Mulher Maravilha: A Atlas Feminina Segurando o Mundo da DC-Warner nos Cinemas

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Como a versão feminina do Atlas, Diana carrega em seus ombros, com demasiado esforços, o mundo cinematográfico da DC-Warner. Esse foi o pensamento que se repetiu durante o filme, para mim, pois estava claro o dado esforço que a direção de Patty Jenkins de não deixar mais um filme da franquia de super-heróis da empresa ruir como uma coluna deteriorada pelo tempo. Mulher Maravilha é um filme competente em ser produto de entretenimento, mas perdeu uma grande oportunidade de ser mais denso, se ateve a ser uma narrativa segura e pouco audaciosa. Não fui no lançamento, estive participando com palestra sobre Histórias em Quadrinhos e Literatura de Cordel (escrevi infalivelmente sobre isso, aqui!) para o Festival Literário de Jequié (o Felisquié), no estado da Bahia, mas fui para o cinema assim que voltei do evento. Muita gente me pergunta através de diversos meios de comunicação o que achei do filme, e considerei honesto escrever um texto sobre isso.

Mulher Maravilha, por George Perez. A face de Ares de fundo define o divino antagonista da amazona.

Especialmente para mim, esse filme tornou-se um marco, não pela sua qualidade, mas pela sua existência. Como muitas pessoas sabem, durante os últimos anos me dediquei a diversas pesquisas publicadas em artigos e uma encorpada dissertação sobre a Mulher Maravilha e a história do feminismo estadunidense. Acompanhei essa personagem, espécie de irmã-mãe para mim, desde minha infância, como ponto crucial o período em que a mesma foi escrita por George Perez, lançada aqui na revista Super-homem, em 1987, pela editora Abril. Jamais seria rigoroso em esperar uma luta ideológica, que é a existência e persistência da mais famosa super-heroína nas histórias em quadrinhos, numa produção cinematográfica. Foram 75 anos de avanços e retrocessos da Mulher Maravilha no que diz respeito à luta pela igualdade de gênero e pela respeitabilidade feminina e que certamente sofreriam adequações e ofuscamentos em 2 horas e 20 minutos de filme. É um filme básico de super-heróis, com o notório destaque de se tratar da primeira personagem feminina de peso! Eu fiz de tudo para o texto não ter spoilers, mas recomendo ler ele depois de ver o filme!

A mudança de cenário histórico, da Segunda Guerra para a Primeira Guerra (como escrevi no artigo anterior! Não leu? Aproveita ele aqui!), não interferiu para a apresentação da maior das amazonas. A narrativa de abertura do filme se faz confortável com as imagens dos deuses em pinturas que se movem e da pequena Diana, que arrancou sorrisos e suspiros dos telespectadores. Nos quadrinhos temos, sim, a única criança, Diana, feita de barro, como narrada em sua primeira aparição em 1941. O filme bebe bastante da origem de seu criador, William Moulton Marston, onde as mulheres guerreiras do mito das amazonas se libertam de Hércules e fogem, guiadas por Afrodite, para a isolada Ilha Paraíso. Para o atual momento de novo levante feminista, perdeu-se a oportunidade de protagonizar as deusas gregas. A narrativa do filme aponta Zeus como o patrono do refúgio das amazonas. O mito das amazonas (como escrevi no final do ano passado, aqui!), perdeu qualquer traço de emponderamento, sem citar que as guerreiras, nas histórias em quadrinhos, conquistaram sua liberdade a custo esforço. No filme, uma tarefa de Zeus.

Ann Wolfe é barra pesada!

As amazonas são retratadas no filme. Levemente diferente do que vi nos trailer, com muito mais presença de negras e de fenótipos femininos mais distantes dos padrões de beleza hollywoodianos. Como amigas compartilharam comigo essa mesma sensação, fica claro que as críticas sobre as ausências dessas mulheres fez efeito. Lá temos as atrizes Florence Kazumba (alemã) interpretando a senadora Acantha, Jacqui-Lee Pryce interpretando Niobe e Ann Ogbomo como Philippus, ambas de escola de teatro inglesa. Ainda temos a musculosa boxeadora Ann Wolfe no papel de Artemis! Antíope, a segunda rainha amazona, interpretada por Robin Wright, não lidera as radicais mulheres amazonas de Bana-Mighdall (Lembra delas? Dediquei um artigo para essas personagens!), mas está presente no berço da Diana dos cinemas. E por que não falar de Gal Gadot? Está clara a competência de Patty Jankins ao apresentar uma Mulher Maravilha mais personalizada, longe da presença enfadonha (tirando a parte da luta) dela no filme Batman vs Superman. Gadot cresceu neste filme, é notável, mas ainda carece de uma postura e uma presença física que se destaque. Sua imagem, como na Mulher Maravilha dos anos 50, é ainda bastante limitada aos ideais de beleza femininos esguios e jovens.

A constância de “duplo protagonismo” me incomodou. Mesmo distante do poder da Mulher Maravilha, Steve Trevor, interpretado por Chris Pine, se assume “acima da média” e participa tanto das cenas que me fez pensar se as “namoradinhas” dos super-heróis em seus filmes ganham igual destaque. Historicamente, nos quadrinhos, ele estava lá, fazendo o papel de par romântico de Diana, desde os anos de 1940. Durante a década de 1950 isso se intensificou, com o projeto de “feminilização” da Mulher Maravilha pela editora. Para quem for ler a origem escrita por George Perez, seu papel fica muito mais secundário, mas o filme pouco bebeu dessa fonte. Quando bebeu foi para construir a imagem do deus Ares, principal antagonista do filme, mas que pouco amedronta. Parece que vivemos uma crise dos vilões, tanto para a DC-Warner quanto para a Marvel. Eles não nos assustam, não nos causam espantos. Nisso as séries da Marvel exibidas pela Netflix, com vilões como Rei do Crime (interpretado por Vincent D’Onofrio) e Homem Púrpura (interpretado por David Tennant), dão um show. Etta Candy, na britânica interpretação de Lucy Davis, tristemente, só existe como ponto de riso. Frustrei-me da ilusória expectativa de ver um diálogo sufragista mais sólido nela.

Patty Jenkins dirigindo Gal Gadot.

Mesmo evitando ler matérias, notas, e postagens sobre o filme, me ocorreu de ler, mesmo que rapidamente, uma opinião de que havia um demasiado espírito pacifista na Mulher Maravilha do filme. Bem, isso estava nos planos do seu criador, Marston, em se criar um ícone feminino que valorizasse o amor e a paz. A pesquisadora Jill Lepore , no livro The Secret History of Wonder Woman (recentemente publicado no Brasil) descreve esse pensamento do criador da super-heroína, que diz:
“Vamos supor que sua criança idealize tornar-se um super-homem que usa seu poder extraordinário para ajudar os fracos. O ingrediente mais importante na receita de felicidade humana ainda está faltando – o amor. É esperto ser forte. É grandioso ser generoso. Mas é efeminado, de acordo com regras exclusivamente masculinos, ser terno e amoroso, carinhoso e sedutor. “Ah, isso é coisa de meninas!”, reclama nosso jovem leitor de quadrinhos. “Quem quer ser uma menina?” E isso é o ponto: nem mesmo meninas querem ser meninas tanto tempo, pois nosso arquétipo feminino carece de força, potência, poder”, e completa: “As fortes qualidades das mulheres foram desprezadas ao tornarem-se fraquezas”.
O questionamento sobre a postura pacifista e amorosa (inclusive o discurso sobre o poder do amor no filme) são claras imprecisões dos seus detratores, geralmente incomodados que visivelmente não foram leitores da Mulher Maravilha. E isso será muito comum, a partir de então: velhos pseudo-leitores da super-heroína. Neste ponto eu prefiro a nova turma, que vai se encantar com a abertura que o filme permitiu e vão buscar as trilhas em quadrinhos que a princesa amazona caminhou até aqui. Dicas dessas trilhas foram postadas pelos outros infalíveis, Edimário Duplat e Isabelle Felix em seus perfis do Facebook, onde cada um fez belas críticas sobre as edições mais acessíveis (e emblemáticas) da Mulher Maravilha! Eu recomendo que deem uma olhadinha lá no face! E aproveita e nos acompanha na nossa fan page!

Sim, fiz muitas críticas, como as escritas acima e certamente tenho outras sobre a produção cinematográfica. Mas não é uma crítica condenatória, pelo contrário. Da nova leva de filmes da empresa, Mulher Maravilha se configura como uma produção resistente. Não se trata de um filme extraordinário, mas nem de longe foi um trabalho mal feito. Impecável só a trilha sonora de Hans Zimmer. Na tarefa de segurar sobre seus ombros a responsabilidade de dar qualidades aos filmes da DC-Warner, Diana faz um trabalho árduo e  louvável. Seu roteiro rasante não lhe suja da lama do descontentamento, mas certamente não torna-se um voo imponente, uma pena. Mulher Maravilha, o filme, não é um soberbo apogeu, mas é um digno ponto de partida. Se a empresa DC-Warner souber aproveitar, pode fazer dela um farol para um caminho menos desastroso. Foi uma vitória técnica, sem decisão unânime, mas eu ainda vou aguardar o espetáculo do nocaute!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • R JO Almeida

    Bem, me diverti muito com o filme, mas basicamente, as mesmas situações problema, que te incomodaram, me incomodaram, também. O filme é um grande feijão com arroz bem temperado, não arrisca e entrega algo óbvio, mas não menos divertido. Outra, uma semi deusa Amazona, mesmo que ingênua, deve trazer consigo, em seu arcabouço moral, intelectual e físico, mesmo que inconsciente, um algo orgulhoso e arrogante, próprio de quem transita pelo poder, mesmo que tenha uma humildade sábia donde proteger os mais fracos se sobreponha até à sua própria salvaguarda. Qualquer semelhança com o comportamento de Thor, nos Vingadores. Falta isso nela, na Mulher Maravilha, que, por vezes, parece que se inferioriza ante o superestimado Steve Rogers. Poder é poder, não importa a época ou o local. E nenhuma Amazona orgulhosa e valorosa se deixaria sobrepor por homens frágeis e arrogantes, assim como naquela cena em que os lords e generais discutem um armistício, quando ela acaba sendo retirada quase que à força do recinto. Todavia, relevo esses detalhes, em nome de uma satisfação ímpar: de ver um filme nas telonas da Mulher Maravilha. Corrige-se uma falha lamentável de 75 anos de existência, dos quais, em meus 47 anos de vida, uns 30 eu pude viver contrariado com isso… rs… em tempo, belo texto!

    No mais, tem tanta coisa para se falar e discutir sobre este filme, mas prefiro ouvir as demais opiniões e falas!!!

    Abraços,
    Roberto Almeida

    Ps. Meu amigo, por gentileza, verifique isso:

    Jacqui-Lee Pryce interpretando “Niobe” e Ann Ogbomo como “Niobe”, ambas de escola de teatro inglesa. Acho que o corretor duplicou “NIOBE”.

    • Savio Roz

      “Um grande feijão com arroz”, você foi certeiro.
      Mas vamos ser esperançosos, quem sabe esse filme seja o sinal de mudanças nos ventos (talvez tarde para Liça da Justiga)!