Mulher Maravilha: Embaixadora da ONU

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Há alguns dias a minha vida se encheu de alegria e muitos amigos fizeram questão de lembrar isso em carinhosos compartilhamentos em redes sociais. Diversos sites noticiaram a escolha da ficcional Mulher Maravilha, ícone feminino no mundo dos super-heróis, como embaixadora honorária da ONU contra a violência de gênero. E agora existe a grande possibilidade de uma parte da ficção se tornar realidade: A Mulher Maravilha representando mulheres (não de uma ilha, mas de muitas) e agindo muito além de seus irmãos super-heróis na concepção de altruísmo.

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Arte: Alex Ross

A notícia foi anunciada em grandes jornais internacionais, em alguns momento dividindo opiniões. O jornal Le Monde fez uma alfinetada crítica da escolha da personagem fictícia no lugar de uma mulher real, bem como a presença ainda muito maior numericamente de homens em cargos altos dentro da própria ONU.  A rede de notícia da BBC, através de seu site, noticiou não apenas o plano patrocinado pela Warner, mas igualmente, as acusações de desigualdades de gêneros na ONU, algo que pode ser repensado após as comemorações de aniversário dos 75 anos da personagem e sua nomeação como embaixadora de tais assuntos.

A BBC também confrontou posturas distintas: mulheres do site Mary Sue que ovacionaram a proposta de uso da Mulher Maravilha como símbolo não personificado de uma irmandade de mulheres contra o machismo e o Partido da Igualdade das Mulheres, do Reino Unido, lamentando a ausência de uma representante de carne e osso. De todo modo, a proposta já causou furor e entusiasmo, e a promessa é de medidas eficazes durante um ano de pauta. Oposições a parte, é inegável que a persistente injustiça baseada nos sexos continue a promover em nosso mundo violências diversas.

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Lynda Carter

O cargo de “embaixadora honorária para o emponderamento das mulheres e das meninas” pode ser uma jogada de marketing da empresa envolvida, mas que consiga ir além: fazer valer de sua popularidade enquanto arquétipo reconhecível um poder simbólico sem igual para a promoção da igualdade entre as diferenças de sexo e gênero. O projeto de parceria entre a ONU, a DC Comics e a Unicef vem garantir um compromisso simbólico diante das injustiças baseadas no sexos que veem ocorrendo no mundo.

A cerimônia com data prevista para 21 de outubro de 2016, a pouco menos de uma semana deste nosso texto, contará com a presença da presidente da DC Comics, Diane Nelson, e que pode trazer surpresas, que muitas notas já acreditam se tratar da atriz Lynda Carter, que interpretou a personagem na série de TV entre 1975 e 1979, e Gal Gadot, atualmente a Mulher Maravilha dos planos cinematográficos da Warner-DC. Tais mulheres alicerçam a personagem em mais de 70 anos de produto em um mundo onde a luta feminista já atravessa o século.

Gal Gadot

Eu vi a personagem ser embaixadora nas histórias em quadrinhos há mais de 30 anos atrás. Em 1987, eu estava num turbilhão de acontecimentos nos quadrinhos de super-heróis, um leitor bem novo de quadrinhos. Era a chamada Crise nas Infinitas Terras e minha mente infantil não conseguia assimilar todos os elementos, só sabia que meus amigos super-heróis estavam passando por cósmicas ameaças. Minha maturação pessoal acompanhou a maturação do universo da DC Comics nos anos seguintes. Era um marco zero para uma geração e uma etapa de meu amadurecimento. Lá estava uma de minhas prediletas, a Mulher Maravilha, renovada na edição de número 39 da revista do Super-homem pela editora Abril. Para mim, foi fascinante vislumbrar mitologia grega antiga e a super-heroína numa mesma diversão.

A Mulher Maravilha de Greg Potter e George Perez, no reboot de 1986, sintonizava bastante com outra Diana: a princesa de Gales. A bondosa e inocente Diana, no caso, a Mulher Maravilha, chegou ao “mundo dos homens” como representante de Themyscira, a ilha de amazonas, desvendando o bem e o mal além da ilha matriarcal. Na nova história, essa ilha foi feita de reencarnações de mulheres que sofreram violência de gênero. Logo a Mulher Maravilha se tornou uma figura pública, buscando levar os conhecimentos de paz e amor das amazonas aonde fosse mais necessária. Ela e sua contraparte, a Diana “Lady Di”, comungaram da prática filantrópica e do destaque feminino dentro do espaço político. Nos quadrinhos da segunda metade dos anos 1980 e parte dos anos 1990, a Mulher Maravilha foi representante das mulheres de Themyscira na Organização das Nações Unidas.

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Arte: George Perez

Apropriadamente, ver essa relação entre o ficcional e a realidade dialogando sobre representação feminina e política feminista vem em uma boa hora para minhas investigações. A quase dois anos venho promovendo extensa pesquisa sobre a relação entre o ícone Mulher Maravilha e o feminismo, através de discursos e imaginários. O ocorrido, sem julgamentos ainda, vem como um importante sintoma para o que venho trabalhando em diálogos com muitos nomes nos estudos históricos. A Mulher Maravilha foi instrumento pedagógico em 1941 sobre a valorização feminina no entretenimento infanto-juvenil, foi ícone feminista no coletivo de mulheres da Ms Magazine na escolha de sua capa inaugural da publicação comercial. São pontos importantes de meu trabalho que me dedico a tempo e com afinco.

É muito importante a representatividade, como ocorre com o Pantera Negra sobre o respeito aos negros e negras. A Mulher Maravilha tem seu lugar. Os arquétipos, esses nossos aguerridos super-heróis, lutam mais de uma batalha, já que lutam contra as hierarquizações essencialistas que insistem em rebaixa-los. Esses arquétipos são poéticas imagens de nossas identidades, fazendo os traços reconhecíveis nos serem alívios de representação. que a Mulher Maravilha seja, durante esse ano amazônico, uma bandeira erguida para lembrar em vermelho, azul e dourado a causa que nela depositamos.

 

Referências:

BBC News – Wonder Woman to become UN women´s champion.
Le Monde Rédaction – L´ONU préfère promouvoir Wonder Woman plutôt qu´une femme (réelle) à sa tête.
The Guardian Post – Wonder Woman named UN girls´empowerment ambassador.

 

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Luiz Fernando

    Achei sensacional essa nomeação. Não somente pq se trata de HQs e pq é uma personagem de HQ embaixadora da ONU virando uma embaixadora da ONU na vida real, mas pq é o reconhecimento e a consolidação de um símbolo para um movimento importante. A WW é um símbolo do feminismo e esse ato abraça ele, o legitima e o propaga. E agora a DC precisa tomar muito cuidado com o que ela faz com a personagem – e acho que o Rucka está tomando e fazendo isso bem certo!

    • Savio Roz

      Tenho me dedicado nos últimos anos a decifrar as raízes dessa relação. E estudar a Mulher Maravilha para a dissertação do meu mestrado tem me mostrando uma rede muito complexa que exige não apenas minúcias, como um olhar bastante sensível.
      Confesso, sou um apaixonado!

    • Savio Roz

      Oportuno! Mas nem sabia que tinha cor!

      • Eu lembro que ela era embaixadora da Unicef