Lavando as páginas dos Quadrinhos

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Se hoje vivemos um fervor de conservadorismo, os sintomas já vinham ocorrendo no mercado de quadrinhos nos anos 2000. Talvez seja algo muito mais sensível àqueles que acompanham a mídia a um certo tempo. Aqueles que puderam desfrutar da travessia dos anos 80 e 90 e seus produtos mais evidentes. A ficção e a censura vivem essa dança enfadonha, quase um tango de dois passos a frente, um passo atrás. Um instrumento midiático, narrativo, que poderia sempre servir para libertar a sociedade e grilhões, por vezes, é silenciado.

Os quadrinhos viveram sob o regulo do famoso Comic Code Authority, desde sua concepção em setembro de 1954. Nasceu como auto-censura, onde as próprias editoras se reuniram e decidiram agradar a opinião pública em pânico com os perigos alertados por Fredric Wertham e por investigações do Senado dos Estados Unidos. O Comic Code tinha uma lista de proibições: O triunfo do bem, a exclusão das palavras horror e terror, a proibição do tema sobrenatural e suas vertentes, a violência indesejada, nudez e erotismo censurados, entre outros pontos. E assim ocorreu, durante muitos longos, fazendo a mídia cair num marasmo de infantilidades e poucos desafios.

As transformações sociais nos anos 70 fizeram uma mudança radical no jogo de relações entre os quadrinhos e a sociedade. A cena Undeground, os quadrinhos mais direcionados a um público maduro e também as diferenças culturais e políticas de um mercado europeu inseridos no estadunidense, fizeram um progressivo abandono do Comic Code. Qualquer um que vislumbrou a chegada dos ingleses no mercado de quadrinhos entende exatamente a mudança ocorrida no gênero super-heróis. Houve, então, uma abertura tão grandiosa que a qualidade desse processo ultrapassou expectativas, fazendo muitos nomes como Neil Gaiman, Grant Morrison, Alan Moore, Peter Milligan, Pat Mills, entre outros.

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Liga da Justiça Internacional

Esse maremoto de liberdade se fez dentro das histórias em quadrinhos durante muitos anos, trazendo não só diversidade como crítica. Como exemplo, temos a Liga da Justiça Internacional, da estonteante parceria entre Keith Giffer, John Marc DeMatteis e Kevin Miguire, de 1987 (aqui no Brasil saiu a partir da edição número 1 de Liga da Justiça pela editora Abril em janeiro de 1989). Podemos ver chacotas livres de tabus, críticas sociais, um Guy Gardner desagradável e que xinga de verdade. Temos uma ridicularização da bipolaridade da Guerra Fria, numa época em que o conflito político já não era respeitado, com a presença dos Sovietes Supremos.

A situação crítica com as drogas foi um epicentro dessa ruptura com o Comic Code, vinda, vejam só, pelo próprio governo estadunidense! Em 1971, o Departamento de Saúde viu na popularidade dos quadrinhos um meio de educar e combater o consumo de drogas por novas gerações. Em contato com Stan Lee, solicitaram que a Marvel Comics produzisse uma história do Homem-Aranha abordando o tema, o que ocorreu em Amazing Spider-man número 96 (aqui no Brasil saiu pela editora RGE na revista Homem-Aranha número 5, em 1979, e mais recentemente no encadernado Homem-Aranha: Grandes Desafios de número 4, pela editora Panini em 2007). sem o selo Comic Code na capa, a edição faz o escalador de paredes se envolver com uma epidemia de drogas ao salvar um jovem que se atira de um prédio sob efeitos de alucinógenos.

A DC Comics seguiu a empreitada de divórcio com o Comic Code e aproveitou a onda anti-drogas. Na edição de número 85 da revista Green Lantern & Green Arrow, de 1971 (aqui no Brasil saiu na edição 4 da revista Superamigos pela editora Abril em agosto de 1985; a mais recente publicação dela é no encadernado Grandes Clássicos DC de número 7: Lanterna Verde/Arqueiro Verde, Volume 2, de maio de 2007), o parceiro mirim do Arqueiro Verde, o Ricardito, é flagrado (até mesmo na capa da edição) consumindo heroína. Na capa original a editora faz sua bandeira: “A DC ataca o grande problema da juventude… DROGAS!”.

Ainda na DC Comics a reformulação do personagem espacial LOBO, um motoqueiro alienígena, sem escrúpulos, mas com seu código de honra. O caçador de recompensas surge na edição de Omega Men em 1983, como um personagem coadjuvante que caça os protagonistas. Migra, após as reformulações de Crise nas Infinitas Terras, para um novo patamar de non sense, tornando-se uma sátira ao anti-heroísmo tão em alta no momento. Sem pudores, violento, Lobo trouxe uma comédia sem eufemismos. Havia bastante segurança que essas publicações, não apenas as de Lobo, eram consumidas por um público amadurecido e em diálogo com a realidade social, compreendendo o papel da ficção em causar desconfortos em prol das mudanças necessárias.

509ac888f14f6743bbb781f0c486f971Mas eis que adentramos um mundo pós 2000 com um amargo sabor de retrocesso nas narrativas. Não é preciso ir muito longe: as reformulações da editora DC Comics após a saga Crise Final (alguns sintomas até anteriores) promoveram uma higienização dessas narrativas. Lobo perdeu suas características visuais, os palavrões, aquela moralidade execrável (Não se trata de amoral, já que ele tem plena consciência de suas escolhas), tudo que fez o Lobo famoso pelo que era (ou é). Na reformulação do Ricardito (agora Arsenal), seu passado nada tem com drogas pesadas, ele teve problemas com bebidas alcoólicas. esse problemas com drogas fui muito melhor tratado na saga Demônio na Garrafa, do Homem de Ferro, que Belle Felix tratou aqui (não viu? Ora, veja aqui!) Guy Gardner não xinga (ou xinga em sinais visuais bem comuns aos quadrinhos infantis). Um universo de tabus se encarregou de amenizar os problemas e as críticas que tanto ganharam confortáveis espaços nos anos 80.

Há uma espécie de espectro moralista que tende a surgir em sociedades que se afastam da criticidade sobre o conhecimento. Sem essa criticidade, o medo dá a única resposta plausível: censura. E infelizmente essas amenizações não abrem espaço para questionamentos e compreensões honestas. São sintomas aparentemente simplórios, mas que podem definir os rumos que os quadrinhos terão nas próximas décadas. Voltarei ao tema no próximo texto, já que duas edições que tenho em mente precisam de um espaço maior para serem avaliadas. A curiosidade toma sua pessoa? Ora, acompanhe aqui essa investigação!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Esse texto fala de como os comics poderiam ser diferente sem a censura

    https://www.buzzfeed.com/saladinahmed/how-the-comics-code-killed-the-golden-age-of-comics

    • Savio Roz

      Farei como o meu amigo e pesquisador, Ivan Lima, e direi que o Wertham não era de todo malvado. Ela tinha parte de razão, as revistas em quadrinhos não tinham limites. O problema é que transformaram uma tempestade em um furacão com tornados e maremotos com risco de destruição de todo um continente… e não foi.

      • Sim, faltava um sistema de classificação, os europeus e os japoneses conseguiram, no fim da vida, o Whertam acabou defendendo os fanzines, ou seja, produção de fãs de quadrinhos, ficção científica e fantasia.

        • Savio Roz

          Mas apesar do retrocesso, nos Estados Unidos ocorreu essa normalização classificativa. Infelizmente a um preço muito caro. Por isso as pessoas legitimaram a ideia falida de que os quadrinhos, um suporte midiático, é feita pra uma categoria específica.

      • O grande problema foi ter inventado provas
        http://www.universohq.com/noticias/fredric-wertham-manipulou-dados-do-livro-seducao-do-inocente/

        Ele até tinha razão sobre a Mulher-Maravilha e sobre o bondage das demais heroínas.

        • Savio Roz

          Ele fez algo até comum (mesmo hoje em dia). Pessoas que adentram o mundo acadêmico e tentam legitimar suas posturas através de fraudes nas fontes, nos objetos, etc.
          A posição de acadêmico, letrado, lhe deu garantias seguras sobre suas falas. Muita gente entra na academia e, ao usar jargões, demasiadamente nome de autores, emulam uma racionalidade e uma bagagem que não possuem.
          No caso do Bondage na Mulher Maravilha, o Marston precisou esconder isso, já que na época as relações BDSM eram tidas como doenças. Hoje em dia os estudos de sexualidades já descarta essa postura preconceituosa.

  • Renato Nascimento

    Leio quadrinhos desde a metade da década de 80 e, a meu ver esse retrocesso veio através do domínio das ideologias de esquerda.