Reimaginando as Raízes da Mulher Maravilha

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Em dezembro de 2016 foi lançado o encadernado Mulher Maravilha: Terra Um, pela editora Panini com uma origem bem autoral, com o roteiro de Grant Morrison e a arte de Yanick Paquette. É parte de um projeto que a DC Comics começou no final de 2009, mostrando possíveis origens para o universo e seus mais importantes personagens. Depois de publicarem Superman: Terra Um (roteiro de J. Michael Straczynski e arte de Shane Davis) e Batman: Terra Um (roteiro de Geoff Johns e arte de Gary Frank), chegou a vez de mostrarem uma audaciosa origem para a princesa amazona.

Capa da edição brasileira

O autor, Morrison, é um inglês que causa estardalhaços na indústria de entretenimento dos quadrinhos, principalmente por conta de discursos polêmicos. Sua carreira se fez destacar a partir de seu trabalho em Homem Animal. O personagem é de 1965, criado por Dave Wood e Carmine Infantino, atuou nas páginas da revista Strange Adventures (sua primeira aparição saiu, aqui no Brasil, na edição número 100 de Superman, em agosto de 1972). Mas foi nesta série mensal iniciada em 1988 (saiu no brasil também em 1988 na revista mensal DC 2000 e recentemente em três volumes encadernados pela Panini), que o autor pôde falar de ecologia, ativismo pró-animal, vegetarianismo e combate ao uso de animais em testes farmacológicos e laboratoriais. Já era um escritor renomado quando assumiu os roteiros de Asilo Arkham (originalmente em 1989, saiu no Brasil primeiro em 1990 pela editora Abril e mais recente numa encadernação luxuosa pela editora Panini) e Os Invisíveis (por aqui saiu inicialmente pela editora Magnum em 1998, e recentemente em encadernados pela editora Panini).

Este roteirista, amado e odiado talvez nas mesmas proporções, recebeu a tarefa de produzir essa edição especial com uma origem pouco convencional da Mulher Maravilha. Como em outros trabalhos, Morrison buscou contemplar uma pesquisa sobre a personagem e como adequar seus traços originais com esta nova visão. E o fez. Morrison foi atrás das primeiras edições da Mulher Maravilha, sob autoria de seu criador, William Moulton Marston. O psiquiatra criador da personagem escreveu seus roteiros entre 1941 e 1947 e carregou as narrativas com discursos favoráveis às mulheres e até mesmo sugeriu sua natural superioridade. Marston criou a Mulher Maravilha como um projeto pedagógico de valorização das mulheres, mas não fez sozinho, pois recebeu incentivo e inspiração de diversas mulheres do seu meio: a professora Alice Freeman Palmer, a sufragista Margaret Sanger, e as mulheres de seu convívio pessoal – Elizabeth Marston, Olive Byrne e Marjorie Huntley. Em minha dissertação a beira do término trato justamente dessas influências salutares destas mulheres na criação do produto de entretenimento. A Mulher Maravilha tem um pai e muitas mães.

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Steve Trevor vai aprender o que é “amor submisso”

Morrison bebeu da fonte e pode atualizar sem as amarras do criador original, renovando o imaginário feminista. Enquanto William precisou esconder as relações eróticas na ilha de mulheres, com o amor entre iguais naturalizado em comunidade helênica, Morrison recebeu a ajuda de Paquette para que as liberdades amorosas e sexuais fossem mais explicitamente sugeridas. O mito da Mulher Maravilha ancorado ao mito grego das amazonas, que me debrucei com mais afinco em artigo sobre Amazonas, Irmandade e Matriarcado (leia aqui!). A personagem principal, Diana, a Mulher Maravilha, consegue transmitir uma força singular, levemente distante do que costumeiramente é visto no cânone. Mas os detalhes mais básicos do mito original estão lá. Porém, o fascínio que a presença de um homem desperta em Diana de longe se percebe enquanto romântico. O jogo psicológico entre dominação e submissão, presente na vida íntima de Marston com a prática BDSM está na narrativa e pode angariar alguns sorrisos (ou não). Em algum momento, porém, tais usos das fontes torna-se óbvio e beiram a uma tola vaidade de autor em demonstrar seu então conhecimento.

Mas a delícia da narrativa está, também, em alguns detalhes pretensiosos. Ter um Steve Trevor (par romântico da Mulher Maravilha, assim como a Louis Lane é para o Superman) bem diferente do habitual: diferente do loiro belo, recatado e do lar, Morrison optou por fazer um homem negro e musculoso. Trevor vai se chocar com a relação BDSM proposta por Diana, corroborando com o conceito de “Love Biding” (amor acorrentado, uma alusão ao bondage) de Marjorie Huntley. Trazer de volta a Etta Candy, personagem cômica (mas não menos importante) de volta, chamada de Elizabeth (o mesmo nome da esposa de Marston) na narrativa de Morrison, foi uma grande sacada. Pode-se encontrar diversos elementos do mito original na nova narrativa, como o Raio Púrpura que concede reconstituição da saúde, a Núbia (lembra dela? A Mulher Maravilha negra! Leia aqui!), Morrison tece um claro conjunto de alegorias que remetem a uma história singular da Mulher Maravilha nos quadrinhos. Podemos, então, receber a origem da Mulher Maravilha de Morrison como uma carinhosa homenagem ao mito construído pelo criador, com suas particularidades.

Simone de Beauvoir

A relação feita por Marston de que a Mulher Maravilha enfrenta um mundo de problemas com o amor como solução permeia a nova visão de Morrison. Para Marston havia uma natural superioridade feminina, que justificaria a maternidade e a propensão para o amor, que ele tinha por teoria confirmada em suas experiências com o polígrafo (detector de mentiras), instrumento que ele fez parte na criação. Marston produziu estudos juntos a sua esposa, Elizabeth, sobre as mudanças na pressão sanguínea humana durante interrogatório e concluiu que mulheres tendem a mentir menos que os homens.  Mas essa hipótese não levou em consideração as diferenças de criações sobre os gêneros, como homens e mulheres são educados de formas diferentes, fazendo essa honestidade não algo natural, mas construído dentro de uma doutrina sexista de posturas, performances e valores. Algo compreendido por Simone de Beauvoir, que dentro da escola existencialista do começo do século passado faz crítica ao essencialismo e aponta a experiência como fundamental para a construção desigual dos gêneros.

O laço da verdade, instrumento usado pela Mulher Maravilha, é o polígrafo de Marston e traceja (em desenhos de Paquette) os cortes temporais na narrativa de Morrison. Ele, o laço, coloca em cheque a verdade nos discursos de homens e mulheres que o seguram ou por ele são amarrados, e nisso cria um divertido julgamento que envolve os personagens centrais da trama. Mulher Maravilha: Terra Um nem de longe surge como a melhor obra da personagem ou o melhor trabalho de Morrison, mas podemos definir como uma história em quadrinhos que dentro de diversos momentos nos possibilita a reflexão sobre feminismos, homens, mulheres e o quanto que essas questões estão intensamente presentes em nossa realidade (ainda). Divirta-se com a edição e nos traga seu feedback! Boa leitura!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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