Quem Tem Medo de Hellboy?

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Hellboy é fruto de um daqueles momentos onde a oportunidade surge despretensiosamente. Na sua história há muito sobre antifascismo, ocultismo e literatura gótica. O seu criador, Mike Mignola, longe de ter em mãos um projeto ricamente elaborado, tinha, em 1991, um desenho, ilustrando o material de divulgação da Great Salt Lake Comic Convention. Uma medonha figura, bem no estilo inegável de Mignola, com chifres, rabo, asa e feições de casca-grossa, com uma placa sobre o abdômen com o nome: “Hellboy”. Bem recebido pelo público, em 1993, na edição de número 2 da revista San Diego Comic-Con Comics, lançada pela editora Dark Horse para o evento homônimo, Hellboy já trazia diversos elementos que fazem-no reconhecível. Está lá, “o maior detetive sobrenatural do mundo”, publicado aqui no primeiro volume de Hellboy – Biblioteca Histórica, pela editora Mythos, em maio de 2008.

Hellboy – capeta gente boa, mas casca-grossa!

Ganhador de prêmios como Eisner e Eagle Awards, Hellboy migrou para as telas grandes em 2004 e 2008. Em ambas as ocasiões sob direção de Guilherme Del Toro, com a atuação icônica de Ron Pearlman. Talvez seja onde ficou mais famoso. As suas narrativas originais, nos quadrinhos, desfrutam de um mundo sobrenatural bastante realista, não por conta de monstros, demônio e feras, mas por que tratam de diversas influências assombrosas do nosso mundo real. O mundo de Hellboy é um reflexo do que temos de mais assustador quando o assunto é a sobrenaturalidade, já que os cenários e os motes, nos quadrinhos de Hellboy, são oriundos de crenças e narrativas singulares de nossa realidade. Para enriquecer ainda mais esse visual, Mignola é um mestre na relação luz e sombra, carregando Hellboy de um expressionismo perfeito para a narrativa de terror. Como em nosso mundo (ou pelo menos como alguns assim acreditam), existe um ambiente sobrenatural em constante interferência, com espíritos errantes, licantropos, vampiros, muitos monstros que persistem em existir e Hellboy, como membro do Bureau de Pesquisa e Defesa Paranormal, é o cara certo para o trabalho.

Rasputin, beato da loucura.

O leitor que resolver acompanhar as narrativas em Hellboy irá se deparar com muitas influências. As religiões de um modo geral e o folclore, principalmente o europeu, são estruturas bastante presentes em Hellboy. Ora, essa relação parece óbvia, para um protagonista que é um demônio vindo do inferno!  No seu mito de origem, Hellboy é trazido da dimensão infernal pelo mago ocultista Grigori Rasputin, o mesmo profético curandeiro paranormal que exerceu bastante poder e influência sobre a família do Czar Nicolau II. Entre o final do século XIX e início do século XX, o mundo europeu ficou fascinado com o movimento ocultista que fazia do oriente e do passado humano suas mais enebriantes seivas. Nomes como Edgar Cayce (lembra que falei dele sobre o Egito Antigo?), Aleister CrowleyHelena Petrovna Blavatskaya (ou madame Blavatsky) são emblemáticos para entender essa onda ocultista moderna. Foi uma reação ao cientificismo positivista que valorizava por demasia a materialidade e o possível de ser avaliado por métodos. Neste momento houve uma grande explosão esotérica, com seitas secretas e irmandades de estudiosos que tendiam para uma pseudo-ciência.

A narrativa em Hellboy está carregada dos traços e elementos da chamada Tradição Esotérica Ocidental. Ao usar um amuleto ou fazer uma dada liturgia com seres do sobrenatural, Hellboy invoca esse conhecimento oculto baseado em saberes místicos. O detetive demoníaco confronta dragões e fadas, precisando se valer muito mais do que apenas sua força física, com o auxílio de amuletos e talismãs. Ha menções aos Ragnarok, o fim do mundo para os povos escandinavos, além de mitos arthurianos e fábulas com bruxas, como a presença da Baba Yaga nas histórias em quadrinhos de Hellboy. O mundo pessimista de Hellboy, além dessa carga de sobrenaturalidade, também é alimentado de um latente pessimismo que habita sua origem infernal e a mão direita grande e pesada que ele carrega como uma cruz. Hellboy enamora com o horror gótico, através da depreciação humana e da tragédia através do próprio sobrenatural. A literatura dos séculos XVIII e XIX, com escritores como Ann Recliffe e Edgar Allan Poe, está no DNA narrativo de Hellboy. Seu tipo sanguíneo, entretanto, é lovecraftiano.

Baba Yaga montada num javali e enfrentando um crocodilo, século XVII.

De sua origem ao seu derradeiro fim, Hellboy é uma história de homenagem ao horror de Howard Phillips Lovecraft. O escritor estadunidense marcou a literatura de terror do começo do século XX, amalgamando elementos do ocultismo fantástico com a ficção científica do desconhecido cósmico e dimensional.  Ogdru Jahad, entidade extradimensional formada por sete deuses caóticos, com a voracidade de destruição da realidade, é uma reverência assumida ao mito de Cthulhu de Lovercraft.  Aberrações bestiais com textura visceral-orgânica estão em ambos os cenários narrativos, além de outros inimigos bastante palpáveis e humanos (demasiadamente humanos). Mignola assume, também, influência da literatura pulp estadunidense da primeira metade do século XX. O ocultismo, o sobrenatural e a ficção científica de Hellboy são similares às essas mesmas caraterísticas em produções de folhetins inspirados em Isaac Isamov, H. G. Wells, dentre outros. Pulps como Doctor Savage, Journey Into Mistery e Weird Thrillers são fontes de inspirações para a construção de Hellboy. Mas diante de tantos monstros e criaturas nascidas do medo e da criatividade humana, o protagonista tem por antagonista um inimigo político, histórico e humano: o nazismo.

Himmler, o facínora.

Não há muito o que se explicar para que Hellboy troque sopapos com nazistas em diversas histórias. O regime fascista de extrema direita também foi influenciado por um mundo de ocultismo em sua desastrosa busca por poder e por justificativas raciais de superioridade. Quando trouxe Hellboy ainda infante para este mundo, Rasputin estava a serviço do Terceiro Reich. Longe da ficção, a Alemanha Nazista engendrou campanhas que tinham por base o ocultismo, na pretensão de acúmulo de poder através de meios sobrenaturais. O comandante e lider da SS, Heirinch Himmler, levou a concepção de “raça pura” de Hitler para o nível de fanatismo, tendo criado uma seita reconstrucionista pagã em adoração aos deuses nórdicos dentro da própria SS. Inclusive, a SSSchutzstaffel (algo como “tropa de proteção”), tem por insignia um duplo “S” ao estilo da runa Armanen correspondente ao sol. Himmler ainda criou, em 1935, a Ahnernerbe Forschungs und Lehrgemeinschaft ou apenas Ahnernerbe (Comunidade para a Investigação e Ensino sobre a Herança Ancestral) que chegou a ir em expedição ao Tibet em busca das origens da “raça ariana”. Mesmo que apareça rapidamente como citação nas HQs de Hellboy, Himmler é a base de um arquétipo de nazista a ser confrontado… inclusive por Hellboy!

O medo, para nós, é algo ainda não superado, algo sempre latente com as mudanças em nossa volta. Ainda que o objetivo fundamental das histórias em quadrinhos de Hellboy não seja figurar seu protagonista e suas narrativas no terror, já que há uma carga de aventura e ficção, é inegável suas influências e seu lugar. Se há uma história a ser contada, além do óbvio em Hellboy, é da construção de nosso horror-terror moderno, os medos que constroem e controlam os seres humanos. Uma história mensurável e possível de ser criticamente discutida sobre a relação contemporânea com o medo em nossas sociedades. Talvez muita gente ao ler Hellboy não tenha medo (ou pelo menos não assuma), mas é certo que as fontes de inspirações de Hellboy, tão carregadas de uma possível verdade, nos façam arrepiar ainda que momentaneamente. Podemos dizer, porém, que os nazistas podem ter, sim, muito medo de Hellboy!

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Ana Lúcia Merege

    Texto excelente! Você é um ótimo pesquisador. Adorei esse mergulho.

    • Savio Roz

      Obrigado, Ana! Adoro fazer essas viagens investigativas! Nos mostram muito de nossa história através de permanências imaginárias! A fantasia é sempre fruto de uma realidade!