A Mulher Maravilha na Primeira Guerra Mundial

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Calma, não entre em pânico! A Mulher Maravilha não existiu quando o mundo sofreu a chamada Primeira Grande Guerra Mundial. Como é bastante claro em diversos meios, ainda mais com a nova onda de valorização da amazona, a super-heroína é uma criação do período da chamada Segunda Guerra Mundial, nas bancas estadunidenses em outubro de 1941.  Mas o recém filme da Mulher Maravilha , que será lançado aqui no Brasil nesta semana, no dia 1 de junho, mudou o cenário político de sua narrativa de origem, levando a Mulher Maravilha interpretada por Gal Gadot a protagonizar o conflito bélico dos anos 1910! Talvez essa mudança de cenário histórico possa ser bastante oportuno para se pensar as representações femininas e a luta das mulheres por seus direitos e nada como fazer uma HQmnese sobre isso!

A Mulher Maravilha vivendo entre operárias e sufragistas, num mundo ainda menos igualitário do que em sua encarnação dos quadrinhos.

Na narrativa cinematográfica, a princesa amazona, Diana, desperta para o Mundo dos Homens durante a Primeira Guerra, que ocorreu especialmente no teatro de operações europeu entre 1914 e 1918. Os Estados Unidos estavam, neste conflito, atuando como neutros: lucrando com as vendas de alimentos e armas para os países da chamada Tríplice Entente: França, Reino Unido e Império Russo. Essa postura de neutralidade oportunista se encerrou quando o Império Russo saiu de cena, com a derrocada da monarquia czarista pelo operariado russo em 1917, e com o ataque dos submarinos torpedeiros alemães aos navios estadunidenses. Isso explicaria a presença do aviador e espião Steve Trevor na narrativa, como claro par romântico de Diana e longe dos céus da Segunda Guerra.

Pour Le Mérite era uma condecoração concedida aos habilidosos pilotos pelo Reino da Prússia que foi dissolvido ao fim da Primeira Guerra.

Steve Trevor, que será interpretado por Chris Pine na tela grande, já tinha o ofício militar de aviador nos quadrinhos, mas na década de 1940. Apesar do acidente na Ilha das Amazonas, como os trailers cansam de mostrar, nem de longe é um piloto inexperiente. Na cena em que ele é salvo e está nas areias da praia, é possível ver a condecoração mais importante aos pilotos durante a Primeira Guerra Mundial ostentada em seu busto: Pour Le Mérite. Se Trevor é membro do Serviço Aéreo do Exército dos Estados Unidos, que entra em jogo em 1918, já tiramos de cara que o filme se passa exatamente no fim da Primeira Guerra. Se o filme fez o dever de casa de construir uma narrativa ficcional sobre a nossa História, talvez tenhamos uma boa apresentação da história da Primeira Guerra e algumas batalhas com aviões bi-planadores e tudo! A mudança entre os conflitos das nações não causa muita confusão no caso da Mulher Maravilha, já que a guerra (no caso, a Segunda Guerra) foi parte de seu cenário, mas não enraízam a super-heroína no conflito, como ocorre com o Capitão América. Seu choque mais visível será para com as mulheres e suas lutas aguerridas nesta transição dos séculos XIX e XX.

O peso de responsabilidade sobre Gal Gadot e sobre o filme da Mulher Maravilha para salvar a DC-Warner nos cinemas é digno de Atlas!

A mudança temporal na narrativa não altera o mito das amazonas apropriado pelo mito da Mulher Maravilha. Lá estão elas, bem próximas dos quadrinhos, ou do mito quadrinizado por William Moulton Marston (lembra que falei disso aqui no Plano Infalível? Não leu? Ora, essa… Leia aqui!). Tirando o enfadonho detalhe de que são típicas modelos da Victoria´s Secrets! Lá temos, porém, a rainha Hipólita na pele de Connie Nielsen e sua irmã, Antíope, interpretada por Robin Wright. Não há desconfortos nos cenários paradisíacos da Ilha das Amazonas, nem mesmo nas atualizações do vestuário grego, bem ao estilo Fúria de Titãs. Ninguém vai ao cinema ver a Mulher Maravilha e esperar um filme historicamente correto! Infelizmente a diversidade das amazonas que já foi explorada nos quadrinhos depois da década de 1980 não conseguiu sensibilizar os padrões de beleza de Hollywood (Juro que já falei sobre beleza estética na Mulher Maravilha, neste texto aqui linkado, e não vou me ater a isso agora!). Para nós, aqui, vale falar sobre a luta de mulheres por seus direitos justamente em tão conturbado período, que irei torcer para ser ao menos bem aproveitada pela narrativa do filme!

A Revolução Industrial não abafou as reflexões que as mulheres começavam a fazer sobre as desigualdades que lhes atingiam no final do século XIX. Especialmente neste momento, com a exploração de mão de obra deixando o mundo rural e fazendo uso de crianças e mulheres em exaustivas horas de trabalhos em fábricas, com essa parcela com salários muito mais baixos que dos homens, mulheres se rebelaram. Mulheres como Flora Tristan e Jeanne Deroin, buscaram educar seus filhos, lutaram por seus direitos trabalhistas e questionaram as desigualdades, fazendo-se ouvir as vozes das mulheres operárias e com isso também ganharam descontentamentos dos reacionários. Se a Mulher Maravilha chegou ao mundo dos homens de 1918, encontrou um mundo onde as mulheres eram exploradas em jornadas de trabalho que chegavam a 18 horas. As mulheres perceberam que jamais conquistariam suas independências se não pudessem intervir politicamente, nascendo, assim, o movimento sufragista. Mesmo em terreno estadunidense, a Mulher Maravilha poderia (ou poderá) ser informada sobre os diversos estados da União que já teriam o voto feminino e a postura do presidente Woodrow Wilson, em 1918, a favor de uma ementa federal que só se concluiu ao fim da Guerra.

Etta Candy (Lucy Davis) dará o tom de leveza, mas será que irá incorporar uma sufragista?

A função de representar essa mulher no limiar da contestação talvez recaia sobre a personagem Etta Candy. Interpretada por Lucy Davis, os trailers já mostraram se tratar de um gancho cômico para a narrativa, não muito diferente de sua contraparte quadrinhesca. O que vale a atenção é se a divertida Candy também será produtora de proatividades femininas e questionamentos ao status quo. Já descrita como secretária (conceito interpretado por Diana como “escrava”) Candy representaria aquela mulher com acesso aos meios de informações que acompanharia os desenrolares políticos do movimento sufragista e certamente já teria ouvido os discursos de Emmeline Pankhurst. Longe de qualquer segurança, essas mulheres foram perseguidas e presas, e isso certamente assustaria a uma amazona acostumada à autonomia e liberdade!

Durante a Primeira Guerra Mundial as mulheres também participaram da História, não apenas como coadjuvantes. Ocuparam espaços e cargos onde os homens do front deixaram vacâncias, muitas vezes acima das expectativas. Experimentaram uma produtividade não doméstica que repetiram na Segunda Guerra Mundial. Úteis aos interesses masculinos, perceberam que podem sonhar e construir seus próprios interesses sem os grilhões sexistas que lhe domesticaram, lhes deram algemas. Quebradas as algemas da domesticação, essas mulheres não esquecem suas histórias e as histórias das mulheres são como os braceletes de Diana e de suas irmãs amazonas: belos lembretes do período em que foram cativas. O feminismo da Mulher Maravilha habita seus adornos e por que não rememorar as mulheres que lutaram na Primeira Guerra Mundial? Bem, bom filme! Depois voltem aqui e tragam seus feedbacks sobre a Mulher Maravilha nos cinemas!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Ótimo texto!

    Esse contexto para as mulheres é bem rico em luta de direitos e de ressignificações. Foi bem sagaz do Marston aproveitar esse contexto para lançar a personagem.

    Espero que o filme possa dar um vislumbre desse contexto e, principalmente, que as meninas que vão assistir saiam dele sentindo-se impulsionadas.

    Tudo de bom!

    • Savio Roz

      Sou realista, sei que não farão um filme engajado nisso, mas acredito que seria um enorme desperdício não pincelar o assunto. E quem sabe seja um exemplo para a DC-Warner mudar sua maneira de fazer as coisas?

  • Ana Lúcia Merege

    Texto excelente! A linguagem está muito acessível, a escrita cativante, e há uma grande riqueza de informações. Quem o ler antes de ver o filme poderá ir preparado para encontrar as referências citadas, que escapariam aos olhos de muitos, e com certeza contextualizar melhor as ações da Mulher Maravilha num mundo em movimento, onde as mulheres podiam não ser todas amazonas, mas certamente eram muito guerreiras!

    • Savio Roz

      E eu estou também nessa expectativa! É um momento muito oportuno e a escolha da Primeira Guerra não pode ser sem pretensões. Espero que ninguém me dê spoilers enquanto eu não tiver visto o filme! 😀

  • Savio Roz

    Prestígio internacional é outra coisa! 😉

  • Stefano Barbosa

    1 famoso militar a receber “Pour le Mérite” foi Rommel.
    na 2ª guerras várias militares (URSS) se destacaram enormemente!!

  • Luisa Magalhaes

    Adoreeeei <3 Ficarei muito feliz se o filme abordar de fato essas temáticas.
    Mas não estou tão esperançosa. A equipe poderia ter contratado uma historiador/historiadora para ajudar na construção da ambientação e no roteiro não é mesmo?

    • Savio Roz

      Capaz de ter profissionais pra isso, o problema é mais disposição da direção e da produção. Mas nisso o filme foi até esforçado.