Onde está Martha Washington?

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As vezes o passado se mostra mais libertário, mais “mente aberta” que o presente. E isso não vale somente para uma pessoa, como, também, para uma sociedade. Martha Washington é a personagem central de obras em quadrinhos que surgiram como posturas críticas de seu autor contra paradigmas que o mesmo curiosamente abraçou décadas depois. Da mesma forma, o espaço social em que a personagem nasceu parecia mais disposto a concordar com seus recados que o espaço social atual. Num momento político (mundial, quem sabe) de medo e falta de conhecimento, onde está Martha Washington?

Martha Washington comeu o pão que o diabo amassou durante muitas histórias em quadrinhos. Sua estréia se dá na minissérie Give Me Liberty de 1990, lançada no Brasil com o título Liberdade: Um Sonho Americano em quatro edições em 1991 e em encadernação no ano seguinte, ambas pela editora Globo. Narra a história da jovem negra Martha Washington para conquistar o seu lugar ao sol numa sociedade muito desigual e injusta. Não é muito diferente de nossa realidade, já que ainda é latente e inquestionável que mulheres negras enfrentam mais dificuldades em diversos espaços sociais que outros gêneros e raças. Nisto é notável e singular a presença de Martha Washington em páginas de publicações enfrentando uma infinidade de problemas.

martha1Diferente da personagem histórica Martha Dandridge Custis Washington (a primeira primeira dama, ou seja, a esposa do primeiro presidente estadunidense, George Washington), esta Martha Washington confronta todas as dificuldades impostas ao seu lugar de mulher negra e pobre. Uma situação infelizmente bastante comum em nosso mundo social atual. Martha morou num gueto negro chamado Estufa, e precisou muitas vezes se vestir como garoto para evitar o estupro. A população local está agarrada à uma religiosidade, com um esperançoso mantra sobre amor repetido em muitos momentos.

Escrita por Frank Miller (antes de se perder numa postura conservadora e autoritária) e desenhada por Dave Gibbons (aquele mesmo de Watchmen),  foi um dos mais bem sucedidos projetos pela editora Dark Horse. Seu ponto principal é a crítica a um estado policialesco onde as liberdades são cerceadas e um autoritarismo busca manter o controle de uma população empobrecida e doutrinada. Esse controle se faz através de discursos ordeiros e práticas austeras, bastante comuns em regimes autoritários e políticas reacionárias. Na narrativa, transitam dois governos presidenciais e os problemas que acarretam a cada um deles, mostrando que mesmo duas administrações diferentes podem vivenciar fragilidades.

O presidente Erwin Rexall (aparentemente eleito, mas que está no poder a bastante tempo) surge logo nas primeiras páginas, entre 1996 e 2009, numa emblemática postura de braços levantados e sinal de vitória com os dedos, o famoso “V de vitória”. Esse maneirismo gestual é uma evidente representação do presidente republicano Richard Nixon, que governou os Estados Unidos entre 1969 e 1974, e mesmo hoje em dia pode ser visto em outras performances políticas, como é o caso do atual presidente eleito, Donald Trump. No período em que a história em quadrinhos foi elaborada, o governo federal estadunidense estava nas mãos de George Bush (o pai), extremamente conservador e neoliberal, mas de crescimento econômico muitas vezes apontado pela política externa agressiva e belicista.

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Nixon, Rexall e Trump: performances

Justamente esse mundo militarizado é representado nos quadrinhos da Martha Washington. Para a personagem principal, o alistamento na força militar “pacificadora” chamada PAX significou ascensão social, garantindo-lhe emprego e até mesmo ensino superior gratuito. Mas a guerra não é romantizada, pelo contrário, é um registro de memória da ainda desmoralizada Guerra do Vietnã, só que no caso de Liberdade: Um Sonho Americano é vivido no Brasil. Martha Washington se vê, simbolicamente, numa negra pantera que aparece como um totem em muitos momentos na narrativa e os problemas lhe chegam sem piedade, sem nenhuma pausa para descanso.

pax1Martha tem uma infinidade de adversários que são contrários à sua cruzada pessoal. O mundo político e social em que ela habita já amedronta muito mais que a floresta amazônica tratada pelo exotismo e perigo em toda a história do quadrinho. Como uma espécie de antagonista fundamental, Moretti, um militar que confronta Martha em diversas ocasiões, é, também, um conspirador nato que leva seus interesses escusos com nefasto empenho. Em momentos de crises políticas a população temerosa se abraça à crença de um messias carismático ou mesmo de uma postura salvacionista. Dessa forma a cura do estado, para alguns, está no poder do Cirurgião Geral, e para muitos outros, no separatismo que toma a ficcional nação.

O conflito civil gerado pela instabilidade política divide os Estados Unidos de Martha Washington em vários pequenos logradouros: Federação dos Estados da Nova Inglaterra, Ditadura capitalista da Costa Oeste, País de Deus, País das Maravilhas, América Real, Primeira Confederação Sexual, entre outros. Extremismos políticos tendem, fatalmente, a guiar as populações a uma clara incapacidade de convivência de pontos de vista discordantes, bastante presente na narrativa em quadrinhos de Martha Washington. A história em quadrinhos fala de uma realidade não apenas do começo da década de 90, mas o faz, como competente ficção, através dos usos dos exageros para construir sua crítica.

Existe uma espécie de jogo de sístole e diástole entre diálogos flexíveis e discursos rígidos, entre uma dialética possível para uma solução ou uma postura radical impositiva. Tem sido o que nos toma no atual momento, seja qual for o prisma, as vezes sem limitar-se ao critério político, ou, pelo menos, ao ringue da política. Parece, como está escrito na própria HQ, que há uma espécie de “rompimento de um dique emocional”, ou pelo menos os tristes efeitos de suas fissuras mais expressivas. No entretenimento dos quadrinhos, Martha Washington nos emociona através da resistência, da persistência, de uma mulher negra contra um mundo extremamente repressor. O momento é oportuno para perguntar (para as editoras no Brasil): Onde está Martha Washington?

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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