Monstress é uma poderosa fábula sobre preconceito e humanidade

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Em um mundo alternativo, que vagamente se assemelha ao nosso no começo do século XX, uma grande guerra conseguiu ruir as estruturas de duas poderosas civilizações. De um lado, a Federação Humana – por meio das suas bruxas-freira da Ordem de Cumaea – tenta a todo custo aumentar o seu poder para uma eventual continuação do conflito, nem que para isso precise dissecar mais e mais indivíduos de outras raças em busca do poderoso Lilium. No outro ponto do front, os Reinos Arcânicos (seres humanoides com características animais) fecham suas fronteiras e tentam somar mais e mais poder ao seu exército, que é governado por seres imortais e tem em sua companhia os exímios gatos de quatro caudas. No meio disso tudo, uma garota arcânica carrega dentro de si um poder ancestral que poderá mudar completamente o destino do conflito.

Só por esse breve resumo, já percebemos que Monstress não é 1-1uma simples HQ de fantasia. Imagine então se contarmos que essa obra, escrita por Marjorie Liu (NYX, X-23) e com arte de Sana Takeda (Ms. Marvel, X-23), esta série indicada ao Eisner 2016 é muito maior do que o seu simples conceito temático consegue resumir. “Eu não percebi o quão grande era até que comecei a escrevê-lo e percebi que tinha totalmente subestimado não só o tamanho do projeto como a minha própria capacidade de envolver minha cabeça em torno disso”, afirmou a própria roteirista em uma entrevista cedida ao Hollywood Reporter em novembro de 2015, mês de estreia da série. “Eu queria escrever sobre garotas e monstros, que tem sido um tema desde o início da minha carreira. Garotas, monstros gigantes e o sobrenatural. Queria contar uma história sobre guerra e sobrevivência, tudo isso em uma Ásia alternativa”, completou na ocasião.

Sem dúvidas, Monstress é mais do que uma história de garotas e monstros gigantes. Em apenas seis números – equivalentes ao primeiro arco e que ainda não tiveram uma continuação – temos uma fábula que dialoga perfeitamente com o nosso atual período de conflitos sociais e políticos, mas sem apelar para maniqueísmos ou bandeiras ideológicas em sua narrativa. É uma trama exclusivamente sobre pessoas, e como elas funcionam ou reagem a um mundo assolado pela desesperança e a sede de poder. A protagonista, Maika Halfwolf (o que poderíamos traduzir como Meiolobo), é uma arcânica mutilada pela guerra e que esconde um grande poder desconhecido dentro de si. Para descobrir mais do que existe em seu interior, a jovem precisa adentrar no mundo doentio das feiticeiras humanas e sua forte influência teocrática, que manipula autoridades e justifica os seus feitos como “propriedades divinas”.

Por outro lado, a anti-heroína também têm que lidar com as intrigas de seu próprio povo, que tem em seus líderes imortais, chamados de Antigos, o reflexo de um mundo alheio as mudanças e a evolução natural de uma sociedade. Assim, temos uma coleção de personagens que destilam seus diferentes pensamentos e funcionam não só como produtos de um meio como também os modificadores da realidade em que vivem, puxando a grande e imprevisível roda do destino deste mundo.

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Outro grande destaque de Monstress se deve também a grandiosa representação feminina que permeia as suas páginas, o que para a própria Liu é uma forma de explorar as discussões de gênero para um nível além do que existe hoje nos quadrinhos e outros produtos culturais. Para a autora, um universo ficcional onde o sexo feminino demanda maior poder ideológico e físico desde os seus primórdios – valendo até de analogias como Marium, uma “messias” oriunda da Galileia e fundadora indireta da Cumaea – demonstra que um provável matriarcado também seria o cenário de mazelas como a guerra e a intolerância racial/religiosa. “Gostamos de imaginar que as mulheres fariam um trabalho melhor de governar o mundo – e eu sou uma dessas otimistas – mas as mulheres não são uma forma superior de vida só por conta do nosso gênero. Somos incríveis, mas não perfeitas. Nós somos humanas. Como os homens”, afirmou a autora, também em entrevista para o Hollywood Reporter.

cover_issue4-2-copy-1449085297E talvez seja essa imperfeição, tão verdadeira e honesta, que coloca as suas personagens em um nível distinto de caracterização. Maika, que carrega em seu semblante uma aparência mais fiel aos humanos do que de seu próprio povo, não é somente uma garota que teme o mal que existe dentro de si. Ela é alguém que dialoga com essa energia e teme quando sente prazer nisso. Algo que vai muito além da vingança e que se manifesta no calor da caçada ou nos seus piores dias.  Kippa, uma garota-raposa que foi salva da dissecação cumaeana, traz a inocência de uma criança e funciona como a “voz da razão” para a confusa protagonista, mas não deixa de também trilhar o seu caminho de conhecimento, descobrindo a si mesma como uma corajosa companheira que aprende a amar as pessoas mesmo descobrindo o pior delas. Até as impiedosas bruxas-freiras, como a inescrupulosa Sophia e a sua misteriosa mãe, permeiam inúmeras facetas em sua jornada pessoal para criar bons desdobramentos na narrativa.

Além do intricado roteiro, outro destaque vai para a belíssima arte de Sana Takeda. Com influências dos quadrinhos ocidentais e orientais, a desenhista cria um mundo onírico com bastante identidade, mesclando bases distintas como a mitologia egípcia, a fantasia asiática e o steampunk vitoriano de forma audaciosa e sem esconder as suas inspirações. Além disso, sua narrativa dinâmica traz leveza e intensidade para a trama, dando a obra todo o material imaginativo para ficar eternizado na mente de seus leitores.

Publicado pela Image ComicsMonstress é o mais recente exemplo de como a cena independente vem moldando o cenário dos quadrinhos e dialogando abertamente com o mundo a sua volta. Indo além das pinceladas dadas pelas grandes editoras e criando toda uma estrutura que permite que as verdadeiras mudanças de pensamento aconteçam no mercado do entretenimento sequencial.

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