Erotismo ou Pornografia? Giovanníssima resposta!

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As pessoas parecem definir confortavelmente as diferenças entre erotismo e pornografia, como se fosse um dualismo fácil de se apontar pelo moralismo. Essa semana, eu me preparo junto com a pesquisadora e educadora Saoara Sotero para compartilhar, mais uma vez, nossos estudos sobre o tema. No próximo dia 10 de setembro, falaremos de erotismo e pornografia na cidade de Salvador, Bahia. E torna-se oportuno falar do tema também neste meio. Com franco diálogo com a artista Giovanna Casotto, veremos que essa baliza da representação da sexualidade não é algo fácil de se fazer.

A história humana pode toda ser contada por meio das amplas sexualidades e suas representações. Registros arqueológicos já denunciavam a safadeza de nossos antepassados e como diversas culturas humanas, em praticamente todo o planeta, exploraram tanto da sexualidade quanto de sua repressão. A concepção do erotismo, ou seja, daquilo que é moralmente legitimado, teve seu ápice filosófico na Europa do século XVI. Já sua contraparte censurável, a pornografia, foi conceitualizada como o estudo higiênico sobre a vida no meretrício entre os séculos XVIII-XIX no mesmo continente. Essa separação sempre foi delimitada não por uma muralha reconhecível, mas por imaginários e discursos de valores.

0055Os valores humanos são fluidos e mudam de acordo com cada sociedade historicamente construída, logo o que é aceitável pra um povo pode (e o é) inaceitável para outro. Isso funciona de comida, vestimentas, performances, e, claro, sexualidade. Então, a fronteira entre erotismo e pornografia muda por duas razões: pelo lugar cultural e pelo tempo. Aquilo que chocou num dado momento e fora tratado como escandaloso, com o passar do tempo tornou-se poético, corriqueiro, de lascividade apropriada. E quando esse erotismo (ou a pornografia) faz parte do universo das artes? Como delimitar o marco de separação entre as duas rotulações?

As histórias em quadrinhos possuem o gênero onde a sexualidade é representada, algumas vezes com humor, outras vezes com devassidão sexual, e até mesmo como elemento presente no terror. Muitos nomes floresceram e ganharam destaque, como Jordi Bernet, Kyo Hatsuki, Fréderic Boilet, Julie Maroh, Tom da Finlândia, Guido Crepax, Paolo Serpieri, Carlos Zéfiro, Milo Manara, entre tantos. Reparou na quantidade de italianos nesse mercado de delícias? Pois é em uma italiana que centraremos a reflexão aqui.

croped-1466713951Recentemente, tivemos no Brasil a publicação de mais uma álbum da italiana Giovanna Casotto, a obra Giovanníssima. A nova publicação é deste ano de 2016 e foi lançada pela editora Veneta. A artista já prestigiou o público brasileiro com uma obra lançada em julho de 2006. Giovanna, lançada em álbum de capa dura como parte da coleção Eros da editora Conrad, trouxe dez divertidas histórias de pura lascívia. E assim é a marca visual da artista. Ainda que não dispense as boas preliminares, ela vai direto ao ponto: o prazer como ele é!

Se tem uma coisa que a Casotto é, é ser divertida. Sua arte ultrarrealista, muitas vezes lúdica nos usos das sombras e das cores, nos remete justamente a isso: um prazer feliz. As imagens mexem com nossas libidos, mas, também, o bom humor que acompanha cada narrativa. Em listas de mulheres quadrinhistas eu sempre friso o papel que Giovanna Casotto exerce na história dos quadrinhos eróticos.  E o mais curioso: seus desenhos são feitos de fotos dela mesma! Sim, ela é a própria modelo ideal de suas mulheres!

giovanna x-menO gênero é rotulado como erotismo pelos editores da Conrad na ficha catalográfica da edição brasileira de Giovanna. Significativamente, o termo é praticamente um legitimador. Mas o que define exatamente uma publicação pornográfica? Diagnosticar isso torna-se um assunto complexo, já que não se trata mais das sexualidades e suas representações, mas de um regime de valor: aceitável e não aceitável.  Alexandrian, autor do livro História da literatura Erótica, discorda da dicotomia entre erotismo e pornografia. Para ele, o erotismo é a revalorização da pornografia, e que a verdadeira dicotomia seria entre o erótico e o obsceno. Este, o obsceno, é a sujeira, a vulgaridade, a depreciação da sexualidade.

Como colocamos num dos slides da primeira edição do bate-papo Erotismo Ou Pornografia? – discursos e representações das sexualidades, que efetivamos em 2015: Quem é capaz de determinar os limites? De afirmar, com autoridade e livre de preconceitos, o que é pornografia e o que é erotismo? Qual o intento de Giovanni Boccacio de fazer o Decamerão na Itália do século XIV? E as palavras diretas de Anaïs Nin em Delta de Vênus? Mas temos, então, as palavras de Giovanna Casotto sobre sua obra.

Segue a entrevista!

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Savio Roz: Giovanna, com o seu conhecimento da história da arte italiana, qual é a sua distinção e compreensão do erotismo e da pornografia?

Giovanna Casotto: As paixões, os instintos, os atos com respeito ao sexo variam de indivíduo a indivíduo fazendo do erotismo uma questão completamente pessoal. Consequentemente, uma imagem, um espetáculo, um assunto, podem parecer eróticos para alguns e pornográficos para outros. Diz-se que a pornografia é o erotismo dos outros, nunca o próprio! Com efeito, como pode o próprio impulso sexual, que é também um impulso vital, considerar-se pornográfico e/ou obsceno? Em suma, a fronteira entre erotismo e pornografia oscila seguindo o próprio gosto e pudor. Quem pode dizer que essa ou aquela imagem é pornográfica em vez de erótica? Deixo a você a resposta. No entanto continuo a desenhar quadrinhos. Eróticos ou pornográficos que sejam, pouco importa. O objetivo é de satisfazer devoradores de imagens que sonham comigo certas fantasias e dividem comigo certas emoções.giovannacasotto

SR: Sua arte é feita inspirada em imagens de si mesma. É inspirada por uma estética dos anos 1950, mas ainda assim está sempre presente. Como você classifica sua produção artística entre a dicotomia erotismo / pornografia?

GC: Gosto das imagens das pin-ups dos anos50 porque comunicam felicidade e alegria. Não amo os tons sombrios no erotismo, não amo o lado gótico, o sofrimento da dominação que muitos desenhistas atribuem ao ato sexual. Para minhas mulheres o sexo é jogo, luz do sol, risada. Eu desenho feminilidade, mais que sexo (também quando desenho atos sexuais). E feminino é tudo o que pertence apenas à mulher. Da sensibilidade de ânimo à celulite. Do fascínio da sedução à graça com a qual uma mulher rebola andando, de pé descalço ou calçando sapatos de salto agulha. Do ato de assumir posturas provocantes a piscadas e sorrisos. Esta é a feminilidade que gosto de representar. Uma feminilidade brincalhona e despreocupada, típica das “pequenas mulheres” do pós-guerra, que amavam se enfeitar valorizando com roupas e acessórios as próprias formas como forte apelo sexual para o homem. Mas atenção! Não falo de mulheres-brinquedo, mas de mulheres que brincam, ironicamente, jocosamente.

SR: Você já foi questionada sobre sua arte ter caráter erótico ou ser produto de pornografia? Como você reage a estas possíveis definições de fãs e da mídia?

GC: Tenho que admitir de não ser particularmente interessada a esses aspectos sociológicos, nem aos valores que os outros atribuem ao meu trabalho e ao dos outros desenhistas. Sempre desenhei na base de um sentido estético, nunca tive pretensões de aprofundamentos psicológicos. Pelo menos até então. Falando a verdade, começo a desenhar uma história em quadrinhos, Sem saber se vou acaba-la e quando irei acaba-la…quero que não seja influenciada por prazos e pela pressa de publica-la…verá a luz se for seu destino, senão a terei para mim: é uma história de introspecção, um pouco autobiográfica, sem o lado louco das histórias que sempre desenhei.

91td5R3cR9LSR: Uma vez que você começou a trabalhar com quadrinhos, como se dá sua relação com a indústria cultural de quadrinhos? Você tem total autonomia em seu trabalho ou serve diretrizes e políticas editoriais? Você já sofreu qualquer censura?

GC: Nunca sofri censuras desde o momento que desenhei pornografia. Estou fora do ambiente dos cartunistas, não leio quadrinhos e não tenho contato com desenhistas. Em relação ao aspecto editorial, tenho a sorte de não receber vínculos ou controles sobre o que desenho.

SR: Como é a receptividade do público feminino sobre a sua lasciva e histórias engraçadas em quadrinhos?

GC: Com certeza os quadrinhos pornô são lidos sobretudo por homens… os meus, no entanto, são dedicados às mulheres, esboçam sempre mulheres vencedoras, irônicas, irreverentes…sei que também as mulheres gostam muito, elas provavelmente percebem um lado diferente. Por outro lado, eu amo a feminilidade, amo a mulher.

SR: Obrigado por sua participação e simpatia, Giovanna! Saiu recentemente no Brasil a sua editora Giovanníssima pela editora Veneta. Qual a mensagem que você deixa para os seus leitores brasileiros?

GC: Nunca tive a ambição de enviar mensagens, quem me conhece sabe bem disso. A única coisa que gostaria de dizer aos meus leitores brasileiros é um imenso “Obrigada!”. Me sinto verdadeiramente honrada.

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Aos interessados na segunda edição de Erotismo Ou Pornografia? – discursos e representações das sexualidades, teremos o prazer recebe-los no Colégio Acadêmico, na rua Pará, número 301, bairro da Pituba, e acontecerá no dia 10 de setembro a partir das 14 horas. Em jogos de imagens e dialogo aberto, falaremos de diversos temas com os participantes, sem nenhuma intenção de saberes unilaterais. A entrada é franca!


Referências:

Alexandrian. Historia de la literatura erótica. Planeta, Bogotá, 1991.
CASOTTO, Giovanna. Giovanna. Editora Conrad, São Paulo, 2006.
CASOTTO, Giovanna. Giovanníssima. Editora Veneta, São Paulo, 2016.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Muito boa a entrevista!

    • Savio Roz

      Obrigado, Wallace! A gente pensa o Plano Infalível com esmero! Continue conosco!