Quando o filho da Mulher Maravilha veio ao Brasil!

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Calma, gente! É tudo uma gostosa brincadeira! Nos quadrinhos, nas diversas realidades em que a Mulher Maravilha, Diana, gerou descendentes, nenhum deles escapou para a nossa realidade. Porém, um exercício lúdico pode nos fazer viajar na história e, quem sabe, aprender alguma coisa no processo! Principalmente sobre Genealogia e sobre Onomástica! Eis meu intuito neste texto. Quem é, então, o tal filho da Mulher Maravilha? E o que ele tem a ver com o Brasil?

Na construção da ciência História, a Genealogia foi crucial para entender algumas etapas ou determinar eventos e períodos determinados. Quando estudamos Egito Antigo, por exemplo, parte de nossos conhecimentos sobre as etapas históricas e as convenções que construímos partem das chamadas Listas de Reis, que serviam por base de cruzamentos de dados para se entender os diversos momentos históricos do Egito faraônico. As listas de reis de Karnak e de Turin, por exemplo, foram vitais para a história do Reino Médio e a História da África. Uma maneira de entender um dado personagem histórico ou as motivações de seus feitos, é entendendo suas origens, os lugares culturais de onde vem e a importância de seu nome.

Diana, feita do Barro.

A Mulher Maravilha tem uma genealogia. Claramente ligada às amazonas e suas narrativas míticas (como tratei em texto aqui), e em sua primeira aparição nos quadrinhos, nos anos de 1940, ela nasceu do barro. O barro marcou sua genealogia através da magia, do mundo sobrenatural, inclusive lhe dando uma irmã, igualmente feita de barro, a Núbia, um barro mais escuro que fez a amazona negra (que eu tratei exclusivamente num texto aqui, lembra?).  Na década de 1980, George Perez, Len Wein e Greg Potter enriqueceram a mitologia e a genealogia da Mulher Maravilha, fazendo com que as amazonas fossem reencarnações de almas de mulheres mortas pela violência de gênero. Inclusive justificando que a indomável vontade de gerar uma criança a partir do barro, era por que a alma que deu origem à Hipólita, rainha das amazonas e mãe de Diana (a Mulher Maravilha), havia sido morta ainda grávida. Com o tempo, o barro deixou lugar a outras interpretações, como a paternidade oculta de Hércules na narrativa de Mulher Maravilha Terra Um, lançada em 2016 pela editora Panini (Falei dele aqui, lembra? Não? Ora, basta clicar!) e a herança divina, sendo filha de Zeus no período conhecido como Novos 52, entre 2011 e 2015.

Mas a Mulher Maravilha não tem apenas uma genealogia pregressa, também foi geradora de uma prole. Vejamos exemplos. Hippolyta “Lyta” Trevor Hall nasceu na Terra-2, no período da cronologia da DC Comics chamado Pré-Crise, e aparece pela primeira vez na edição 300 de Wonder Woman, em fevereiro de 1983 (esta edição está inédita no Brasil). Com a reconfiguração da cronologia com a saga Crise nas Infinitas Terras, Lyta deixou de ser filha da princesa amazona, maternidade apagada da narrativa. Furia, como ficou conhecida, seguiu no universo da editora, mas com outra origem. No pós-Crise, talvez quem melhor ocupou essa posição de tutela foi Donna Troy, a super-heroína Moça Maravilha. Surgida em 1965 na revista The Brave and The Bold de número 60 (no Brasil foi na revista Turma Titã número 32 em junho de 1971) como Moça Maravilha, ela seguiu a tradição dos parceiros mirins, ou sidekicks, como Robin, Supermoça e Ricardito.

Hyperman: filho de Mulher Maravilha e Super-homem!

Mas na lista de herdeiros do sangue das amazonas, temos o filho de Diana com o Super-homem. Hyperman apareceu pela primeira vez na minissérie The Kingdom, originalmente em duas parte no começo de 1999. Essa história saiu completa na edição de número 7 da revista Superman (série premium), pela editora Abril em fevereiro de 2001. Com roteiro de Mark Waid, o filho dos dois super-heróis, Jonathan Kent, vem da Terra-22, que na época abrigava o universo ficcional originado da série Reino do Amanhã. Mais recentemente, o autor Frank Miller, em parceria com Brian Azarello, dá continuidade ao universo de Cavaleiro das Trevas (a chamada Terra-31), em seu terceiro volume (Ainda em vigor neste ano de 2017, pela editora Panini), reintroduzindo Jonathan como  segundo filho do casal Ka-El (Super-homem) e Diana (Mulher Maravilha). A filha mais velha do casal, Lara Kent (Supergirl) faz parte do elenco, tendo aparecido pela primeira vez no segundo volume, em 2002 (publicada no Brasil no mesmo ano, pela editora Abril).

Ok, já passamos uma longa herança que envolve a Mulher Maravilha, seus pais (e sua mãe) e suas filhas e filhos. Mas onde é que tem Brasil nisso tudo? É aqui que deixamos as terras da Genealogia (ao menos da ficção) e entramos nas cercanias da Onomástica! Neste campo, igualmente auxiliar para diversas áreas de conhecimentos, os estudos dos nomes conseguem fornecer caminhos a se conhecer a História. Mais que isso, os específicos estudos dos nomes de pessoas, a Antroponímia, investiga as mudanças léxicas sobre os nomes para compreender as mudanças sociais que interferiram na própria Genealogia. Por exemplo, os Cristãos-Novos foram os judeus e muçulmanos que, durante a Idade Média, principalmente entre os séculos XV e XVI, mudaram sua cultura religiosa (em alguns casos as mantiveram em práticas secretas ou adequadas à nova realidade impositiva religiosa) e seus sobrenomes pela violenta repressão e perseguição na península Ibérica.

Ainda dentro dos estudos de Antroponímia, os Homônimos, nomes de mesma pronúncia e grafia, fazem com que pessoas possuam nomes semelhantes a outras, gerando confusões diversas. Nos divertimos com pais e mães que nomearam seus filhos em homenagens às celebridades históricas, mas quando os indivíduos de mesmo nome e sobrenome são contemporâneos, os problemas podem ser muito mais sérios, principalmente se envolverem em processos jurídicos. Ainda que se possa fazer uso de outros registros, como CPF ou RG, muitas pessoas escolhem mudar seus próprios nomes, uma demorada escolha jurídica. Mas, voltando aos homônimos que estão temporalmente distantes, eis que um curioso documento registra a vinda de um “filho” da “Mulher Maravilha” para as terras brasileiras!

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Inusitado documento! Em destaque o homônimo de nossa super-heroína no nome da mãe do imigrante italiano!

Trata-se de Vittorio Piccinini, que deixou as terras milanesas para tentar a vida além mar, Brasil, no período conhecido como República Nova. O imigrante italiano chegou na cidade do Rio de janeiro em 1948, dois anos depois de promulgada a nova Constituição. Ainda era desejada a imigração de italianos, que no século XIX era apoiada por uma política social e racial de se valorizar o camponês branco e católico, mas que no comecinho do século XX ganhou dificuldades do Estado Italiano com o Decreto Prinetti, que combateu diretamente um dentre tantos mecanismos exploratórios de empresários brasileiros sobre tal mão de obra. Nos anos 40, Vittorio encontrou um cenário menos hostil, e certamente que a já enraizada comunidade italiana no Brasil, que deixaram marcas em bairros e em cidades inteiras, era um porto seguro. Mas Vittorio não tem nome semelhante a nenhum super-herói dos anos 40, mas, sim, a sua mãe: Diana Principe!

Como é possível ver no registro histórico de seu Cartão de Imigrante, no Arquivo Nacional da cidade do Rio de Janeiro. No documento, acessível aqui no acervo digital do FamilySearch (dá uma olhada aqui!), podemos ver o curioso homônimo (com, claro, suas devidas adequações de tradução entre “Príncipe” e “Prince”) que faz com que essa aparente ilustre desconhecida (desconhecidos, mas não menos importantes para a genealogia de sua família) nos sirva de ponto de encontro de diversos conhecimentos: Genealogia, Onomástica, Antroponímia, Homônimo… Quiçá, História! Diana Principe não foi uma homenagem à super-heroína, caso alguns imaginem. Se Vittorio tem seu registro de nascimento, no cartão, datado em 13 de janeiro de 1914, fica óbvio que a sua genitora já estava na idade madura décadas antes da princesa das amazonas estrear nas páginas dos quadrinhos! Vamos apenas dar providência para a coincidência e nos divertirmos com essa viagem!

Por favor, não me apedrejem! Não condenem meu malandro jogo de caminhos que levei para tornar didático um exercício de conhecimento tendo na Mulher Maravilha um chamariz! Quando fiz a pesquisa, pensei muito mais na sua oportuna utilidade nos meios do entretenimento, quem sabe oferecendo um pouco do sabor da investigação histórica no processo. Durante a feitura do meu trabalho dissertativo sobre a Mulher Maravilha (nos últimos dois anos), me deparei com essas informações e achei que elas poderiam ser bem aplicadas aqui no nosso querido espaço digital. Que todo esse caminho com essa Mulher Maravilha Italiana nos seja útil para compartilhar saberes, dentro da sala de aula… ou em um Plano Infalível!

Ver mais:

DEL PRIORE, Mary; VENANCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil. Editora Critica, São Paulo, 2016.

ON GRANNY´S TRAIL. Wonder Woman´s (other) Secret Life. Junho 2017. Disponível em: https://ongrannystrail.com/category/fairy-tale-genealogy/.

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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