A Historiografia e os Quadrinhos (primeira parte)

investigatorbatman

(ou, como pesquisar histórias em quadrinhos em História – parte 1 – parte 2parte 3)

Todo pesquisador passou por seu calvário dentro do espaço acadêmico para fazer sua voz ser ouvida (seus textos serem lidos) quando o assunto são histórias em quadrinhos. Isso não deve jamais ser um fato desestimulante para o novato no meio, já que esse trajeto é enriquecedor. Recentemente, durante e ao término do meu tão saboroso mestrado, optei em direcionar minhas energias e atenções para a minha área: História. Apesar do meio da pesquisa em quadrinhos (num geral) ter me dado tantos amigos (e algumas pontuais decepções), sempre serviu mais como um porto seguro, um lugar de descanso. Mas um bom pesquisador precisa de ação: precisa ter suas ideias colocadas em cheque, enfrentar outros pesquisadores em tatames acadêmicos, octógonos científicos, onde conhecimento e bagagem é testado.

Mar Calmo Nunca Fez Bom Marinheiro.

Então resolvi voltar para o nicho da História e através das raízes possíveis, historiografia, mitologia, história de periódicos, enfim, uma infinidade. Justamente nesses espaços encontrei entusiastas, geralmente neófitos, que querem começar a pesquisar quadrinhos, sem saber por onde começar. Menos do que já foi, ainda persiste hoje um certo (e indelicado) repúdio dos professores mais ortodoxos sobre histórias em quadrinhos enquanto fonte. Claro, ora! Eles não sabem ler quadrinhos, eventualmente só tiveram contato com esse suporte narrativo na infância, não saem da caixinha! É mais do que lógico que olhe com descrença ou desconfiança para uma fonte tão inusitada. Há, também, a situação singular de que geralmente o pesquisador tem um enorme envolvimento com a fonte, podendo muitas vezes ser uma grande sacada ou um desastre visível, e professores-orientadores preferem não “sujar seus filmes”.

No contrapelo do glamour dos gangsteres!

A pesquisa em história que se vale de histórias em quadrinhos como fonte tem crescido no Brasil. Ainda assim, são números bastante tímidos do lado da massiva produção da área de comunicação, por exemplo. Além disso, muitos dos trabalhos ainda estão buscando convencer a academia de sua viabilidade, geralmente fazendo o enfadonho trabalho de re-explicar o que são quadrinhos, descrever seus elementos, rememorar seu passado originário. Vamos deixar isso de lado, por favor! Quando trabalhamos outras fontes, como por exemplo as cartas de alforrias, não precisamos mais explicar o que foi o mundo social genérico deste documento, não voltamos às origens da escravização das populações africanas. Não é, então, nosso dever explicar (e re-explicar) isso para a academia. Já temos os vanguardistas que já fizeram essa entrada, como Álvaro de Moya, Moacy Cirne, Zilda Augusta Anselmo e Antonio Luiz Cagnin, entre outros.

Então os quadrinhos são, para o historiador, objeto e fonte para a compreensão de um passado, seja distante de nossa vivência ou relativamente próximo. Quando digo fonte, estou falando em sua classificação bem objetiva para a historiografia: a produção ou produto humano que carregue, em si, discursos e testemunhos. As histórias em quadrinhos são produções (e produtos) de um dado momento histórico, de uma realidade social e que se fazem através de narrativas impregnadas de imaginários e discursos. Pronto, já legitimamos as HQs como fontes históricas possíveis. E, também, são objetos de seu dado passado, seu momento. São pertences de seu lugar social e temporal, e também são parte deste mundo, através de sua produção e comercialização, através de seu consumo e de uma cultura que as norteiam e lhe fazem sentido. As histórias em quadrinhos são meios para se entender o passado e são parte desse passado.

Angelo Agostini descreve (e faz chacota) com a sociedade carioca no Brasil Imperial, século XIX.

Mas não sejamos inocentes diante das histórias em quadrinhos.

As histórias em quadrinhos, enquanto objetos-fontes do passado, não são canais plácidos, que transcorrem o passado tal qual ele é. Isso não acontece com nenhuma fonte e/ou objeto da história, não seria diferente com as histórias em quadrinhos. Logo é preciso entender que o cruzamento de fontes é uma prática fundamental. O historiador Jacques Le Goff em seu trabalho História e Memória nos fala a respeito disso, tratemos os quadrinhos, então, como nossos documentos:

“O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da História, da época, da sociedade que o produziram, mas mas das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio” (p.472).

O candidato do Homem-Aranha!

Então é preciso compreender que qualquer pesquisa que se valha de histórias em quadrinhos como objeto-fonte tem que partir do pressuposto de que a narrativa, a arte, até mesmo as pequenas singularidades do mercado, são frutos de escolhas, expectativas, são projetos de seus idealizadores sintonizados com as hegemonias imaginárias e representativas de sua sociedade. Alerta-nos Le Goff: “cabe ao historiador NÃO fazer o papel de ingênuo” (p.427). Investigando os espaços e as circunstâncias em que as histórias em quadrinhos foram feitas, saberemos ainda mais sobre elas, além das leituras de suas páginas e balões.

É deste lugar seguro que podemos iniciar uma investigação sobre o passado tendo as histórias em quadrinhos enquanto objeto-fonte. Sobre sua mesa, caso seja o seu intento essa empreitada, deve conter a história em quadrinhos (ou seu conjunto pré-determinado), fontes que tratem da própria historiografia para que lhe garanta a segurança teórica e metodológica, e, também, uma boa bagagem textual sobre o período histórico correlato com a HQ e o lugar de pertencimento de seus produtores, autores, etc. Não há qualquer novidade aqui, talvez apenas um auxílio para quem tenha alguma insegurança diante disso. Não há novidade, por que a própria produção crítica sobre o passado, o que chamamos história, é esse fazer investigativo. Por mais que a metodologia possa ser bastante flexível (e isso é muito bom), alguns procedimentos são cruciais para um caminhar seguro.

E como escolho as fontes? Já posso sair pegando qualquer quadrinho por aí?
Calma, gafanhoto! Vamos aos poucos tratar desses assuntos! No próximo texto, a segunda parte, acesse aqui mesmo!

Leia mais!

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 1996.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Henrique Barreto

    Sempre vislumbrei esse viés nas HQs, a reflexão sobre o ser humano em seus contextos, as “eras” das HQs que refletem o século XX, é uma riqueza só, e tudo com a imagética como primordial. Sou formado em História, sempre usei quadrinhos nas aulas, cinema e literatura fantástica também, mais me fascina a ficção científica. Aqui em Fortaleza, faço palestras voluntárias em escolas públicas utilizando-me de imagens em peso pra falar de História e Filosofia por meio de cultura pop. @projetopensehistoria

    • Savio Roz

      São esses trabalhos os mais valorosos, Henrique. “Trabalhos de formiguinhas” que no final formal algo complexo e útil para a sociedade. Boa batalha!

  • SarmentPeppers .

    Tamo junto parceiro. Tô no doutorado em Psicanálise falando de Batman e Cinema… a gente aguenta muito petardo, umas áreas mais, outras menos. Na minha é só porrada na cara. Mas vamo que vamo.

    • Savio Roz

      A academia está bem mais flexível hoje do que já foi. Mas ainda temos muito tatame pra beijar, antes de levantarmos o cinturão! Depois fala mais de seu trabalho! Já dialoguei com psicólogos e psicanalistas sobre os vilões (os textos estão aqui mesmo no blog), depois dá seu feedback!
      Abraço!

      • SarmentPeppers .

        show, vou ler com calma depois tudo! grande abs!

  • Muito boa a série de artigos, Sávio! Te adicionei no Facebook para trocarmos ideias sobre pesquisa em HQ! Abraços!

    • Savio Roz

      Obrigado pelo feedback, Guilherme! A proposta do Plano Infalível é justamente essa de manter entretenimento e conhecimento juntos!