Irmandade e Matriarcado na Mulher Maravilha

frontal

Todos conhecem um pouco sobre a Mulher Maravilha, alguns menos outros mais, mas aqueles mais próximos de sua história sempre lembram: é uma guerreira amazona. A super-heroína não enfrentou apenas vilões dentro das histórias em quadrinhos, mas sobreviveu aos ataques ferozes que lhes foram direcionados. Não há como negar, é uma guerreira amazona. Mas quem eram essas amazonas e que relação é feita quando as histórias em quadrinhos resolvem se inspirar nesse lugar mítico de mulheres autogeridas? O que será que a ficção nos ensina sobre matriarcado?

Mulher Maravilha e as Amazonas

Apesar de ser o assunto que tem norteado minha vida atualmente, ainda não havia tecido textos sobre a Mulher Maravilha aqui. Talvez por que a situação de estar mergulhado num assunto com tanta dedicação me faça, na verdade, experimentar outras cores e sabores quando posso me entreter longe deste tema. Venho pesquisando sobre a Mulher Maravilha desde a graduação, entre 2005 e 2006, inserida como capítulo específico de minha monografia e como um dos primeiros artigos científicos que publiquei. Tive grandes e proveitosos diálogos por conta disso, que renderam trabalhos sobre mitologia e sexualidade nas jornadas da USP em 2013; e sobre gênero no encontro nacional da ANPUH em 2015. A alguns dias concluí qualificação em mestrado com ela como tema e continuo trabalhando na minha joia, lapidando-a.

 As amazonas de Themiscyra

No dia de hoje, 26 de setembro de 2016, estarei na 9ª Semana de Sociologia do Colégio Professor Fernando Antônio Raja Gabaglia, em Campo Grande, estado do Rio de Janeiro, em mesa sobre mídia e gênero. Tratarei da primeira parte de minha pesquisa sobre as raízes feministas na elaboração e publicação da Mulher Maravilha, para um público jovial, como projeto dos idealizadores do evento: Ofélia Ferraz e José Geraldo dos Santos. Esse tipo de diálogo me enriquece bastante, já que busco fazer que a pesquisa dessa pós-graduação tenha contato com a sociedade para que seja realmente válida. tais vestígios de igualdade de gênero nos primórdios da personagem nos são úteis para entender questões mesmo de hoje.

Nesta mesma semana, de hoje a dia 29 de setembro, ocorrerá na UFRJ o Ciclo de Debates em História Antiga: Integração & Contatos, promovido pelo Laboratório de História Antiga da UFRJ. No ultimo dia, na quinta feira dia 29, às 18 horas, estarei na mesa compartilhando com colegas a comunicação sobre As Amazonas, da mitologia da Grécia Antiga aos vários momentos dos quadrinhos da Mulher Maravilha. O seu criador, William Moulton Marston, se vale do mito grego das amazonas, mulheres guerreiras, para criar sua personagem super-heroína. Apesar de nativa de uma sociedade de mulheres bélicas, a Mulher Maravilha vem ao mundo para guiar as pessoas pelo amor. mas essa sua herança sempre foi revisitada em todas as reformulações que a personagem sofreu em seus quase 75 anos.

all-star-comics-8-paradise-island
 Themiscyra pelo traço do artista Harry G. Peter

O criador da Mulher Maravilha, o doutor William Moulton Marston, sempre foi fascinado pela antiguidade, especialmente a grega, que serve de inspiração para sua criação. Na sua primeira aparição, na edição 8 de All Star Comics, em dezembro de 1941, já é citada como uma amazona de uma ilha de guerreiras que sobreviveu intacta à mudança do tempo. Sua origem, entretanto, é esmiuçada na edição número 1 de sua própria revista, Wonder Woman, em julho de 1942. Nesta edição, apresenta-se a relação conflituosa entre amor e guerra através dos deuses Afrodite e Ares e narra o mito mais conhecido das amazonas: o cativeiro imposto por Hércules às guerreiras e sua rainha Hipólita.

aqui2
Hercules e hipólita

Lá estão as belas e aguerridas amazonas, nos desenhos de Harry G. Peter, vestidas como estátuas gregas e as suas características túnicas de linho (quíton). Por licença poética, William, sob pseudônimo de Charles Marston, escreve um desfecho onde as amazonas escapam de seus algozes. Vencidos Hércules e seu exército, a deusa Afrodite guia suas devotas para a Ilha Paraíso, onde ficariam protegidas do mundo dos homens. Por longos séculos, construíram uma sociedade isolada e pacífica, até que Diana, filha da rainha Hipólita, quebra a lei proibitiva e leva salvo de um acidente o aviador militar Steve Trevor.  Uma competição para a escolha de uma representante diplomática para levar Trevor de volta ao mundo dos homens acaba elegendo Diana ao cargo de Mulher Maravilha.

almas
As almas das mulheres que sofreram violência de gênero sendo guiadas pelas deusas para fazer as amazonas.

As amazonas foram presença constante e marcante em praticamente toda a história da personagem, mesmo depois da morte de seu criador. Houve momentos de rupturas, como a crise entre Diana se casar ou continuar sendo amazona nos anos 60 e o abandono da Ilha Paraíso e do cargo de Mulher Maravilha em uma fase de mudanças mais radicais na década de 70. Quando a editora DC Comics reformulou seus personagens em 1987, George Perez e Greg Potter inseriram fabuloso detalhe: As amazonas seriam encarnações de mulheres que sofreram violência de gênero.  A história da antiguidade grega e a própria mitologia dos helenos revigoraram os quadrinhos da Mulher Maravilha,  e a cidade de Themiscyra virou a capital do reinado feminino, do matriarcado das amazonas.

As amazonas fascinaram os gregos que acompanhavam as narrativas dos trovadores, pelo assombro de ser uma sociedade feita de mulheres agressivas. Entre os grandes perigos que os heróis helenos, como Príamo e Belerofonte, poderiam se deparar, ou mesmo testar sua força, estava o confronto com as amazonas. Foram temas tão recorrentes que criaram uma tradição de retratos, geralmente em baixo relevo, chamados amazonomaquia. Nas histórias cantadas ou contadas, nos registros escritos que nos chegaram desse passado de fábulas, eram citadas como exemplos de perigos, laços de parentesco de indivíduos furiosos. Estavam nas narrativas de Heródoto, Plutarco, entre outros, gregos e romanos, sempre mencionadas como mulheres de grande bravura, guerreiras de nível acima do normal.

 Amazonomaquia – relevo funerário

20120818081906nubia_super_friends_001Longe de serem essas perigosas selvagens, sanguinárias guerreiras, as amazonas de Themiscyra, nos quadrinhos da Mulher Maravilha, são devotas de uma filosofia pacifista e baseada no amor ao próximo. Antes da reformulação dos anos 80 pela editora, existia uma Ilha Flutuante com mulheres guerreiras (e alguns homens), lideradas por Nubia: a Mulher Maravilha negra. Nubia tinha a hostilidade característica desse imaginário sobre esse reino de mulheres guerreiras. A edição em que nasce, muda o mito da Mulher Maravilha, pois Nubia foi feita no mesmo dia que Diana, também do barro (mas de um barro mais escuro), e estava desaparecida por ter sido roubada pelo deus Ares. Na página 6 do artigo A História Oculta das Mulheres-Maravilha de Bana-Mighdall, dedico atenção à personagem.

Com a reformulação da DC Comics, a Mulher Maravilha tem sua relação com a mitologia grega repaginada e perde-se esse reino flutuante de guerreiras mais combativas. Nubia passa a ser chamada Nu´bia, uma themiscyrana que venceu um torneio e assumiu o cargo de cuidar da entrada do Tártaro. Nesta reformulação, Nu´bia não lidera um grupo radical de amazonas. Não se tratava mais da Ilha Flutuante de antes, agora existia quase uma raça inteira de amazonas dissidentes, extremamente radicais, surgidas nas areias desérticas do norte da África: As amazonas de Bana-Mighdall.

39729931ded91961f03dbf0c8f7d4ec9
 Nu´bia

Essas extremistas portam armas, vestimentas e discursos muito similares a fundamentalistas religiosos da região do Oriente Médio. Lideradas pela rainha Antíope, que foi violentada por Hércules no ataque às amazonas originais, e que jura vingança contra o mundo dos homens após a libertação das amazonas. Antíope cria um grupo separado de amazonas por discordar do caminho exigido pela deusa Atena e acatado por sua irmã Hipólita. As irmãs se separam e criam dois reinos desiguais. De um lado, buscando a equidade entre o mundo das amazonas e o mundo dos homens, estão as amazonas de Themiscyra. De outro, buscando a inversão da relação de poder, estão as amazonas de Bana-Mighdall.

Não vamos parar aqui em muitas reflexões que faço sobre as naturezas desses dois caminhos de amazonas, mas pensar, aqui, na valorização desses governos de mulheres: o matriarcado. Resumidamente, matriarcado é uma hipótese de organização social que muitos antropólogos, principalmente no século XIX, defendiam existir antes do regime patriarcal. Nesta, ainda livres do regime de controle do bens pelos homens, as mulheres seriam naturalmente mais justas no governo e na distribuição de bens por causa de suas essências maternais. Muitos intelectuais do final do século XIX compraram a ideia, como foi o caso de Friedrich Engels em seu livro A Origem  da Família e da Propriedade Privada, de 1884.

falizia_001
Amazonas de Bana-Migdhall

As amazonas seriam, então, o exemplo perfeito, mítico ou não, de sociedade onde o poder decisório e governança fossem atribuições femininas. Obviamente, apesar do governo feminino, as duas comunidades aqui o praticam de forma diferente. No caso Themiscyra, existe uma exclusividade feminina de belas e imortais helenas. No caso Bana-Mighdall, por conta da mortalidade dessas mulheres (elas abandonaram a Ilha Paraíso, lembra?), precisam escravizar homens para procriar, e ter produção de bens. As mulheres de Bana são uma alusão direta aos movimentos insurgentes do Oriente Médio, com um insidioso paralelo com as feministas radicais.

No caso de Themiscyra, existe um conceito que tende a mudar a rigidez da ideia de matriarcado: a irmandade. Bastante pensando na década de 70, a irmandade não apenas agrega a prática de união das mulheres contra a desigualdade de gênero, como, também, entende que a compreensão de diferenças raciais, nacionais e de classes promove uma transformação mais eficaz. Muito importante, por exemplo, ter uma diversidade feminina nas imagens sobre as amazonas (neste caso, tanto em Themiscyra quanto em Bana) após a reformulação de 1987. A personagem Philippus conquistou os leitores dessa geração pós-Crise nas Infinitas Terras. As interseções dentro do feminismo (que geram feminismos) são engrenagens para essa grande máquina que se chama igualdade de gênero.

tloww3_22
 Phillippus, tutora de Diana

Também como engrenagens de um fazer mais justo e igualitário estão as peças chamadas matricentralidade e matrilinearidade. Ambas surgem como desconstrutoras de uma corrente rígida de controles e desigualdades de gênero baseada no essencialismo do sexo. A matricentralidade, mais próxima do matriarcado, ameniza a relação entre os gêneros, buscando legitimar um poder decisório feminino sem uma necessária separação entre os sexos ou mesmo o controle de cima pra baixo. A matrilinearidade, por sua vez, desconstrói a perenidade familiar pelo homem (sabe quando a mulher perde seu sobrenome para o homem no matrimônio e nos registros dos filhos?). Desta forma, a proposta política das amazonas do mito, das amazonas dos quadrinhos do doutor Martson e as amazonas dos quadrinhos do Perez são bastante distintas.

wonder-woman-alex-ross-ala-posterNão precisamos nem fazer um ode ao mito antigo das amazonas e nem deixa-los apenas na ficção. Estudar a Mulher Maravilha a fundo tem permitido pensar as ideias que questionam as injustiças e desigualdades promovidas pela hierarquização pelo sexo. As amazonas são reapropriadas, refeitas, de bestiais mulheres belicosas para irmandade feminina naturalidade no amor, repaginadas aos valores de irmandade da Segunda Onda do feminismo. Não há, aqui, uma apologia a um governo feminino por natureza (nada desse essencialismo baseado meramente no sexo), mas um questionamento do por quê esse acesso feminino ao poder sempre causou desconfortos.

Hoje temos o direito a voto e a presença feminina em assembleias, partidos, senado, até mesmo alcançaram a presidência. Mas por que é um número tão reduzido e sua condição ainda tão indesejada? As amazonas deixam seu teor de ameaça do mito original e passam a ser elementos de criticidade ao status quo que naturalizou que existe um lugar para a mulher e ele não é nem na esfera de proteção e combate e nem na esfera política. Essa questão estará presente em evento sobre sexualidade que dividirei com a historiadora e pesquisadora Camila Carreira, quem sabe o diálogo acrescente ainda mais sobre o assunto. Dedico essa postagem a minha amiga Juliana Fiuza, que ficou fascinada e apaixonada ao descobrir Nu´bia. Quem sabe com esta postagem sendo bem curtida e comentada ela se aventure em fazer cosplay da personagem num próximo evento!

 

 

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

More Posts

  • Interessante artigo. Porém fiquei com uma dúvida: você afirma – “As amazonas seriam, então, o exemplo perfeito, mítico ou não, de sociedade onde o poder decisório e governança fossem atribuições femininas.” Como pode isso se, até o momento do seu artigo, só autores homens foram citados. Não seria então o exemplo “perfeito” de como os homens vêem uma gorvernança matrilinear.

    Pesquisas mais recentes feitas da UFF apontam que os sistemas matrilineares estariam deveras longe da visão que temos das Amazonas. Aproveite a estada no Rio de Janeiro e dê um pulo em Niterói, lá você encontrará algumas dissertações na Faculdade de Letras que se debruçam sobre o tema da matrilinearidade…

    Só um conselho – muito cuidado com as hipérboles dentro e fora do mundo acadêmico. Dentro do mundo acadêmico geram desconfiança, fora do mundo acadêmico geram processo…

    • Savio Roz

      Olá, Amorim!
      Obrigado por suas opiniões, os feedbacks são bastante importantes nesse diálogo franco e aberto que o Plano Infalível busca fazer! O texto acima, por exemplo, é uma adequação de trabalhos de pesquisa para uma linguagem mais aberta e quem sabe consiga promover um bom fórum de discussão. Como são frutos de trabalhos que linkei na postagem, sou um dos autores que citei e o outro, rapidamente, foi Engels por ser um famoso teórico e acessível.
      No caso do “exemplo”, fiz a frase a respeito das duas sociedades na ficção criada após os anos 80, mas, com certeza, na antiguidade grega, essa representação foi depreciativa, justamente para apontar esse governo de mulheres como algo indesejado e perigoso. No que diz respeito à matrilinearidade, eu tenho me guiado pelos trabalhos da antropóloga Olga Soffer, onde linhagem familiar se mantem pela hereditariedade feminina. O conceito, aqui oportuno, vem como uma das peças (dessa grande engrenagem) e tanto a sociologia quanto a antropologia, realmente distante do mito original das amazonas, mas importante de ser citado. Foi uma escolha, e que bom que ela gerou uma leitura tão atenta.
      Eu tenho tido contato com a UFF através de minha área de história, então tenho pouco diálogo com letras, por exemplo. Mas fico muito curioso com a existência de trabalhos sobre o tema. Sobre as hipérboles, não entendi onde cometi os deslizes. Caso queira, por cordialidade, me apontar, além do contato aqui, ou mesmo através de inbox por Facebook. Sempre bom ter a percepção do outro e o diálogo para produzir melhor!
      Obrigado pela sua visita, espero que goste não apenas dos meus textos, mas dos trabalhos dos meus colegas no site! Os videos de Belle Felix são um entretenimento ímpar (e também cheios de conhecimentos e curiosidades) e o Edimário Duplat fez um trato editorial fascinante sobre Star Trek!
      Seja bem vindo, Doutor!