Lavando as páginas dos quadrinhos 2

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A Mulher-Gato e a Batgirl num clube hedonista? O Homem dos Brinquedos assassino de crianças? Prepare a criticidade, sente em sua poltrona mais confortável, e vamos abordar essas duas situações pitorescas (e chamativas, não é verdade?) e como elas afetaram a relação entre quadrinhos e sociedade!

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Desculpe, senhora, mas só se entra pelado no recinto!

Não é difícil de encontrar na nossa sociedade aquele argumento em que a sexualidade e a nudez causam mais alvoroço que a violência gratuita. E isso tem, sim, seu lado de verdade, principalmente com a banalização e naturalização da violência e a perseguição conservadora do erotismo (e nem falarei da velha dicotomia com a pornografia, já que isso foi tema da entrevista com Giovanna Casotto, lembra? Veja aqui!). Novamente temos o medo (ignorante) guiando a relação de narrativa e entretenimento para uma higienização e (a medonha) censura.

Duas situações demonstram claramente quais situações causam mais desconfortos nas histórias em quadrinhos e quando elas o fazem. No texto anterior (leia-o aqui) foi apresentada uma vasta coleção de situações onde o tal assombroso espectro moralista provocou um visível retrocesso em algumas liberdades criativas. Dois eventos, não tão distantes no passado, nos servirão de sintomas dessa relação pitoresca da Indústria Cultural e a regulamentação social. Apresentem suas carteirinhas de maioridade (moral) e vamos entrar na máquina do tempo!

Homem dos Brinquedos
Homem dos Brinquedos

O Homem dos Brinquedos, Winslow Schott, é um daqueles vilões caricatos e exagerados que divertem, mas não causam fascínio entre os leitores. Criado em 1943, na edição de número 64 da revista Action Comics (inédita no Brasil, mas em sua primeira aparição por aqui era chamado de Brincalhão e surge numa edição da Ebal em 1948), não foi um mero devaneio criativo dos seus autores, mas parte de uma estratégia de controle da violência do próprio Super-homem. Um pacato homem, Schott se transformava numa ameaça quando fazia uso de seus brinquedos para causar terror na população de Metropolis, durante os anos 50 e 60, porém, tornou-se uma ocupação cômica, como muitos vilões passaram a agir naquele momento. Durante os anos 70 Schott chegou a se aposentar do mundo do crime, deixando o cargo de Homem dos Brinquedos para Jack Nimball. Com o afastamento da indústria do comic code, como vimos, Schott voltou a ativa: matou Nimball e assumiu a alcunha de Homem dos Brinquedos.

Mas nossa viagem fica importante justamente após a reformulação do personagem na chamada Crise das Infinitas Terras, onde a editora promoveu mudanças mais audaciosas de projetos com novos profissionais envolvidos. A versão pós-Crise do Homem dos Brinquedos aparece na edição de número 13 da revista Superman em janeiro de 1988 (lançada aqui na revista Super-homem número 63, da editora Abril, em 1989), sob a tutela de John Byrne. Um fazedor de brinquedos que se viu prejudicado por Lex Luthor e resolveu usar de suas extraordinárias habilidades para se vingar, causando elativo problemas para o homem de aço. Mas logo o Homem dos Brinquedos tornou-se muito tenebroso.

Depois de um tempo sem aparecer, Schott surge na edição de número 28 da Superman: Man of Steel e no número 84 de Superman, ambas as publicações de 1993 (E ambas lançadas no Brasil na edição número 127 de Super-homem, editora Abril, em 1995). Nesta fatídica edição, nos roteiros de Dan Jurgens, logo após sequestrar o filho de Cat Grant, Adam, o Homem dos Brinquedos vira alvo de uma implacável caçada contra o tempo, mas o homem de aço chega tarde demais. Quando a criança é encontrada, já está morta. Outras crianças, no cativeiro do vilão, conseguiram ser salvas. A comoção se segue na edição número 85 (aqui em Superboy número 2, editora Abril, 1995), com Cat sofrendo seu luto e sua vontade de vingança ainda teve que ouvir do monstruoso Schott que ela não era uma boa mãe, por isso ele matou seu filho.

Adam Grant pego pelo Homem dos Brinquedos
Muitas versões do Homem dos Brinquedos

Por muitos anos essa história marcou o mito do Homem dos Brinquedos e fez parte da fragilidade do Super-homem. Mas, como s novos tempos parecem não poder comportar coisas muito intensas, violências muito explícitas, optou-se por uma saída. Em 2008, na edição de número 865 de Action Comics (na edição 79 da revista Superman, editora Panini, junho de 2009), Schott sequestra ninguém menos (ou ninguém mais) que Jimmy Olsen! E no cativeiro ele explica para o jovem rapaz que o Superman (agora não mais chamado no Brasil por Super-homem) nunca o enfrentou de fato, que em todos esses anos enfrentou apenas cópias robóticas. E que (Pasme!) foi um robô defeituoso quem tirou a vida de Adam Grant. Decisões (higienização) de Geoff Johns a parte, nunca houveram críticas de fato à isso. Nenhuma associação de pais, nenhum senado americano, nenhum pastor possuído em busca de destruição de revistas.

Alvoroço mesmo é a nudez (ou pelo menos a sugestão dela) que aparece num arco narrativo envolvendo a Mulher Gato e a Batgirl. A irreverente história A Gata e a Morcega, publicada originalmente entre as edições 17 e 21 da revista Batman Confidential, de 2007 (publicadas, aqui no Brasil, entre as edições 4 e 5 da revista A Sombra do Batman, da editora Panini em 2010), narra um verdadeiro jogo de pega-pega entre as duas personagens. O roteiro dinâmico e despretensioso de Fabian Nicieza e a arte bem humorada de Kevin Maguire dão o tom, a sintonia da narrativa, totalmente direcionada para o humor leve e debochado.

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“Sem. Roupa. Do tipo… Sem roupa?”

Perseguida pela Batgirl, a Mulher Gato encontra uma cômica (ou trágica) estratégia de fuga: atravessa um encontro da Sociedade Hedonista de Gotham City (ou casa de swing, como é chamada aqui no Brasil), com a exigência de que todos os presentes precisam estar pelados (mas pode ficar com a mascarazinha!). Tímida, a Batgirl  (a contragosto) se desnuda e continua a perseguir a larápia dentro do recinto em posturas cômicas de “mostra e esconde” dignas de filmes de comédia como Austin Power e afins, com objetos e pessoas cobrindo estrategicamente as partes mais indecorosas dos pelados!

 Garantia de diversão pura, nem de longe com um teor erótico (ou seria pornográfico?), já que a arte de Maguire, por mais lindas que sejam suas mulheres, transpassa humor. E foi justamente um jovem rapazinho divertido-se com a revista  comprada em uma feira de usadas de uma biblioteca pública na Carolina do Norte que causou o escândalo comentado na edição número 5 de A Sombra do Batman, da Panini. A edição causou frisson na molecada e deixou suas mães enlouquecidas a ponto de promoverem uma verdadeira campanha pela retratação da DC Comics, por pouco não foi (de novo) fogueiras de revistas em praças públicas. A empresa apenas relatou que as publicações possuem sinais legíveis de recomendações das faixas etárias dos públicos para seus produtos.

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Não lute em casa de swing!

Questões tensas como o sequestro de crianças, narrativas dramáticas sobre desaparecimento (na edição Cat Grant chega a colocar a foto do rosto de Adam naquelas tradicionais caixas de leite) certamente causam mais desconfortos atualmente. Cenas de nudez parece chocar ainda mais um público sensível à ideia de que os quadrinhos são feitos para crianças ou que a ficção não pode afetar uma moral cândida. Em ambos os casos o mercado compreendia que seu público leitor, principalmente pelas exigências das próprias narrativas, era mais maduro. Mas nem todos pensam assim. E parece que o número de condenações e pavores diante de tais liberdades tem crescido na atualidade. E é justamento o afastamento da criticidade e do conhecimento, repito, que produz a semente do pânico que dará o pé do medo e o fruto da censura.

Leia:
Batman – A trajetória. De Lincoln Nery. 2008.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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