Historietas Populares do Peru: Para Fazer Quadrinhos Autônomos

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Quando perguntadas sobre livros falando sobre quadrinhos e sua produção, as pessoas lembram rapidamente de Will Eisner e Scott McCloud. Eisner escreveu dois livros: Quadrinhos e Arte Sequencial, em 1985, e Narrativas Gráficas, em 1996. Mcloud fez três obras: Desvendando os Quadrinhos, em 1993, Reinventando os Quadrinhos, em 2000, e Desenhando Quadrinhos, em 2006.  Anos antes, um entusiasta das HQs chamado Juan Acevedo Fernández de Paredes, produziu uma obra pedagógica sobre o tema, chamada Para Hacer Historietas, num período bastante conturbado da história peruana.

????????????????????????????????????É preciso contextualizar o lugar temporal onde essas coisas ocorreram. O Peru vivia um período de controle militar, que se estendeu entre 1968 e 1980. Foram duas fases: a primeira controlada pelo então Comandante Geral do Exército Juan Velasco Alvarado, e a segunda por Francisco Morales Bermútez Cerruti. Juan Acevedo lecionou história da arte e quadrinhos justamente nessa segunda fase, tida pelos historiadores e cientistas políticos como mais conservadora, e foi nesta que ele publicou Para Hacer Historietas.

A publicação saiu pela primeira vez em 1978 no formato livro, pela editora estatal do governo peruano, a INIDE, ainda sob regime militar. Entretanto, tanto a sua distribuição quanto a manutenção da publicação estavam longe dos interesses do Estado. O material ficou engavetado por anos, até que, depois de muitas mobilizações sociais e de grupos como o Movimento Revolucionário Túpac Amaru e o Sendero Luminoso,  houve a restauração do sistema democrático e de eleições, bem como a restituição da liberdade de expressão. Essa abertura foi crucial para que a obra de Juan Acevedo voltasse a ser publicada.

parahacerhCom o retorno de periódicos livres, o Centro de Publicações Educativas TAREA publicou o material dividido-o em oito fascículos, e em material bastante acessível: papel de baixa qualidade. Suas capas, bastante significativas, trazem uma rápida narrativa onde manifestantes da classe operária reivindicam por jornadas de trabalho máximas de 8 horas e confrontam as forças  policiais de controle no processo. Obviamente, essa capa jamais seria vista durante o Regime Militar peruano. Seu conteúdo buscava tecer os tópicos mais básicos na construção de uma história em quadrinhos: conceito de quadrinhos, o desenho, linguagem, elementos (requadros, balões, onomatopeias, etc), entre tantos outros.

A trajetória da obra serviu tanto para a pesquisa histórica sobre a produção de quadrinhos no Peru, quanto no seu uso didático no ensino multidisciplinar. Pesquisadores como Roberto Elísio dos Santos e Aline da Silva Ferreira, como exemplos,  já fizeram uso da obra para o ensino de quadrinhos e estímulo do aprendizado pela criatividade. Outros pesquisadores, como Barbara Zocal da Silva e Thiago Modenesi, preferem debruçar sobre questões históricas e políticas. Os dois recentemente estiveram na Segunda Jornada Temática de Quadrinhos em 2016 organizada pelo Departamento de Letras da USP. E trataram no evento , por exemplo, do quadrinho Sendero Luminoso, de Jesús Cossío, Luis Rossell e Alfredo Villar, recentemente lançado pela editora Veneta aqui no Brasil.

contato-imediato-como-fazer-historias-em-quadrinhos-715101-mlb20273199535_032015-fNo Brasil a publicação de Juan Acevedo saiu no ano de 1990, pela editora Global, como o título traduzido Como Fazer Histórias em Quadrinhos.  A obra, com explanações sobre elementos básicos dos quadrinhos, com exemplos e exercícios, também faz uma objetiva abordagem da história da mídia, ilustrada em quase sua totalidade. Em certo momento, no fascículo 6 da coleção da Tarea, por exemplo, dedica reflexão sobre a Historieta Popular, que data da década de 70 do século XX e Acevedo classifica como:

“Elaborada geralmente por aficcionados, com intenções diametralmente opostas às do mercado ou indústria capitalista, busca alcançar com mensagem libertadora o leitor, quer incentivar sua consciência, encorajar sua ação no meio em que vive”.

4624Essa produção engajada também tinha a criatividade a seu favor, já que os meios de produção não lhes garantiam o sucesso e são frutos do “faça você mesmo”, nesta cultura independente. Fazem valor os seus esforços de distribuição, muitas vezes ligadas a organizações populares ou mesmo pela pretensão individual. O autor também é conhecido pelos quadrinhos El Cuy, porquinho-da-índia antropomórfico criado em 1977, e Tupac Amaru, sobre o líder indígena que promoveu o levante anticolonial no século XVIII e que Juan Acevedo narrou com esmero artístico e rigor textual.

Juan Acevedo não é o pioneiro em produzir um tratado educativo sobre a produção de histórias em quadrinhos, talvez o seja para a América espanhola. De todo modo, a importância de seu trabalho está muito mais atrelada a um projeto pedagógico de autonomia para o educando, sintonizando com a Pedagogia da Autonomia do educador brasileiro Paulo Freire. Reconhecer em sua comunidade os traços que lhe dão significado e conseguir fluí-los em narrativas em quadrinhos, aplicando os conhecimentos sobre sua manufatura sem perder de vista as suas singularidades sociais. Essa postura diferencia Acevedo de seus dois colegas que citei no início deste textos, que tinham outras preocupações quando fizeram seus tratados sobre o fazer quadrinhos.

art-f19-73-336-609Se este material tem um valor além do estrutural, ou seja, além do de ensinar algumas técnicas, conceitos e elementos, é justamente o de inspirar o seu fazer. Com os tantos acessos que temos aos meios técnicos e criatividades que as adversidades podem nos forçar a florescer, fazer quadrinhos, hoje, é uma proposta possível.  O suspiro artístico de um mundo social que vive intempéries políticas pode surgir na forma de histórias em quadrinhos. Que esse material venha a enriquecer não apenas o acervo daqueles que pretendem viver no mundo das produções de narrativas gráficas, como, também, possa trazer mais um ponto de vista desse vasto prisma. O intuito aqui, também, é de sanar aquilo que a gentil e educativa Chimamanda Adichie chama de “perigos de uma história única”, e que tenhamos mais uma história sobre a história da história em quadrinhos.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Stefano Barbosa

    gracias por el articulo!

  • Mario Latino

    De fato esse livro é subestimado. Eu o tenho e o utilizei muito quando dava aulas, oficinas de histórias em quadrinhos. No nível de Quadrinhos e Arte Sequencial de Eisner.