de Melo, que auxiliou ricamente no texto sobre o Coringa, sintetiza o transtorno de bipolaridade como uma oscilação mais extremada de humor, com um dos extremos elevado e eufórico (maníaco) e o outro extremo lacônico e de anedonia (depressivo). Difícil definir sem uma profunda investigação, já que há uma parcela de caráter sempre envolvido e que podem definir a situação não como bipolaridade, mas, sim, um transtorno de conduta.

Mais do que diagnosticar o Duas-Caras, ou seja, um arquétipo romantizado pela glamourização maniqueísta, é importante entender os transtornos afetivos. A possível ciclotimia do pai pode ter atrapalhado a construção de sua própria identidade e parâmetros de caráter, impedindo Harvey de internalizar tal conjunto de valores que regem o comportamento muito antes de seu rosto ser bipartido pelo ácido.  Ainda que o transtorno de bipolaridade possa causar alucinações e interferências na cognição, não altera o caráter da pessoa, esse é um elemento de diagnose sobre o transtorno afetivo bipolar (leia mais sobre bipolaridade aqui!). O acidente de Harvey foi o gatilho de exposição de um caráter indesejado que socialmente preferiu esconder quando vestiu-se do status de nobre promotor público (sobre transtorno de conduta, leia aqui!).

Phineas Gage e seu acidente

Um personagem histórico padece mais intensamente dos efeitos de um trauma físico em seu caráter. Phineas Gage sofreu um bizarro acidente que deixou marcas não apenas em seu corpo, mas, significativamente, em sua mente. Trabalhando com explosivos de pólvora na construção de uma via férrea em 13 de setembro de 1848, Gage foi envolvido por uma explosão que lançou uma barra de ferro contra seu crânio, perfurando sua cabeça entre a bochecha e o topo craniano. Milagrosamente, Gage sobreviveu ao acidente, depois de diversas complicações. Seu intelecto não sofreu alterações, mas com o passar do tempo, apresentou mudanças de conduta: deixou de ser amável para tornar-se um sujeito agressivo, mentiroso, antissocial. Gage sofreu danos visíveis no córtex pré-frontal e a peça metálica transpassada seguiu presa ao seu crânio até o fim de sua vida. Essa região do cérebro lesionada é responsável pelas emoções, o que explicaria a mudança radical na personalidade de Gage, como entende o professor de neuroanatomia da UFRN Jeferson Cavalcante (leia sobre aqui!).

Casos diversos, ficção e realidade, o importante é entender que os diagnósticos são tratados complexos de responsabilidade de profissionais habilitados. Gage foi importante para a medicina a ponto de seu crânio, hoje, ser parte do acervo da faculdade de medicina de Harvard (saiba mais aqui neste vídeo! – em inglês). Harvey, por outro lado, é mais fruto de imaginários sobre a dualidade humana e as dicotomias nas relações sociais, entre o aceitável e o não aceitável. A relação entre Harvey e Bruce, entre Duas-Caras e Batman, é a de destino e escolha: o que cada um fez diante do trauma que lhe tirou a sanidade. Poderiam, ambos, serem reflexos quase perfeitos, se não fossem suas escolhas. Para Harvey, a moeda simboliza a fatalidade do destino. Para Bruce, o manto de morcego simboliza uma arriscada e necessária escolha.

Na edição Cavaleiro das Trevas (recentemente publicada em versão encadernada pela editora Panini), Harvey tem seu “defeito”, então, “corrigido”, mas isso não impediu que o mesmo cometesse crimes em nome da dualidade. Às vistas de todos, as duas partes de sua face foram perfeitamente igualadas, mas em sua imagem mental estava igualmente deformado. Quando, enfim capturado, Harvey quer que o Batman o veja, e o homem-morcego vê em Harvey um reflexo. “Só um reflexo”.

Em 2017, evitemos o fatalismo do destino e façamos escolhas! Que essa transição de Janus (janeiro), esse porteiro de duas faces, uma voltada para o passado e a outra voltada para o futuro, nos seja justamente isso: esse momento de ponderar as escolhas que fizemos e que faremos!

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“Eu vejo… um reflexo, Harvey. Só um reflexo!”

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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