Por que as pessoas são fascinadas pelo Coringa?

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          Com a proximidade do filme Esquadrão Suicidas (Nos cinemas em 4 de agosto), volta a evidência um certo fascínio que o Coringa, possível vilão da trama, exerce nas pessoas. Ele está contagiosamente inserido na cultura contemporânea, um ícone apropriado do mundo medieval circense e de entretenimento régio para o deleite diante do insensível e do perverso. As pessoas romantizaram o Coringa, mas seu fascínio vai além do entretenimento. Precisamos desvendar os sinais e vestígios, como concordaria o historiador Carlo Ginzburg, para entendermos o Coringa e sua hipnose social.

          Como historiador, faço um balanço de quem é o palhaço do crime na história dos quadrinhos. O personagem sofreu diversas transformações desde sua origem até os dias atuais, tendo sido um gangster sádico, um divertido louco e desaguado na medonha e querida figura que foi muito além que o curinga das cartas de baralhos no final do século XIX. Curiosamente o termo curinga, como ganhou o nome no Brasil, vem da língua quimbundu, língua bantu dos escravizados trazidos de angola, e significa “matar”. Além da carta de baralho foi justamente o cinema outra fonte de inspiração para o personagem.

             Bbatman-1-jokerill Finger, um de seus criadores, esteve envolvido em diversos processos de plágio e não é difícil perceber que em 1940 o Coringa era um bandido referente a um filme da década de 20. Em O Homem que Ri (The Man Whos Laughs, no original), de 1928, filme baseado no livro homônimo de Victor Hugo, o ator Conrad Veidt interpreta o dramático Gwynplaine que teve seu rosto desfigurado cirurgicamente a penar com um macabro sorriso eterno (Veja um trecho!). A estética foi usada para dar a aparência do perverso gangster que surgiu na edição de abril de 1940 da revista Batman (aqui no Brasil foi a edição número 17 da revista O Lobinho de setembro de 1941).

          O personagem nos quadrinhos sofreu diversas transformações de acordo com uma espécie de clima histórico que a mídia vivenciou em seus mais de 70 anos. Começou e morreu como um gangster, mas sua popularidade foi tamanha que logo apareceu em diversas edições durante as décadas seguintes. Amenizado de sua carga violenta inicial, chegou a ter uma publicação própria durante 1975 e 1976. Esteve presente em boa parte das grandes obras em quadrinhos do Batman e destacou-se em edições como a Origem Secreta Supervilões (Ebal, 1977), Piada Mortal (Panini, 2015), Advogado do Diabo (Abril, 1997), Coringa (Panini, 2009) e Noel (Panini, 2015), entre tantas. Sempre narrando a participação de um homem de extremos: um gênio e um monstro insensível.

          Nos cinemas grandes nomes já atuaram como Coringa, sempre envolvendo uma grande expectativa sobre sua atuação e o quão nos chocará suas atitudes. Cesar Romero foi o emblemático Coringa de 1966, atuando na série televisiva Batman & Robin e no filme para cinema. Quando convocado para atuar como o palhaço do crime, Romero só fez uma pitoresca exigência: Não tirar o bigode! Por isso, se reparar bem, perceberá que o ator tem a maquiagem sobreposta ao seu orgulhoso bigode. Jack Nicholson deu vida a Jack Napier, um Coringa na transição entre o mafioso inescrupuloso e o insano terrorista no filme Batman de 1988. Em 2008 o ator Heath Ledger usou de estudos sobre esquizofrenia para construir sua interpretação, tendo sua morte ligada erroneamente a sua interpretação verossimilhante.jared-leto-drops-another-classic-joker-comic-book-reference-for-suicide-squad-joker-art-946080

          A psicóloga Indianara Pereira de Melo nos alerta sobre como a ficção pode, muitas vezes, construir um imaginário caricato da condição psíquica. Através de abordagens junguianas, Indianara compreende que “o estudo dele pode até ter sido sobre a esquizofrenia, mas no personagem isso fica muito distante da patologia em si”, quer essa prática de mergulho no personagem tenha causado ou não fragilizações no ator. De todo modo, Indianara entra na diversão nossa do site e faz um diagnóstico: “Quanto a patologia do Coringa, em hipótese nenhuma me parece com esquizofrenia, pelo menos não no modelo atual de Coringa”, e conclui, de acordo com o CID 10 (Critérios diagnósticos pelo DSM-IV-TR, Código: 301.7), trata-se de indivíduo com Transtorno de Personalidade Antissocial. Nossa psicóloga entende melhor que o doutor Jeremiah Arkham sobre seu paciente mais famoso!

          Mas por que esse personagem ficcional nos causa ao mesmo tempo tanto desconforto e tanta empatia? Como pode alguém sempre envolvido em atitudes cruéis nos ser tão interessante? Geralmente histórias com elementos de patologia psicológicas sempre fascinaram as pessoas, fazendo-as acompanharem em relatos orais e na mídia grandes narrativas de loucos assassinos. Jack – o Estripador, durante o inverno de 1888 em Londres, o assassinato de Elizabeth Short que ficou conhecido como A Dália Negra, em 1947, ou a explicação de John Hinckley Jr. Para seu atentado contra o presidente Ronald Reagan: Com a morte do presidente a atriz Jodie Foster se apaixonaria por ele!

          A doença mental é ainda um terreno incerto para a ciência mental, carregada de imprecisões que lhes garanta objetividades técnicas. As sociedades na história sempre estigmatizaram o paciente psiquiátrico, e essa parte da sociedade segregada eventualmente esteve abandonada ou encarcerada. Como o historiador e filósofo Michel Foucault registrou:

“Os loucos tinham então uma existência facilmente errante. As cidades escorraçavam-nos de seus muros; deixava-se que corressem pelos campos distantes, quando não eram confiados a grupos de mercadores e peregrinos. Esse costume era frequente particularmente na Alemanha: em Nuremberg, durante a primeira metade do século XV, registrou-se a presença de 62 loucos, 31 dos quais foram escorraçados” (FOUCAULT, 1972, p.13).

          De início frutos de moléstias espirituais, os loucos foram tornando-se alvo da curiosidade científica na estruturação da psiquiatria no século XVIII. A saúde mental avançou junto a estudos diversos e o ramo que trata de abordagem e conduta do paciente psiquiátrico, principalmente o esquizofrênico. Nos anos 60 surge um movimento antipsiquiátrico que critica e contesta tais abordagens, de onde Foucault sintoniza suas críticas à instituição. O movimento antimanicomial com certeza ficaria estarrecido com o mundo de Gotham, pois o Asilo Elisabeth Arkham para criminosos insanos é totalmente inadequado para o tratamento de seus pacientes, os vilões de Batman, como na narrativa Asilo Arkham (Panini, 2013).

          Os vilões conseguem justificar suas ações (muitas delas bem emocionais), mas o Coringa parecer viver apenas do 00be9398a560d255fe013394acd667d2prazer caótico e insano. Mas essa aparente ausência de razão no Coringa, entretanto, fragiliza-se na edição Um Conto de Batman: De Volta à Sanidade, lançado no Brasil pela editora Abril no final de 1995. Nesta edição, o Coringa acredita ter matado o Batman e com a ausência de seu arqui-inimigo resolve abandonar sua identidade criminosa e viver a vida dentro do conceito de normalidade aceitável. Se apaixona e vive o cotidiano civil até a volta do Batman. Algo semelhante ocorreu em Cavaleiro das Trevas (Panini, 2015), quando o Coringa sai de seu torpor com o retorno do Batman à atividade. De acordo com Indianara, é interessante perceber essa polaridade entre sanidade e insanidade, já que “não é a ausência de doenças ou pequenos problemas, mas uma forma funcional de lidar com elas”.

          O Coringa protagonizou feitos assombrosos nas histórias em quadrinhos, que lhes garantiram o status de mais perigoso inimigo do Batman. O Coringa matou com um pé de cabra o Robin Jason Todd (DC especial 1, Abril, 1989), Atirou em Bárbara Gordon e a desnudou para exemplificar sua teoria de insanidade (Piada Mortal, 1988), matou Sarah Essen Gordon, esposa do comissário, depois de ameaçar atirar num bebê em troca da arma dela (revista Batman 9, Abril, 2001), tirou a pele de um homem vivo (Coringa, Panini, 2009). Enfim, ilustra sua carreira nos quadrinhos com perversões monstruosamente imaginadas por seus escritores.

          Talvez parte do fascínio das pessoas reside no desconhecimento desses detalhes sórdidos no histórico do palhaço do ódio. Existe, então, um conhecimento sempre por detrás de tão malicioso sorriso, de sua gargalhada tenebrosa, desta maneira “a loucura fascina porque é um saber. É saber, de início, porque todas essas figuras absurdas são, na realidade, elementos de um saber difícil, fechado, esotérico” (FOUCAULT, 1972, p.26) tornando o Coringa uma espécie de farol representativo de um cansaço assumido diante do esforço de ser bom e justo, ou do esforço de ser são (Trecho do documentário “Foulcault por ele mesmo”). O Coringa seduz por que “este saber, tão inacessível e temível, o Louco o detém em sua parvoíce inocente” (FOUCAULT, 1972, p.26).

          Há um saber onírico na loucura que nos faz tanto fascínio, como uma liberdade total das correntes da coerência e dos cansativos esforços éticos. Ser libertamente louco é ser irresponsável, como já fomos na infância, e dar ao mundo nosso desejo e não nosso empenho de que ele funcione. Indianara atenta para essa característica do “mal caricato”, do primitivo da psique humana, definida na teoria junguiana através dos arquétipos. Como se o Coringa representasse o “mal perfeito”, como se fosse uma das ideias do mundo platônico, sem sua capa de imperfeição. Além, também, de uma legitimação glamorosa da maldade na figura do palhaço sorridente e malévolo, que tanto figura em tatuagens de criminosos que assumem pela simbologia o assassínio de policiais, como registrou a pesquisa do policial militar capitão Alden dos Santos (Saiba mais!).

          As pessoas veem nos vilões, em geral, aquela não assumida natureza de liberdade de fazer o que gostariam e não o que é correto. Esses monstros falam muito de nós, pois “de início, o homem descobre, nessas figuras fantásticas, como que um dos segredos e uma das vocações de sua natureza” (FOUCAULT, 1972, p.25), e o cotidiano nos permite (e exige) seguir outra tendência. Mas é certo que este texto pode esclarecer muitos pontos e desvendar um Coringa para o leitor, mas certamente não causará impacto no fascínio que o Coringa causa em nossa sociedade.[Asilo Arkham]

Referências:

BBCBRASIL. PM desvenda significados de tatuagens no mundo do crime. Terra Notícias. 28 de janeiro de 2015.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. Editora Perspectiva. São Paulo, 1972.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Muito boa a análise do personagem. Muito interessante entre o termo banto e o carinho.
    No mundo marcado por um discurso racional, após o advento da modernidade, a figura do Coringa parece apelar a loucura tão temida pelo racionalismo exacerbado. Bem pertinente a citação a Foucaut, como a sua colocação sobre o esquecimento das ações mais temíveis do personagem.
    Tenho a impressão que as encarnações que unem o sádico ao mafioso não deixa de ser uma forma de mostrar como a racionalidade instrumentsl da busca de capital é em si mesmo uma loucura e um sadismo implícito a acumulação de capital a qualquer custo, sendo, talvez, o Coringa a materialização dessa loucura do próprio sistema em si mesmo.
    Tudo de bom!

    • Savio Queiroz

      Obrigado, Tiago!
      Realmente nosso palhaço do crime dá muito pano pra manga, a ponto de ter sido foco de diversos artigos científicos, como o meu, o do Amaro Braga, da Valéria Yida, entre tantos. É certo que com o filme estreado o assunto volte a se destacar, proveitosamente. Claro que meu texto foi mais um ensaio, eu nem me arrogo de tentar falar como psicólogo ou psiquiatra para ter conclusões mais sólidas do assunto, por isso a participação de Indianara foi tão vital. O que eu e os outros planejadores achamos importante é se pensar como a sociedade mitifica o doente mental e como esse fascínio que o Coringa exerce, por exemplo, pode romantizar a relação dele com a Arlequina, que eu não citei aqui por ser um tema bastante em voga. A raiz do problema, creio, está no Coringa!
      Cara, volte sempre!

      • Foi bem legal essa análise mesmo. E a questão da Arlequina é algo importante a ser questionado mesmo.
        Tudo de bom!

  • Stefano Barbosa

    Resposta: pq é um vilão carismático!!! Não consigo odiá-lo!!!!