A Historiografia e os Quadrinhos (segunda parte)

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(ou, como pesquisar histórias em quadrinhos em História – parte 1 – parte 2 – parte 3)
Já leu a primeira parte deste trabalho? Não? Não tem problema, pode fazer isso aqui mesmo!

As histórias em quadrinhos são fontes tão legítimas quanto cartas de alforria, diários pessoais, partituras, gestos, etc. Mais do que a simples leitura de seus textos e imagens, é fundamental que se leia criteriosamente as entrelinhas: o lugar social (físico e temporal) de sua feitura, os discursos que corrobora ou os que confronta, quais imaginários prevalecem e quais são postos em cheque. Sim, é preciso bastante sensibilidade e critérios! Mas, quais fontes assim não exigem? A historiografia já superou os grilhões que eram os “documentos oficiais”, fazendo hoje uso de uma amplitude de fontes. Claro que tudo isso muito bem cruzado, já que toda fonte sozinha tem falhas nos seus dizeres e tem mudez em alguns momentos.

Capitão América para Presidente! 1980!

O ponto inicial de uma pesquisa pode parecer a fonte, mas não o é. Ou melhor, pode partir da fonte, sim, mas é o questionamento que faz bombear seu sangue, que lhe dá vida. A pesquisa em história se faz por um questionamento crítico sobre o passado em sintonia com exigências do presente. Quais perguntas você consegue fazer para as histórias em quadrinhos que você selecionou? Não se preocupe, essas perguntas não precisam ser as mesmas do começo ao fim do trabalho. Elas podem mudar. Quando eu pesquisei o Capitão América, no texto “Ninguém Conhece o Capitão América: Os diversos discursos de Steve Rogers na História política dos Estados Unidos” (acessível aqui!), eu tinha perguntas no início que foram mudando à medida que eu cruzava estudos sobre discursos políticos e história política com as posturas dos autores responsáveis pelos dizeres de Steve Rogers em décadas de quadrinhos.

Assim como com outras fontes, a origem da fonte é marco fundamental para a feitura da investigação. Com as histórias em quadrinhos, é preciso entender a história de seu mercado, saber como funciona a sua dinâmica de entretenimento. Como um empreendimento aparentemente banal de um momento de recessão e crise (A crise de 1929) conseguiu se tornar um grande império (ou grandes impérios em intensa disputa) que hoje cresce na grande tela. De pequenas e despretensiosas tiras diárias (em jornais), feitas por um pequeno punhado de indivíduos, hoje são presenças em diversos suportes, como cinema, televisão, jogos de videogame, em gigantescas empresas formadas por numerosos profissionais. Só isso já faz importante esse tipo de investigação, seja ela macro ou micro.

Na seleção das fontes é preciso conhecer, mesmo que basicamente, a amplitude e história dessa produção. Quando histórias em quadrinhos agregaram os elementos que hoje lhe identificam, quando a produção de narrativas visuais e textuais transitaram entre os jornais e se fundamentaram enquanto publicações próprias e os diálogos feitos por essas narrativas e as sociedades que as produziram e consumiram. Entender isso é fundamental para se escolher as fontes, como um fruto de uma árvore em um vasto pomar. A relação de intimidade do pesquisador com a fonte (produto) é muito bem-vinda, tomando os devidos cuidados! Por exemplo, para se escolher o quadrinhos japonês Crying Freeman, de Kazuo Koike e Ryoichi Ikegami, foi feita a seleção por obra fechada, construída na segunda metade dos anos de 1980 e com diversas referências à máfia criminosa no modelo oriental, com presenças fortes de sexualidade e gênero (leu esse texto? Aqui ele!).

Thor e toda a mitologia foram adequados ao mundo ocidental de moral cristã, com estética visual do começo dos anos 60!

De forma bem simples, quanto mais você afastar a lente, mais você vislumbra estruturas maiores, como representação e imaginário, e quanto menor for o foco da mesma lente mais específicas são as singularidades, como discursos e micro história. Num trabalho que fiz sobre o Thor, “Thor: Da Mitologia Nórdica ao Mercado de Quadrinhos” (completo aqui!), comparei a construção arquetípica do super-herói com sua versão da mitologia escandinava medieval, ou seja, entendendo como se adaptou o arquétipo de Thor da mitologia para o mercado de quadrinhos no período da contracultura. Pronto! Foi a necessidade de meu questionamento sobre arquétipos que me fez construir uma espécie de “história comparada”, onde os dois Thors, o mito original e sua versão do entretenimento, podiam ser comparados e criticados, nos fornecendo dois ideais de indivíduos e de moral completamente diferentes. Aqui se faz presente a Longa Duração (longue durée), de Fernand Braudel, que vai compreender as mudanças culturais com uma temporização mais larga.

Aya de Yopougon

Em outro trabalho, esmiucei as representações femininas e seus contrastes na obra Aya de Yopougon, da Marguerite Abouet, claramente buscando na singular narrativa da autora costa marfinense imaginários sobre a África e posturas e lugares das mulheres para a crítica na sociedade brasileira. O pesquisador Julio Sandes também trabalhou a obra com a lente bem pontual. Pronto! Eu tenho, então, uma representação feminina bem específica, de um subúrbio da capital da Costa do Marfim, e que pode dialogar com outras realidades de confrontos de mulheres com os papéis de gênero. Temos a Análise de Discurso e a Representação, fazendo a alegria de Émile Durkheim e Peter Burke. Então eu posso trabalhar com a história quantitativa e a história qualitativa, sem que elas se choquem ou mesmo que a ampliação ou a redução deslegitimem meu trabalho.

Então… como escolher as fontes para se trabalhar? Você pode partir de um questionamento (por exemplo, como são representadas as mulheres nos quadrinhos do Conan nos anos 80) e buscar a seleção das fontes, ou pode ter um conjunto de fontes e dele sondar os melhores questionamentos (com os quadrinhos da Mulher Maravilha, como são os seus discursos feministas? Como fiz recentemente na dissertação). Escolheu as fontes, vamos dissecar elas: Quem as fez? Quando as fez? Qual o público alvo? A publicação nacional difere da original? Qual a distância temporal de ambas as publicações? Quais valores promove? Quais ideias ou posturas questiona?  Quando pesquisei Núbia, a Mulher Maravilha Negra (Aqui o texto!), fiz questão de pontuar a publicação original e sua edição brasileira, ambas datadas, esmiucei no artigo (o científico, aqui!), os dados de seus autores e as circunstâncias sociais e políticas que envolvem as mulheres (e África). Nada diferente com o que acontece com outras fontes. Como geralmente suas narrativas são através da ficção e da fantasia, muitas vezes transmitem os anseios de uma sociedade e as suas projeções de futuro ou de mundo maravilhoso, alimentados pelos avanços do conhecimento ou como críticas às persistências de mundos considerados atrasados.

O futuro imaginado num desenho de 1930! As mulheres fazem uso de aparelhos que transmitem imagem e sons de pessoas que estão em outros lugares! Só o carro com asas ainda faz parte da fantasia!

A sua seleção de fontes precisa atender uma razão, exige um dado esforço para que a opção seja útil. Punhados de revistas avulsas seria o mesmo que qualquer outro punhado não criterioso de fontes. A importância da lente de observação, de análise, é fundamental para nortear essa escolha. O inquérito da fonte é indiscutível! Faça com que essas publicações sejam bem investigadas, que lhe permitam a segurança de trabalhar com elas. A grande sagacidade é compreender onde as histórias em quadrinhos se aproximam de outras fontes, como revistas e jornais, onde suas narrativas se assemelham à mitologia ou à literatura, ou como a cultura é fundamental para construir a verossimilhança dessa ficção com a realidade. As histórias em quadrinhos são excelentes suportes de narrativas do entretenimento que falam da imagem de si dos seus idealizadores ou dos seus sonhos de futuro! Prato cheio para um curioso historiador e ponto de partida para a crítica social!

“Ufa, então podemos dizer que as histórias em quadrinhos são objetos e fontes da história e eu posso escolher as fontes de acordo com os questionamentos críticos úteis para minha sociedade! As histórias em quadrinhos me trazem o passado!” Opa! Calma lá que as coisas não são tão simples assim! No próximo texto vamos falar das imagens do passado que são feitas nas histórias em quadrinhos!

 

Para ler mais!

BRAUDEL, Fernand. A Longa Duração. In: Escritos sobre a História. Editora Perspectiva. Lisboa, 1992.

BURKE, Peter. O que é História Cultural?. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2005.

DURKHEIM, Émile. Sociologia e Filosofia. Martin Claret, São Paulo, 2009.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Stefano Barbosa

    legal 1 africana se consolidando na arte!! tomara que outros africanos surjam na cena