Mojo, Noam Chomsky e a Opinião Pública!

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Não é difícil reconhecer na mídia pessoas que estão fazendo uso de diversos meios para conquistar a atenção do público. Mais do que natural que a busca pelo sucesso tenha o empenho em atender expectativas sociais, indo atrás de notícias, querendo ser o primeiro a estampar uma novidade numa capa de revista (ou blog). Na era da informação, saber mais é um celebrismo! Mas o mau uso dessa força deságua na foz do sensacionalismo. A ficção está lotada de caricaturas assim, de pessoas vinculadas às mídias de massa que se valem de exageros e sentimentalismos para estimular o apreço do público. Eis que trago um vilão pouco conhecido que foi criado com o intuito de se falar do entretenimento e da informação como poderes nefastos! Vamos viajar ao mundo de Mojo para pensar sobre opinião pública, sensacionalismo e até mesmo Noam Chomsky!

Pat Novak

As redes de televisões abertas separam uma parte de sua programação, geralmente em horário de grande audiência, para apresentar singularidades das cidades. O dia a dia de sua localidade em matérias e pautas, para lhe informar, para lhe entreter. O foco principal é o crime, com exposições de violências e manipulação discursiva das emoções dos telespectadores, desconsiderando qualquer pretensão de neutralidade. Tendo como objetivo o aumento da audiência (popularidade e apreço) profissionais de comunicação tem seguido o caminho de abandonar qualquer moralidade para atingir metas, sejam econômicas ou de renome. No remake de Robocop (lançado 2014, com direção de José Padilha), há um personagem que caracteriza essa inclinação controversa: o tendencioso Pat Novak (interpretado por Samuel L. Jackson), que não apenas persuade o peso da balança crítica, como, também, muda conforme as marés da opinião pública.

O sensacionalismo é um conceito, entretanto, que vai muito além de um âncora faccioso, pois é uma prática em várias etapas editoriais. Foi pensando nisso, e no engajamento de redes televisivas em busca de audiência, que a escritora Ann Nocenti, durante sua passagem pela Marvel Comics, criou o vilão Mojo. Ele surgiu na terceira edição da série Longshot (originalmente em novembro de 1985, mas, no Brasil, saiu na edição 80 de Superaventuras Marvel, pela editora Abril, em 1989), como um ameaçador vilão que controla uma realidade alternativa que se fortalece com espetáculos midiáticos, principalmente lutas entre heróis e vilões. Nocenti é uma competente e engajada autora, que alfinetou problemas sociais, por exemplo, em sua passagem por Demolidor no final dos anos 80 (inclusive foi editada por Louise Simonson, a mesma que criou Aço, lembra do meu texto? Leia aqui!)!

Mojo! Arte de Robert Mitz

Mojo é um ser medonho, corpulento à obesidade, se locomovendo usando uma poltrona aracnídea, com fios presos em sua cabeça e seus olhos eternamente abertos por grampos. Controla com total poder uma civilização de outra dimensão, o Mundo Mojo, por meio da mídia, principalmente televisiva (TV Mojo). Seu poder cresce à medida que ganha índices de audiência, por telespectadores (os sem espinha) viciados em entretenimento, geralmente lutas (seria Dana White – o chefão do UFC – um Mojo?). Enquanto Longshot, o herói, era uma desconstrução que a autora fez do conceito de herói – Longshot é ambíguo, andrógino e imperfeito, bem ao estilo existencialista moderno. Mojo é a representação de uma parcela de profissionais em uma de suas áreas de atuação: Jornalismo. Nocenti estava cursando um mestrado na Escola de Relações Públicas e Internacionais da Universidade de Columbia (Columbia’s School for International Affairs) e fazendo diversas leituras críticas com autores como Marshall McLuhan, Ed Hermann, e, entre tantos, Noam Chomsky (como ela mesma afirma em entrevistas, como a que pode ser lida aqui!).

Noam Chomsky

Na reconstrução intencional da realidade, os sensacionalistas buscam equalizar seus interesses (ou dos grupos que representam) com os anseios populares através de apelo emocional e passionalidade narrativa. E o intelectual assumidamente de esquerda, Noam Chomsky, critica veementemente, tendo sido epicentro do livro A Manipulação do Público, em parceria com o economicista Edward S. Herman. As grandes detentoras dos meios de acesso à informação, segundo Chomsky, guiam os dados, remodelam aquilo que pode ser informado (e como deve ser informado) e aquilo que deve ser negado (ou ocultado). Apesar de controverso, Chomsky desconsidera qualquer ideia de conspiração em sua abordagem, mostrando que as vezes as pessoas se deixam levar por interesses pessoais ou de grupos na promoção de injustiças, propagação de inverdades ou mesmo de um dano à sociedade. Suas bravatas são geradoras de inquisições particulares, essencialismos toscos e demagogias raivosas.

Figuras mal-intencionadas e despreocupadas com os efeitos de seus panfletos emotivos, geralmente o fazem em busca do apreço de uma audiência, querem a Opinião Pública em sintonia com seus dizeres. Mas, o que é Opinião Pública? O doutor e historiador Marco Morel nos ajuda a entender essa estrutura historicamente construída junto com a própria mídia. Essa estrutura conceitual, “polissêmica e polêmica”, segundo o pesquisador, tende a ser entendida como sintoma de uma vontade popular dentro de um debate. Mas, quando não há debate, ela inebria-se de senso comum, ou seja, é a normalização de ideias não criticadas, mas levadas passivamente pelas emoções. A opinião pública, enquanto consciência política, precisa do espaço de criticidade para se fazer valer legitimamente. Para que deixe de ser meramente “expressão coletiva de sentimentos e convicções” (MOREL, 2003, p.201) e torne-se, enfim, politizada e fruto de discernimento.

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Mojo e seu charme!

Mojo é um vilão que atua justamente na ausência dessa Opinião Pública liberta em suas primeiras aparições. O prazer e o medo, do público, são dirigidos aos seus interesses por uma cativa audiência. O que Mojo intenta não é a Opinião Pública, mas a Opinião Publicada, como a normalização de uma opinião singular de um grupo contra o todo. Mojo quer hipnotizar, seduzir, ter massas de ignóbeis consumidores de suas produções sádicas. O sociólogo Michel Maffesoli sintetiza essa diferença entre as opiniões sociais: “A publicada é realmente uma opinião, mas pretende ser um saber, expertise ou até mesmo ciência, enquanto que a pública tem consciência da sua fragilidade, da sua versatilidade, logo da sua humanidade” (MAFFESOLI, 2010, p.10).  Então nem sempre ter o discurso mais comum e geral a seu favor é ter a razão, principalmente quando esse discurso está eufórico de ódios e rancores.

Em versão recente, Mojo precisou provar que ainda tinha cacife para comandar o show e colocou dois grandes heróis (rentáveis) numa mesma edição! Os Surpreendentes Homem-Aranha e Wolverine (Grandes Heróis Marvel, 1, 2 e 3, pela editora Panini em 2011) faz justamente essa chacota com o exagero, as imposições e as explorações deste vilão em busca de audiência interdimensional. Para isso, não terá rodeios em modificar, alterar, maquiar os fatos, dados e a verdade. Nas palavras do próprio Mojo: “Se eu sentir a necessidade de embelezar a situação perante a mídia, acredito que comprei esse direito” (página 7 da terceira edição). A Opinião Publicada de Mojo se pretende um saber: “Tudo que faço é trazer alegria a milhões de corações levando dor e sofrimento às vidas de poucos” (página 11 da mesma edição), tudo em nome do sucesso.

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Grandes empresas, pequenos escrúpulos

Na edição Fabulosos Vingadores (saiu no Brasil nos números 10 e 11 da revista Vingadores: Os heróis mais poderosos da terra, pela editora Abril em janeiro e fevereiro de 2016), Mojo está atualizado. O empreendimento de Mojo agora é juridicamente uma Sociedade Anônima com seus interesseiros acionistas (Mojoverso S/A). Mojo agora é praticamente um funcionário (com suas visões artísticas da coisa) e um dos acionistas lhe lembra: “Se quiser fazer arte, vá tomar aulas de aquarela. Isto é um negócio que maximiza a lealdade à marca”. Uma acionista (sorridente) parece descrever muitas produções cinematográficas ou séries de sucesso ao dizer que: “a maneira mais fácil de ganhar audiência fiel é confundir as massas, alinhavando uma teia interminável de mistérios estranhos que mantenham nossos espectadores débeis mentais perdidos e desorientados”.  Mojo é um exagero, uma crítica, um estereótipo útil para pensarmos nas responsabilidades da informação e do entretenimento.

Os dois espaços, da informação e do entretenimento, precisam ser pensados através de uma postura moral, pois são formadores de discursos e ressoam opiniões. Nocenti nos deixou, através do entretenimento de quadrinhos da Indústria Cultural uma possibilidade de contato com a crítica jornalística ao sensacionalismo. Assim podemos levar aos espaços de reflexão a função de Mojo. O mundo de Mojo é uma representação de um público (os sem espinha) passivo e acrítico. O grande perigo desse vislumbre passivo é o esvaziamento da crítica. E sem crítica, não se produz conhecimento ou se resolve problemas. Sem a criticidade, estamos a mercê das emoções (geralmente as mais desastrosas) e tendemos a odiar o outro e não ao erro. Não trabalhe para o Mojo!!!

Leia mais:

CHOMSKY, Noam; HERMAN, Edward S. A Manipulação do Público: Política e Poder Econômico no Uso da Mídia. São Paulo: Editora Futura, 2003.

MAFFESOLI, Michel. Apocalipse: opinião pública e opinião publicada. Porto Alegre: Sulina, 2010.

MOREL, Marco. Em Nome da opinião Pública: A gênese de uma nação. In: As Transformações do espaço Público: Imprensa, atores políticos e sociabilidade na Corte Imperial, 1820-1840. São Paulo: HUCITEC, 2005.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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