A Historiografia e os Quadrinhos (terceira parte)

final

(ou, como pesquisar histórias em quadrinhos em História – parte 1parte 2 – parte 3)

Chegamos ao final desta aventura de se construir um roteiro entre as histórias em quadrinhos e a produção historiográfica. Na primeira parte (leu ela? Opa, ainda dá tempo! Leia aqui!), iniciamos a jornada através da apresentação das dificuldades que são encontradas em se apresentar a proposta de usar as histórias em quadrinhos como fontes históricas. Esmiuçamos como as histórias em quadrinhos, ainda na primeira parte, podem ser objeto e fonte (ou objeto-fonte, como se frisou) na absorção de memórias históricas mesmo em narrativas ficcionais. Na segunda parte (que pode ser lida aqui!), focamos a escolha das fontes e as exigências metodológicas mais coniventes com tal seleção. Através de exemplos, pudemos entender os usos feitos das histórias em quadrinhos em abordagens qualitativas, quantitativas, micro e macro, entre outras teorias e métodos.

A história da família Borgia, proeminente entre os séculos XV e XVI, envolvida em conflitos e corrupção sob a ótica do mestre do erotismo, Milo Manara.

Nos parece, assim, que tudo está sanado! Já temos a possibilidade de uso das histórias em quadrinhos enquanto objetos-fontes do passado e a partir dos questionamentos podemos trazer esse passado de volta! Certo? Errado! As história em quadrinhos são, sim, fontes históricas, como outras espécies de fontes, mas nenhuma fonte trás o passado tal qual ele é! E isso independe da natureza narrativa da HQ analisada, ou seja, ela sendo intencionalmente ficcional ou não ficcional não lhes garante méritos de “passado ressuscitado”. Inclusive ser não ficcional também não é garantia de mais veracidade. Mas não se preocupe, tal cuidado com a concepção de passado trazido de volta não desqualifica nenhuma fonte histórica, muito menos as histórias em quadrinhos.

O que temos de fato são as representações do passado, ou seja, traços desse passado registrado intencionalmente ou não em diversos suportes (as fontes). O tratamento dado para a fonte jamais pode ser de verdade pronta do passado, mas, sim, de registros e vestígios que precisam da sagacidade crítica do pesquisador para decifrar esse passado. Pois, “os documentos só falam se soubermos interrogá-los. Tem que saber lê-los e provocá-los” (BLOCH, 2001, pág. 60), e as diversas teorias e métodos são os instrumentos que dispomos para isso. As histórias em quadrinhos, nosso foco aqui, são registros de imagens desse passado, que podemos ver tanto nos discursos sobre os valores que elegem (os que apreciam e os que depreciam) e nas representações em imagens das idealizações estéticas. Mas é preciso muito cuidado nessas leituras, já que fazer isso na superficialidade pode ser desastroso na análise!

No jogo de espelhos do triplo auto-retrato de Johannes Gumpp, de 1646, constrói a relação de real e representação. Mas não são todos os três Gumpps da imagens representações? A Representação da Representação da Representação?

Então não temos a essência da verdade nas fontes do passado, apenas as suas Representações (agora com a maiúscula) que podem (e devem) ser abordadas criticamente pelo historiador. Mas o que são, então, essas Representações? Mentiras? Engôdos? Não, não são mentiras. São reflexos imperfeitos, como imagens num espelho, possuem imperfeições, deformações, e por conta disso devem ser lidas como um “texto”. As representações são, grosso modo, imagens interferidas do passado, carregadas de discursos, valores, idealizações, mas nem por isso são fraudes, inverdades, mas possibilidades de alcançar por seu intermédio a realidade do passado inalcançável. Como disse o memorialista do século XVII, Bussy-Rabutin, “meu espelho e minha reputação não mentem”, e é verdade: o efeito de espelhismo da Representação na história não é uma mentira, ainda que não seja a realidade de fato. Bem, fiz aqui somente uma redução sobre a Representação, algo muito mais profundo e complexo e que hoje a historiografia oferece em trabalhos como de Roger Chartier, Michel DeCerteau, entre outros, que deixarei nas referências abaixo.

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Nada com dar uma paradinha na rua do Ouvidor, Rio de Janeiro no século XIX, para se tratar numa casa de Bichas-Monstros!

E podemos ver diversos exemplos de como essas Representações ocorrem nas histórias em quadrinhos. As chamadas Aventuras de Nhô Quim, de Angelo Agostini, fora feita entre 1869 e 1883, e é, nas palavras do pesquisador Athos Eichler Cardoso, “sucessão de críticas irreverentes aos problemas urbanos, modismos, costumes sociais e políticos da época” (CARDOSO, 2005, p.23). No terceiro capítulo da narrativa seriada, o protagonista, Nhô Quim, interiorano que viaja para a capital da Corte, Rio de Janeiro, se depara com diferenças dos calçamentos nas ruas, transita pela Rua do Ouvidor sem muito entusiasmo, e defronta um estabelecimento chamado As Bichas-Monstros. O que é comum para a época, precisa ser explicado hoje por um historiador e o cruzamento de fontes: as chamadas bichas-monstros são as sanguessugas, usadas pela medicina da época para promover sangrias, que era tido por legítima modalidade clínica.

Em outro caso, a Representação, também interferida por imaginários, discursos, pode nos fornecer não uma verdade, mas mecanismos que justificam atitudes historicamente posicionada. No texto Um Índio na Imensidão Faraônica,  no primeiro volume da coletânea Quadrinhos & Educação, onde a crítica sobre a terrível mortandade de índios, fruto da construção da rodovia Transamazônica na década de 1970, em plena Ditadura Militar, Governo Médici, foi produzida e publicada por italianos, mas só pôde ser desfrutada por brasileiros quando publicada em 2013. Na mesma coletânea, Quadrinhos & Educação (agora no terceiro volume), no artigo Tintin no Congo e a Lei 10.639, tratei da Representação do Congo Belga na obra Tintin no Congo, de Hergé, a partir de 1930. Hergé nunca esteve no país africano, mas o desenhou e narrou a partir de relatos de missionários, enquanto seus compatriotas tinham o controle da nação durante o neocolonialismo. O autor comprou um imaginário depreciativo sobre o Congo, sua Representação está interferida por uma visão que infantiliza a população congolesa para justificar o controle político, a doutrinação cristã, entre outros mecanismos de colonização. Excelente instrumento de desconstrução dessa imagem do outro (principalmente da África) em sala de aula.

O uso das histórias em quadrinhos enquanto objetos-fontes é um exercício claro do pesquisador sair de sua zona de conforto. Ao mesmo tempo, é uma prática científica que exige alteridade e respeito. Importante frisar, aqui, que mesmo se tratando de uma fonte bastante rotulada como de entretenimento, lúdica, não é mais fácil do que qualquer manuscrito ou periódico, exige singularidades como as fotografias ou filmagens. No fim das contas, uma coisa continua a mesma: a produção historiográfica, ou seja, o fazer do historiador, continua sendo uma exaustiva e criteriosa leitura do passado através dos registros humanos.  Como olhar o ontem através dos espelhos retrovisores, sem deixar de seguir em frente, mas sem esquecer do que passou. As histórias em quadrinhos são reflexos, dentre tantos, que por muito tempo foram menosprezadas pela academia! Ora, academia, nos recebam, os historiadores dos quadrinhos, por que somos doces super-bárbaros e viemos pra ajudar!

Para ler mais!

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício de Historiador. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

CARDOSO, Athos Eichler. Nhô Quim & Zé Caipora. In: As Asventuras de Nhô Quim & Zé Caipora: Os Primeiros Quadrinhos Brasileiros 1869 – 1883. 2a Edição. Edições do Senado 44. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005.

CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. Vol. 5, n.11. São Paulo. Jan/Abr. 1991.

DE CERTEAU, M. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

LIMA, Savio Queiroz. Tintin no Congo e a Lei 10.639: Conflitos e Acordos para Aplicação em Sala de Aula. In: BRAGA, Amaro X; MODENESI, Thiago. Quadrinhos & Educação – Volume 3. Jaboatão dos Guararapes, Faculdade dos Guararapes, 2016.

LIMA, Savio Queiroz; PIMENTA, L. Um Índio na Imensidão Faraônica: O Olhar Educacional do Quadrinho Tiki sobre a Rodovia Transamazônica. In: BRAGA, Amaro X; MODENESI, Thiago. Quadrinhos & Educação – Volume 1. Jaboatão dos Guararapes, Faculdade dos Guararapes, 2015.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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