É virtual a alma da ciborgue?

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“O principal problema com os ciborgues é, obviamente, que eles são filhos ilegítimos do militarismo e do capitalismo patriarcal, isso para não mencionar o socialismo de estado”, assim provoca a bióloga e filósofa Donna Haraway. A major Motoko Kusanagi é fruto dessas intervenções, é uma ciborgue protagonista do filme Ghost in the Shell (que no Brasil sairá com o título Vigilante do Amanhã), com lançamento para dia 30 de março. Ela tem seu corpo modificado, adequado, melhorado, mas onde está a sua alma? Sua alma ainda é humana?

Ghost in the Shell mangá

Os quadrinhos de Masamune Shirow e a animação dirigida por Mamoru Oshii tratam de um futuro possível, bastante influenciado pela cultura cyberpunk.  Originalmente lançado pela editora Kodansha entre 1989 e 1991, o mangá narra a perseguição de uma força especial chamada Seção 9 pelo criminoso cibernético conhecido como Mestre das Marionetes, no ano de 2029. A animação, de 1995 concentra a narrativa na busca e confronto da equipe liderada pela major Kusanagi na captura do terrorista. Em ambas as mídias, a protagonista confronta questões filosóficas sobre ser uma ciborgue, o quanto isso tem de afastamento de sua humanidade, e quanto que a essência humana justifica e legitima sua identidade individual. Há um fantasma na máquina?

Aos poucos, com o advento da tecnologia cada vez mais em avanço, o ciborgue está saindo do terreno da ficção e se fazendo perceptível na realidade social. Mais do que isso, à medida que nos entregamos às tecnologias, nossa materialidade dá lugar à nossa representação através de dados, como a meu pensamento (ou minha voz) aqui transpostos em registros digitais. Quando teclamos através de redes sociais, ou interagimos com infográficos, ou mesmo jogamos jogos de MMORPG, ou mesmo quando fazemos uso de realidades expandidas, já estamos, com tudo isso, saindo do espaço da mera materialidade. O que lhe representa no mundo digital não é seu corpo essencial, mas o fantasma que transita.

Paralympic athletics: the Right Stuff
Atletas paralímpicos

Os jogos paraolímpicos surpreendem com a quantidade de atletas que apoiados em instrumentos artificiais que substituem membros perdidos. Implantes e próteses seguem não apenas em possibilitar aos seres humanos reaverem suas possibilidades, interferidas pela perda de um órgão ou membro, mas podem, também, elevar a potência e superar as limitações da outrora normalidade. Empresas como a BeBionic já apresentam eficiências e precisões em próteses mecânicas que a poucos anos veríamos apenas em filmes de ficção científica (Olha só esse vídeo exemplo deles, de uma prótese que substitui um braço perdido, aqui!).

Com tantos artifícios para a funcionalidade de nosso falível e frágil corpo, há de se questionar o quanto dele podemos alterar sem nos perdermos em fios e placas. Filmes como Robocop já fizeram esse questionamento do que ainda nos faz os humanos que somos. Na obra cinematográfica de 1987, o policial Alex Murph sobrevive tendo seu corpo alterado por implantes cibernéticos. Sua consciência luta contra diretrizes frias e assume o controle sobre a parte máquina em seu corpo. Na versão mais recente, do diretor José Padilha, em 2014, uma cena dramatiza essa batalha física: Murph quer ver o que ainda é humano nele (não lembra da cena? Assista ela aqui!).

Robocop (2014)

A versão de Padilha nos remete a um construído limite: nós podemos perder partes de nosso corpo, elas podem ser substituídas, menos o cérebro. Correto? A essência do indivíduo, então, estaria no cérebro. O filósofo René Descartes (1596-1650) acreditava que a limitação de qualquer ser inferior aos humanos ou autômatos estava na alma. Sem a alma humana imortal e sua expressão de pensamento através da fala, as decisões e reflexões se anulam fora dela. O médico Julien Offray La Mettrie (1709-1751), em seu ensaio “O Homem Máquina”, não apenas compara o corpo humano a uma máquina metabólica, mas que qualquer outra materialidade igualmente avançada poderia alcançar inteligência e autonomia. Deste debate nasceu um amplo questionamento filosófico sobre a relação entre corpo e alma.

Quando Masamune concebeu a sua história, fez inspirado pelo livro O Fantasma na Máquina, de Arthur Koestler, de 1967. Nesta obra, o autor define a noção de hólon, onde a mente é, de uma mesma maneira, uma parte e o todo, ou mente grupal, e que sem a materialidade do cérebro ela é uma informação apagada. O livro, fruto do período de Guerra Fria e a ameaça nuclear, trata da autodestruição humana enquanto tendência fatal. A mente, atrelada ao corpo material, sem ele nada mais é que resquícios dos frágeis registros que deixou. A major Kusanagi, ao sentir medo, frio, solidão, e esperança, reflete: “Há ingredientes incontáveis que formam o corpo e a mente humana, como todos os componentes que me tornam um indivíduo com a minha própria personalidade. Claro, eu tenho um rosto e uma voz para me distinguir dos outros, mas, meu pensamento e lembranças são exclusivamente meus, tenho uma ideia do meu destino”.

A concha aberta

O cérebro, foco de muitas dessas questões sobre a materialidade da essência humana, é posto na mesa. Há um problema mente-cérebro que atiçou a atenção do filósofo Andy Clark, que cunhou o conceito de Mente Estendida. Neste conceito, Clark está afirmando que a mente humana extrapola os limites do cérebro, tendo em vista que a linguagem separa os humanos dos animais, mas a estrutura cerebral não é tão diferente, ou seja, os tão pequenos pedaços cerebrais que nos fazem diferentes dispensariam o todo do cérebro. Boa parte dessas pequenas singularidades já são processáveis por inteligências artificiais. A Mente Estendida vai além do cérebro, seria, então, nossa alma imortal? Se sim, já podemos dispensar o corpo para sermos quem somos.

Major Kusanagi

Quando, por ironia, nos questionamos do que separa um humano integralmente, com seu corpo “original” e um ciborgue, nos perguntamos o que é o ser humano. Sem as essências de nossos corpos definindo exatamente quem somos, ser homem ou mulher, são as construções sociais que fazem que nossas diferenças (físicas, de cor, de gênero) sejam determinantes para nossas desigualdades (injustiças sociais, sexismo, racismo). Como as nossas diferenças físicas não naturalizam as nossas identidades, quem somos, tudo isso é construído em nossa sociedade, então nossas existências prevalecem sobre tais essências. Como disse a socióloga feminista Heleieth Saffioti, “diferente faz par com idêntico. Já igualdade faz par com desigualdade” (SAFFIOTI, 2009, p.20).

Há, nisso, uma busca pelo corpo enquanto suporte de uma pureza humana, através da essência do ser. O que nos faz humanos, para os puristas essencialistas é a materialidade e a estrutura física. Esses questionamentos são feitos pela major Kusanagi, em algumas de suas falas ou mesmos nos seus silêncios. Quando ela pergunta para Batou o quanto dele é cibernético, a pergunta não tem inocência ou simples curiosidade, mas equalizar o que ainda é ou não humano. Numa balança de valores, a busca dessa alma legítima em corpo cibernético ou de alma virtual em corpo legítimo.

A Árvore da Vida

A filosofia anti-essencialista e todo o feminismo posterior à obra de Simone de Beauvoir, e o seu livro O Segundo Sexo, nega essa pureza. O machismo, por exemplo, se vale das diferenças essenciais físicas e biológicas entre homens e mulheres para determinar socialmente a hierarquia entre ambos. Deste ponto de vista, Donna Haraway faz sua provocação no seu Manifesto Ciborgue, de 1985, nos dizendo que “depois do reconhecimento, arduamente conquistado, de que o gênero, a raça e a classe são social e historicamente constituídos, esses elementos não podem mais formar a base da crença em uma unidade ‘essencial’” (HARAWAY, 2009, p.47).

Na animação, com a árvore da vida como painel de fundo, o debate entre a inteligência artificial e a major Kusanagi é seu clímax. A consciência da própria existência fundamenta o sentido de ser, concordando com os existencialistas. Agora é aguardar saber se o filme próximo irá fazer uso dessas reflexões presentes na obra original. Na apropriação mútua entre orgânico e inorgânico, Ghost In The Shell questiona a essência humana e faz de uma animação de ação policial futurista um gancho filosófico sobre a condição humana.

Quer saber mais?

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. In: HARAWAY, D.; KUNZRU, H.; TADEU, T. Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 33-118

KOESTLER, Arthur. O Fantasma da Máquina. Zahar Editores, 1969.

MOLINA, Suely Fernandes. Ciborgue: a Mente Estendida de Andy Clark. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de São Carlos. UFSCar, São Carlos, 2008.

SAFFIOTI, Heleieth Iara Bongiovani. Ontogênese e filogênese do gênero: ordem patriarcal de gênero e a violência masculina contra mulheres. Serie Estudos e Ensaios – Ciências Sociais. Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – FLACSO – Brasil – Junho 2009.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Stefano Barbosa

    massa!!boa reflexão!!

  • Stefano Barbosa

    conhece astroboy?
    O cientista que criou o protagonista queria substitui-lo pelo filho falecido…
    como se 1 máquina pudesse substituir 1 ser humano.

    • Savio Roz

      E qual a desculpa que ele usa para a “essência”?

      • Stefano Barbosa

        não conheço bem astroboy… mas o cientista estava inconformado com a perda

  • Stefano Barbosa
  • Carlos Eduardo Domingues

    Pelo que conheço sobre a major Motoko Kusanagi, ela JAMAIS seria o que é. Mangá, anime e filme se diferenciam um pouco nas questões sobre existência e vida(já vi o filme, e só arranha essas questões), mas a maioria foca que logo jovem, antes da puberdade, ela já possuía um corpo cibernético, então os hormônios que tb definem intelectualmente, ñ apenas sexualmente, nossa individualidade(escolha o sexo que for. A gama é enorme atualmente) ñ afetariam ela e nem deixaria seu encéfalo adequadamente amadurecer, ela viveria sempre no EGO, distante de um ser plenamente desenvolvido. A outras questões biológicas que a falta de um corpo biológico(msm q recebesse hormônio artificialmente) poderia causar msm uma desintegração da identidade dela.
    Mas ainda é quadrinho, é ficção, e é divertido, então vale tudo. Bom comentar tb sobre Alita-Battle Angel.