Somos Robins, somos Black Bloc

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Histórias em quadrinhos são sintomas diretos de mudanças sociais, são termômetros comportamentais, isso nunca foi novidade. E é claro que tendências políticas sempre estiveram presentes em suas páginas, sejam retratadas de forma apologética ou depreciativa. Tenho acompanhado uma promissora narrativa do mainstream que me fez pensar sobre juventude, movimentos sociais e anarquismo.

war1Escrita por Lee Bermejo e lançada no ano passado, a série Nós Somos… Robin! narra a agremiação de jovens para lutar contra o crime em Gotham City. Acreditando ser um plano do próprio Batman, eles se intitulam Robins, e promovem ações táticas fazendo usos de suas potencialidades individuais a favor da comunidade. Não são super-heróis “profissionais”, são jovens “normais” que abraçaram a causa, atendenderam ao chamado. Nós Somos… Robin! está sendo publicada pela editora Panini na revista mensal A Sombra do Batman desde o número 45, de maio deste ano.

Jovens unidos sob o manto divinal do morcego, na memória de muitos, podem ser vistos no quinhão rentável Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, com Os Filhos do Batman. Na minissérie original de 1986,  os adolescentes que eram da gangue Mutantes mudam seus ideais quando se deparam com a força exemplar do Batman. Quando o caça-níquel Cavaleiro das Trevas 2 foi lançado, a ideia presente no desfecho da obra original foi, então reaproveitada. Lá estão os outrora adolescentes delinquentes sendo úteis à causa do morcego. Mas estes de longe se parecem com qualquer coisa anarquista, revolucionária, são praticamente uma milícia não autorizada.

seguidoresmorcegoNão é nenhuma novidade, também, dentro da mitologia da própria DC Comics ou mesmo do universo do Batman esse tipo de movimento. Em 1991 a série Batman: Legends of The Dark Knight número 21 (no Brasil: Um Conto de Batman: Devoção, minissérie em três partes lançada em 1993 pela editora Abril), com roteiro de Mike W. Barr, a HQ narra a formação de um grupo militante chamado Os Seguidores do Morcego que acaba perdendo o controle em suas ações de patrulha contra o crime e tornam-se uma ameaça até mesmo para o cruzado de capa. Com camisas com o ícone do morcego e boinas vermelhas, como os Panteras Negras e os Guardian Angels.

Um grupo de jovens mascarados, unidos em prol da proteção popular diante da ineficiência do poder público em garantir segurança e ordem. Nos anos 60 os Panteras Negras garantiam a proteção de jovens negros diante da agressão policial gratuita. De movimento social tornaram-se partido político em 1966. Não protegiam suas identidades, mesmo que ganhassem nova: com roupas pretas, punho serrado levantado e o ícone de uma pantera. Uma longa trajetória que pesquisei para um texto acadêmico sobre o movimento social político e o super-herói negro de mesmo nome.

2cc4338d00000578-3250078-the_guardian_angels_an_anti_crime_vigilante_group_that_came_to_p-a-1_1443628426857Boinas, posturas destemidas e voluntariado para a proteção civil também são marcas registradas dos Guardian Angels. Surgidos em 1979 no bairro novaiorquino do Bronx, poderiam ser mais um grupo de vigilância de uma cidade tomada pela violência, mas suas boinas vermelhas e suas constantes presenças nos metrôs lhe garantiram mais popularidade. Como Organização Não Governamental, espalhou por diversos países como Japão, Nova Zelândia, África do Sul, entre outros, e seus membros são incentivados a assimilarem conhecimentos de primeiros socorros, legislação local e defesa pessoal. Mas longe desses ativistas, um olhar atento perceberá algumas semelhanças dos Robins da série em questão com os icônicos Black Bloc.

os-black-blocsOs Black Bloc são uma força de ação direta de origem anárquica, que entre práticas de confrontamento com a ordem e destruição de patrimônio privado (tendo a depredação como reação contra o capitalismo e a globalização e não mero interesse material no roubo), faz proteção de cidadãos em movimentos sociais. Por conta de seu “DNA” anarquista, não se configuram em grupo formal, mas de prática militante intensa, muitas vezes em confrontos diretos com a polícia no intuito de proteger pessoas em manifestações de grandes proporções. É um saber militante, e não miliciano, bastante presente nas manifestações urbanas do ocidente contemporâneo.

Como prática de autogestão, principalmente no que se refere a proteção ativa de seus membros contra a violência da autoridade, o Black Bloc tem suas raízes no movimento anarquista. Tem, também, seu histórico vinculado à cultura punk, com o Do It Yourself (Faça você mesmo), ainda que estes tenham em seus discursos e ações o apartidarismo. Os Black Bloc, ou Schwarzer Block, são assim chamados desde confrontos e legislações de sua proibição na Alemanha nos anos 80. São organismos antagônicos de regimes autoritários como o neonazismo e fascistas e surgem sempre que o Estado tende ao autoritarismo.

gallerycomics_1920x1080_20150826_wearerobin-cover3_-final_55cceeb07b2270-73291981Enquanto os Black Bloc surgem como uma tática de guerrilha urbana, os Robins da série surgem como um projeto, um plano (quiçá infalível). Não são adversário diretos do Estado, mas de focos criminosos que ameaçam a comunidade. Uma liderança (oculta nas primeiras edições), autodenominada O Ninho, guia suas ações em chamadas eventuais, mas os diálogos entre os membros dessa subversiva equipe juvenil ocorrem através de redes sociais e software de troca rápida de mensagens. Esses novos meios dinâmicos de comunicação também são os mecanismos informativos e de planejamento dos Black Bloc.

Os Robins são jovens comuns, mas singulares. Há um mecânico de automóveis aprendiz, uma franzina nerd, um rapaz esportista, uma adolescente geek lutando contra a compulsão por doces, entre tantos outros, combatendo mendigos drogados, atentados a bomba, uma infinidades de problemas que lhes surgem. Lutam por paixão. A causa é mais que certa e acreditam na justiça. A morte de um membro abala alicerces, tão jovem perda causa comoções familiares e a velha máxima de que é cedo demais para morrer e que é inimaginável a dor dos pais ao perder um filho.

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Se há o que sintoniza esses dois grupos, o ficcional e o real, é a pretensão de proteção de pessoas durante ondas de violência. Arriscam suas vidas, de forma corajosa, para proteger aqueles mais vulneráveis à represália das forças detentoras de poderes (oficiais ou não). O protagonismo político militante, a partir da segunda metade do século XX, migrou de uma camada mais madura para uma camada mais jovial. Jovens de preto no Black Bloc e jovens coloridos nos Robins!

black-bloc-vs-policeMas as diferenças também existem além das cores, já que não há qualquer objetivo destrutivo contra os símbolos do capital pelos Robins. Não levantam bandeiras ideológicas contra o status quo econômico ou material, mesmo desafiando a ordem estabelecida (ou a falta dela). Muitos diriam que a presença de um líder lhes tiraria a carga anarquista, mas se essa liderança tem apelo funcional e não hierárquico, o que pode ser compreendido na trama, talvez ainda convenha tal tendência.

Purismo não nos cabem, já que muitos movimentos anarquistas se valem de simbolismos que são negados por anarquistas tradicionais, como a bandeira negra e o “A” emblemático. Tanto aos Black Bloc quanto aos Robins, o que importa, de fato, são seus objetivos de justiça social e suas vestes lhes garantem identidades estimulantes para isso. Exige-se coragem, e uma enorme quantidade de altruísmo para que a sua ação legitime-se.

Na edição de número 4 de Nós Somos… Robin! (publicada aqui em A Sombra do Batman 48, pela Panini) a personagem Riko, uma das Robins, está lendo o livro O Senhor das Moscas, de William Golding. A obra, publicada em 1954, trata da decadência política e moral que jovens e crianças experimentam a serem isolados numa ilha e forçados a lutar por suas sobrevivências. Suas alegorias alertam os perigos que a luta pelo poder e a desordem podem causar para uma comunidade. O perigo do autoritarismo está presente, fétido e cercado de zumbidos, como o “senhor das moscas” da obra. É preciso ter causa justa como guia para nossas identidades políticas ou seremos reflexos distorcidos das lutas que vestimos.

war2Identidades políticas de grupos são saudáveis para a vida em sociedade, mas é preciso que elas sejam mais que meras fantasias! As paixões podem nos alimentar bons ou maus sentimentos, sintonizando nossos valores com nossas práticas ou causando terríveis interferências entre o acreditar e o agir. Sejamos Panteras, Robins ou Black Bloc (ou nenhum deles, ou outras ideias), e que nossas práticas e ideais sejam por justiça social e o combates contra as opressões em suas diversas matizes, ou nossas vestes e bandeiras serão peças de  um rudimentar carnaval.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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