A Estética Histórica da Mulher Maravilha

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A beleza da Mulher Maravilha esteve ao meu lado durante os dois últimos anos em que me dediquei exaustivamente à dissertação. Não era o foco do trabalho, mas não havia como evitar olhar seus traços visuais em mais de 70 anos de produto e não pensar sobre padrões de beleza e estética. Um olhar menos atento poderia chegar a uma rápida conclusão: de que é um padrão de beleza pré-estabelecido, que meramente é uma sexualização ou mesmo que a herança de sexualidade dissidente (a prática BDSM) deslegitima qualquer liberdade à princesa amazona. Quando falamos de construções estéticas de padrões de beleza, falamos de uma história de lutas para se ampliar esse valor. A jornada histórica que vivenciei ampliou muito mais a percepção sobre a construção da imagem (e da beleza) da Mulher Maravilha! Vamos conhecer os momentos?

Atleta e Dominatrix

Quando foi concebida no segundo semestre de 1941 como projeto pedagógico de inserção de personagem feminina de destaque, a Mulher Maravilha se chamava Suprema: the Wonder Woman. Mas o editor Sheldon Mayer achou melhor deixar apenas Wonder Woman (Mulher Maravilha). Imaginada como uma mítica guerreira amazona (Falei disso neste texto, lembra? leia aqui!), pois seu criador William Moulton Marston tinha enorme fascínio pela mitologia dos helenos, sua imagem deveria trazer tais elementos. Mas longe do falso mito da amazona com apenas um dos seios, a integral mulher, sob a arte de Henry George Peter, mantinha não apenas os dois seios como, também, vestia-se bem diferente de suas irmãs guerreiras. Peter vinha de uma escola de arte de pinups, mas teve que adequar seu traço e fazer uma mulher mais robusta, com um corpo mais atlético. E adequar as vestes de uma dominatrix nas cores (aproximadas, já que havia o dourado) da bandeira dos Estados Unidos, para compor material de interesse do Estado em envio do material ao front de guerra. Longas botas, bustiê acompanhado num primeiro momento de saia, em seguida de short. Essa super-heroína forte e de postura pró-ativa logo sofreria o recuo que atingiu as mulheres no pós-Guerra.

Uma Mulher Maravilha mais “feminina”

Com a morte de seu criador e o afastamento de Peter, o editor Mayer confiou as revistas da Mulher Maravilha para Robert Kanigher. A esposa de Marston, Elizabeth Marston, até tentou convencer Kanigher a ser fiel à proposta do marido: de fazer uma super-heroína forte e poderosa que inspirasse as meninas e valorizasse poderes femininos, mas Kanigher tinha uma postura bastante diferente da de Marston. Buscando “feminilizar” a Mulher Maravilha, em sintonia com os discursos das mulheres voltarem aos seus lugares femininos “naturais” (passivas, maternais e românticas), Kanigher instruiu os artistas, como Irwin Hasen, de que a Mulher Maravilha devia ser mais delonga, afeminada, que suas longas botas eram demasiadamente agressivas, seu cabelo muito arredio, e que seria interessante que tivesse um drama romântico na figura de um gentleman, Steve Trevor. Era o esperado pelo reacionarismo sexista após o retorno dos soldados da Europa. O grande objetivo para o feminino, com essa mentalidade, era o de atender ao “natural” papel de esposa e mãe. Durante as décadas de 1950 e 1960, a personagem viveu essa feminilidade padronizada e controlada dentro das expectativas dos papéis sexuais. Traços delicados, como da sandália de fitas no tornozelo, apesar da costura e das cores se manterem, a postura e as linhas do corpo diferenciam para atender um público feminino, na projeção dos editores.

Uma Mulher Maravilha Fashion

O movimento feminista estadunidense dos anos de 1970 chacoalharam seu mundo social, inclusive os padrões de beleza. Com marchas de mulheres questionando os rígidos padrões de beleza, como o valorizado pelo concurso de Miss America em 1968. O concurso de beleza enaltecia milimetricamente um padrão ideal feminino, e os movimentos feministas, em repúdio, buscaram ampliar o bem estar de mulheres que não atendiam a esse padrão fazendo crítica ao modelo imposto. As ativistas jogaram em grandes lixeiras objetos e revistas que determinavam o que era belo ou não para uma mulher. Os editores da Mulher Maravilha viam nisso uma oportunidade de mudar seu visual para atender às novas exigências femininas, então resolveram afastar a princesa amazona de seu povo bélico (e de seus super-poderes) e a aproximaram de heroínas da TV como Emma Peel do seriado Avengers (Os Vingadores – não os da Marvel). Mas o tiro saiu pela culatra: além de perder seus dotes super-heroícos, Diana descontentou as feministas com um visual que mais valorizava o padrão presente em revistas como Vogue. Com a crítica a isso fazendo parte da capa de uma revista feminista em 1972, a editora voltou atrás sobre as mudanças. Foram-lhe devolvidos o uniforme e os super-poderes.

Lynda Carter

Lynda Carter

Mas longe dessa história toda nos periódicos de entretenimento em quadrinhos, muita gente guarda carinhosamente uma lembrança imagética da Mulher Maravilha. Para uma geração que viveu sua juventude na década de 1970, foi a Lynda Carter quem definiu a aparência estética da guerreira amazona e tornou-se referência. A atriz havia perdido na seleção para o papel da super-heroína em 1974, mas a série não passou de um episódio piloto. Em comparação com a atriz que obteve o papel nesta primeira tentativa televisiva, sugere-se que Carter não atendia certos padrões: era mais alta, quadril bastante largo, e tinha cabelos negros e não loiros (sim, essa Mulher Maravilha da série de 1974 era a loira Cathy Lee Crosby). Mas a seleção seguinte foi conquistada por Lynda Carter, que encarnou a super-heroína por 3 temporadas entre 1976 e 1979, até hoje reconhecida pelas pessoas como a emblemática Mulher Maravilha. Depois dos eventos ocorridos entre o final dos anos 1960 e início de 1970, com críticas às mudanças no uniforme e na mitologia, os editores, roteiristas e figurinistas optaram por uma fidedignidade nas vestes e na narrativa.

Arte de Darwyn Cooke. Mulher Maravilha bastante corpulenta e visivelmente mais alta que o Super-homem.

Longa jornada até a diversidade

Juliana Alves (Atriz e modelo)

Nos quadrinhos, os artistas, aos poucos, tinham mais ou menos liberdade na hora de construir visualmente os personagens. Durante a década de 1980 o artista George Perez inspirou-se na imagem de Lynda Carter para fazer os desenhos, e construiu uma narrativa atualizada da personagem, dando-lhe posturas mais libertárias. Durante a década de 1990, porém, imperou uma maré estética rigorosamente padronizada no fit e uma hiper-sexualização que descamba facilmente ao deplorável.  Mas artistas diversos puderam enriquecer o acervo estético da Mulher Maravilha, como foram Alex Ross, Trina Robbins, Cynthia Martin, Phil Jimenez, Jill Thompson, Rachel Dodson, Darwyn Cooke, entre outros. E fora do próprio mercado de quadrinhos, artistas independentes já fizeram uso da imagem da Mulher Maravilha para escapar ainda mais do padrão, como a grandiosa Mulher Maravilha de Mike Wieringo e a atriz Juliana Alves fazendo cosplay da super-heroína para o projeto de Noemia Oliveira e Orlando Caldeira, com fotos de Guilherme Silva, para questionar a representatividade do negro na mídia. São usos do ícone da Mulher Maravilha para se repensar os padrões vigentes, um exercício ao mesmo tempo de criatividade e de criticidade.

Os padrões de beleza são construções sociais, são valores predeterminados de uma hierarquia que regulamenta os corpos. As mulheres são as vítimas mais expostas, já que tais padrões de beleza lhes são impostos desde a infância e tendem a lhes causar culpas e vergonhas em não atender a regimes e regras. Atacam suas autenticidades, promovendo um medo de rejeição que interfere danosamente em suas vidas. Os padrões de belezas, bem verdade, se ampliaram com o tempo, atendendo aos mais diversos tipos femininos (masculinos e andróginos), mas ainda perpetuam a hierarquia racial, desvalorizam corpos que escapam a pesos determinados, ocultam possibilidades de belezas em faixas etárias além da juventude. A Mulher Maravilha, a Tempestade (X-men, Marvel), a Miss Marvel, Faith (Valiant), são modelos que podem, dentro da narrativa de entretenimento, questionar o mundo que nos cerca. Não precisam ser padrões. Para que possamos desfrutar das diversidades em suas possibilidades sem que opressões aprisionem nosso bem estar.

Arte de Mike Wieringo

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Indianara Pereira de Melo

    Que texto mais delicinha! O que será que as eras vindouras farão da nossa querida Diana?

    • Savio Roz

      Algumas edições mais recentes trazem posturas e imagens curiosas. A primeira delas é a Mulher Maravilha: Terra Um, que comentei em texto aqui: http://planoinfalivel.com/reimaginando-as-raizes-da-mulher-maravilha/
      A outra, Wonder Woman: The True Amazon, com arte e roteiro de Jill Thompson, apresenta uma origem diferente, traços bem diferentes do já usado.

  • Stealth

    Vê-se que o cenário político influencia fortemente na caracterização da personagem, nesse tempo de incertezas, resta saber se a influência virá de Bernie ou Trump. O tempo dirá.

    • Savio Roz

      Além disso: Se será o conservadorismo ou a liberdade que definirão seu comportamento e seu papel de ícone feminino.
      Mas como ela estava lá nos protestos contra Trump… Espero que ela seja oposição sempre! 😀