A Mulher Maravilha Negra!

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Estou há dois anos numa fabulosa jornada em estudar a história da Mulher Maravilha e do feminismo, como a mais dedicada e apaixonada pesquisa que tive até então. A quantidade enorme de curiosidades contemplarão o texto final, quem sabe publicado em formato livro, o que não impede que, enquanto escrevo o texto acadêmico, eu também faça postagens instrutivas e acessíveis aqui no Plano Infalível. Atualmente estou lapidando a parte da joia que fala de uma personagem pouco visível, mas muito significativa: Núbia, a Mulher Maravilha negra.

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O mistério de Núbia

Já tratei rapidamente da Núbia no texto Irmandade e Matriarcado na Mulher Maravilha, além de ter sido importante objeto abordado no artigo A História Oculta das Mulheres-Maravilha de Bana-Mighdall, publicado nos anais do encontro de História da Associação Nacional de História (ANPUH). A personagem surge quando a equipe editorial da Mulher Maravilha muda em 1973, uma reação clara aos ocorridos sociais do período. No final de 1974 a publicação chega no Brasil, na última edição da revista As Aventuras de Diana em Cores,  da editora Ebal, na história O Mistério de Núbia e depois na edição número 1 da revista Superamigos, em 1977, pela editora Abril, com a história A Guerra das Mulheres Maravilhas. Mais que uma personagem satélite para mais uma aventura da Mulher Maravilha, Núbia era uma testemunha e testemunho de mudanças.

O mito das Amazonas era reintroduzido nos quadrinhos da Mulher Maravilha depois de seu afastamento no final dos anos 60. A equipe deste período acreditou que afastar a personagem de sua amazonomaquia” seria uma boa estratégia diante do novo movimento feminista (A Segunda Onda), o que acabou sendo um desastre justamente por causar descontentamentos. Era precisa renovar a personagem, trazer seus poderes e uniforme de volta e ainda por cima reintroduzir o seu mito de origem. A equipe editorial do começo dos anos 70 não se inibiram em usar a estratégia da amnésia para apagar a fase anterior e manter apenas a memória dos tempos de amazona. Com o retorno de Diana como super-heroína, um novo desafio lhe foi imposto: Enfrentar uma misteriosa mulher pelo cargo de Mulher Maravilha!

Diana conhece Núbia

A disputa acirrada entre as duas guerreiras deixa a todos perplexos, principalmente quando a desafiante apresenta certa superioridade. A armadura completamente fechada não permitia que sua identidade fosse exposta. Mas esta habilidosa guerreira, num derradeiro momento de vitória, hesita e com o empate revela-se Núbia, uma filha perdida de Hipólita. Neste processo, foi inserida a personagem como uma verdadeira irmã da Mulher Maravilha. Ambas feitas de barro mágico (Diana de um barro mais claro e Núbia de um barro mais escuro) pela rainha Hipólita e detentoras igualdades dos poderes dos deuses, tiveram suas vidas separadas por interferência do deus Ares (Marte). Núbia lidera com vigor uma cidade numa ilha flutuante, aguerrida pela criação do deus Ares e orgulha-se por não ser dominada por nenhum homem que empenha-se em tê-la por consorte. Na edição número 7 de As Aventuras de Diana, um negro e musculoso guerreiro, Kenyah, desafia a princesa que deixa bem claro, na página 29: “Nenhum homem terá Núbia”!

Diana e Núbia – Terceiro Round

Na edição seguinte as duas personagens se veem novamente em confronto, mas tudo não passou de um ardil do deus Ares. Através de um controle mental, por conta de um anel usado por Núbia, as duas irmãs se enfrentam, mas logo o feitiço é quebrado e ambas lutam juntas contra a deidade malfeitora. Isso acontece na edição número 1 de Superamigos, onde Hipólita revela o passado de ambas, e  forçada separação. Núbia, sob influência de Ares, é uma ameaçadora adversária para a princesa das amazonas, mas seu nobre coração nunca lhe permitiu entregar-se ao morticínio. Apesar dos dois equivocados embates entre as guerreiras amazonas irmãs, visivelmente estavam do mesmo lado. Ares tem muitos discursos contra mulheres, fora que seu intento é encerrar a campanha das amazonas por “amor”, o que ele considera um enorme perigo para sua política belicista.

Neste momento faz-se interessante uma pausa para se pensar criticamente os elementos pertinentes desta história em quadrinhos. Núbia é uma mulher negra, igualmente amazona, que lidera uma ilha flutuante. Seu séquito é de vigorosos homens negros trajando vestes reduzidas, uma tanga de tecido e um cocar, e poucos adereços dourados. Não há menção à África nestas primeiras edições (isso só vai ocorrer na edição 25 de superfriends, em 1979 – aqui foi na edição 21 de Superamigos em 1980), mas o estereótipo tribal é evidente nas representações que são feitas, como, por exemplo, nas vestimentas dos cidadãos da ilha flutuante. A libertação da ilha flutuante das influências de Ares e o objetivo de Núbia em guiar seus guerreiros no “caminho da paz” são expressivas ideias num período onde nações africanas estão conquistando suas independências e populações negras nos Estados Unidos estão lutando pelos seus direitos civis. Sem falar no alto teor de irmandade nas relações entre as duas mulheres, uma branca e uma negra, compreendendo a inexistência de uma feminilidade universal e a diversidade inerente à luta das mulheres.

Por longos anos Núbia praticamente desaparece das histórias em quadrinhos da DC Comics, nem mesmo é referida nas páginas da Mulher Maravilha. Doselle Young, roteirista negro californiano, revive a personagem com o nome de Nu´Bia, dentro do universo da Mulher Maravilha pós Crise nas Infinitas Terras, na edição Wonder Woman Annual 8, de 1999. Não é mais uma filha perdida e Hipólita, mas uma amazona comum. Ou não tão comum, já que é a responsável por proteger o reino das amazonas das vias que dão acesso ao Hades e ao Tártaro. Nesta tarefa a amazona negra conquista a graça da divindade zoroástrica Ahura Mazda, numa relação de devoção e amor. Guardiãs de caminhos místicos, perdidamente apaixonada por um deus antigo, nem de longe se assemelhou com a Núbia original.

A glória voltou de maneira ainda mais emblemática, quando Nu´Bia surgiu devidamente uniformizada como Mulher Maravilha. Isso aconteceu na edição de número 7 da minissérie Crise Final (lançada no Brasil em 2010), sob a batuta de Grant Morrison, numa realidade do multiverso, a terra-23, o panteão de super-heróis da DC Comics é majoritariamente negro. Sua aparição tão rápida na trama não lhes retira o destaque. A arte de Doug Mahnke deixa Nu´Bia em proeminência, fazendo, enfim, ela representar a Mulher Maravilha Negra! Logo saiu nas edições Action Comics número 9 (no Brasil foi na Superman número 9, editora Panini, em 2013) e The Multiversity (Lançada em 2015 pela Panini com o título Multiverso DC).

Núbia, ou Nu´Bia, nunca foi uma personagem bem aproveitada pela editora DC Comics, ainda que tenha em seu histórico momentos muito interessantes. A sua presença, claramente uma oportuna visibilidade da mulher negra, pouco ocupou as numerosas páginas de quadrinhos. Mas, entretanto, a sua existência (e persistência) tem sido celebrada em diversas postagens e numa rápida busca na internet sobre sua imagem. Há um liberto divertimento ver tantas mulheres negras vestidas (cosplay) de Mulher Maravilha, ainda que não se entendam a Núbia, mostrando o apelo possível que a super-heroína tem com tão vasto público. Quem sabe depois deste texto as pessoas possam dizer: Eu sei que existe a Mulher Maravilha negra!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Nubia deve vi da região africana de mesmo nome, eles chegaram a dominar o Egito por um tempo. O History fez uma versão do Sansão numa série onde ele era negro e usava dreadlocks, na explicação da trama falaram que a origem da mãe dele era desconhecida, possivelmente núbia (eu acho).

  • Faltou uma tag para “Mulher-Maravilha”, assim irá linkar com os outros textos.

    • Savio Roz

      Feito! 😀