Star Trek repete nos quadrinhos o sucesso de seu novo universo

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Com 50 anos de existência, a franquia Star Trek, também conhecida no Brasil como Jornada nas Estrelas, coleciona feitos históricos no mundo do entretenimento. Desde a sua primeira exibição, em 8 de setembro de 1966, as aventuras da nave estelar Enterprise restabeleceram novos paradigmas para a ficção cientifica, ajudando a popularizar o gênero para o mercado audiovisual. Além disso, a sua mensagem de um mundo pacífico, que venceu as diferenças e se tornou um paraíso tecnológico, também serviu como influência para grande parte da evolução cientifica ocorrida na segunda metade do século XX.

Entretanto, junto ao seu papel marcante na TV e nos cinemas, a obra criada por Gene Roddenberry também estabeleceu uma poderosa integração entre outros produtos culturais, sendo um dos primeiros a fundamentar o conceito de Universo Expandido. E dentre os 49 anos quase ininterruptos de publicações – que já passaram por editoras como Marvel, DC, Malibu e até a Tokyopop – o mais recente destaque vai para a atual linha publicada pela IDW, importante capitulo para a nova cronologia estabelecida por J. J. Abrams desde o filme de 2009.

Novo Universo, Nova HQ

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Detentora dos direitos desde 2006, a IDW iniciou as suas publicações de Star Trek com algumas minisséries focadas em temas distintos da franquia. Com isso, foram criadas histórias não somente das tripulações da Série Original ou da Nova Geração, como também sobre as raças alienígenas deste universo (Star Trek: Alien Spotlight) e até uma quadrinização dos livros Star Trek: New Frontier, série literária a parte do material audiovisual de Jornada nas Estrelas. Apesar da regularidade em lançamentos, um título mensal só voltou a ser realidade depois da reestruturação ocorrida pelo diretor e produtor J.J. Abrams, que a partir de seu filme (Star Trek, 2009) criou uma nova cronologia para as aventuras de Kirk, Spock e cia.

Nesta produção, que estabelece uma nova realidade e deixa de lado tudo que foi produzido anteriormente, cria-se um novo paradigma para o universo trekker. Respeitando os velhos fãs, já que não desvalidava o que foi criado nos 43 anos anteriores, Jornada nas Estrelas voltava ao zero, respeitando os mesmos valores com uma nova abordagem e adquirindo novos adeptos para acompanhar a história da USS Enterprise em sua missão de exploração espacial. E na busca pela revitalização deste produto, os quadrinhos ganharam uma grande importância para legitimar este novo projeto.

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História de Star Trek nos Quadrinhos

Desde 1967, um ano após a sua primeira exibição, o universo de Gene Roddenberry teve nas HQs um cenário rico de conceitos e que nem sempre seguiam a cronologia original. Pela Golden Key, sua primeira editora, as histórias tiveram como artistas alguns nomes internacionais, como o italiano Alberto Giolitti, que apesar de apresentarem um traço detalhado e realista, se baseavam apenas em fotografias da série para o seu processo de criação. Com isso, muitos personagens e a própria Enterprise não eram fidedignos a sua versão original, além de personagens e conceitos existirem apenas nas páginas da publicação.

Mais tarde, já em propriedade da Marvel e da DC, Star Trek passou a ser rigorosamente controlado pela Paramount para seguir os conceitos estabelecidos em séries e filmes. Profissionais como George Pérez, John Byrne, Marv Wolfman, Curt Swan e Gil Kane foram alguns que passaram por essas HQs. Pela DC, a série de revistas ganhou a sua enciclopédia gráfica (Who’s Who Star Trek) e a primeira adaptação de Star Trek: A Nova Geração.

Na década de 90, a Malibu Comics conseguiu os direitos para adaptar Star Trek: Deep Space Nine enquanto a Detective Comics seguia com os títulos anteriores. No final da década, a Marvel se associa novamente a Paramount e adquire todos os produtos da marca, incluindo Star Trek: Voyager e Star Trek: Starfleet Academy.

Na passagem do século, Wildstorm e Tokyopop adquirem a franquia por um curto período até o recente contrato da IDW, editora que detém os atuais direitos do universo trekker.

Com a supervisão da equipe criativa da película, capitaneada pelo produtor e roteirista Roberto Orci, foi lançada o prelúdio Star Trek: Countdown, minissérie em quatro edições de autoria de Mike Johnson e Tim Jones. Funcionando como uma ponte entre a antiga e a nova cronologia, a obra já demonstrava a crescente demanda dos fãs por mais informações desta nova empreitada. Anthony Pascale, do site trekmovie.com, ficava nos perguntando de que forma poderíamos utilizar os personagens da Nova Geração, como uma espécie de passagem de bastão, o que nos levou a criar esta história em quadrinhos”, afirmou Orci em entrevista ao site CBR. No processo de criação da história, os escritores da editora criaram um processo de consultoria que unificou as duas mídias e resultou em outra minissérie, Star Trek: Nero, e a série mensal, criada em 2011.

Adaptar universos de outras mídias para os quadrinhos é uma marca da IDW. Com produtos como Transformers, G.I. Joe, Caça-Fantasmas e Tartarugas Ninja, a empresa adquiriu uma significativa parcela do mercado da arte sequêncial norte-americana, valorizada pelos leitores por conta do trabalho de consulta e respeito ao cânone das diferentes mitologias, sem deixar de lado a construção de histórias autorais dentro destes parâmetros.

No caso de Jornada nas Estrelas, não foi diferente. Sabendo mesclar antigos conceitos da série clássica com os acontecimentos desta nova realidade, Mike Johnson conseguiu modernizar o título e estabelecer uma identidade única que vai além das obras cinematográficas, mesmo que ainda gire em torno delas. Exemplo disso acontece às vésperas do segundo filme, Star Trek: Além da Escuridão, no qual a série mensal e outro prequel (Star Trek: Countdown to Darkness), dão pistas dos acontecimentos da película sem deixar de lado um conjunto de arcos próprios que foram estabelecidos na arte sequêncial.

A dúvida sobre o cânone

Para quem acompanha a série em quadrinhos, percebe-se um tom mais dramático ao novo mundo de Jornada nas Estrelas.

Tratando das ramificações que aconteceram após Star Trek e Além da Escuridão, as histórias trazem um papel de maior protagonismo dos tripulantes da USS Enterprise em relação aos impérios rivais e a própria Frota Estelar, com repercussões grandiosas e resultados que muitas vezes surpreendem o leitor. Apesar disso, a obra consegue sobreviver abaixo dos filmes e se encaixa perfeitamente no que poderíamos chamar de cânone, obras consideradas genuínas dentro da cronologia principal (neste caso, os filmes do cinema). Então a questão: os quadrinhos são realmente parte do cânone?

“Não acho que eu seja a pessoa para decidir isso. Como você sabe, eu considero alguns dos livros, em minha mente, para ser canônico de um personagem. E dentre os filmes, alguns são possíveis candidatos para cânone, até que algum outro filme vem e faz com que aquilo seja impossível. Essa é a minha opinião pessoal, por isso não estou declarando se os quadrinhos são cânone”, afirmou Orci em entrevista ao trekmovie.com, na qual também afirmou que uma decisão real sobre o caso seria muito mais pela votação da equipe criativa em uma decisão posterior.

Apesar da “indecisão oficial”, os quadrinhos chegam aos 50 anos da franquia como um dos braços fortes do novo universo trekker. Mesmo com o fim da série mensal às vésperas do terceiro filme, Star Trek: Sem Fronteiras, o anúncio de uma nova obra sequêncial (Star Trek: Boldly Go), vem para mostrar que muita história ainda pode ser contada “aonde nenhum homem jamais esteve”.

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Publicações do Novo Universo Expandido de Star Trek

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  • Star Trek: Countdown (HQ, 2009)

Minissérie em quatro edições, a obra funciona como um prólogo ao filme de J. J. Abrams. Na história, passada após os acontecimentos de Star Trek: Nêmesis (película de 2002), o embaixador Spock e a tripulação da USS Enterprise-E (comandada pelo Capitão Data), tentam impedir a explosão da estrela que ameaça o planeta Romulus. Com o fracasso da investida, o vingativo Nero e sua tripulação de mineradores iniciam um plano de vingança que culmina nos fatos apresentados na obra cinematográfica do mesmo ano.

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  • Star Trek: The Official Motion Picture Adaptation (HQ, 2009)

A viagem no tempo do impiedoso Nero e de um envelhecido Spock mudam completamente o passado e criam uma nova realidade. Nela, a jovem tripulação da USS Enterprise precisa superar as suas diferenças para evitar a destruição da Federação dos Planetas Unidos. Em seis edições, a HQ é a quadrinização oficial do filme e adiciona alguns fatos que foram retirados do corte final. As versões de DVD e Blu-ray de Star Trek  (Filme, 2009) apresentam cenas deletadas que condizem com a história contada nesta obra.

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  • Star Trek: Nero (HQ, 2009)

Entre o incidente com a USS Kelvin até a chegada do velho Spock ao passado, o que aconteceu com Nero e a sua tripulação? Esta minissérie em quatro edições conta a história secreta da tripulação romulana durante os 20 anos da história contada no filme. Como base para o roteiro, os escritores Mike Johnson e Tim Jones utilizaram informações do script original, de Roberto Orci e Alex Kurtzman, e que foram descartadas do corte final. Assim como acontece com a quadrinização, as versões de DVD e Blu-ray de Star Trek (Filme, 2009) também apresentam cenas deletadas que condizem com a história contada neste arco.

  • Star Trek (HQ, 2011-2016)

Em 2011, teve início a série mensal do novo universo, também conhecido pelos fãs como Star Trek – Ongoing. A publicação enriquece a mitologia atual de Jornada nas Estrelas ao contar os fatos posteriores aos filmes e ainda adicionar histórias inéditas da USS Enterprise. Nas vinte primeiras edições, a equipe criativa traz releituras de episódios clássicos sobre a nova ótica desta cronologia. Com isso, alguns fatos marcantes com a tripulação original são reimaginados para esta equipe, sem deixar de lado novos personagens, algumas aventuras inéditas e uma instigante preparação para Star Trek: Além da Escuridão (Filme, 2013).

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Após a segunda película (que não ganhou quadrinização oficial), a série introduz um novo arco interligando os fatos contados no cinema para depois contar as histórias da tripulação em sua missão de exploração de cinco anos. Vale destacar que este é um dos momentos mais instigantes da revista, com ampla valorização dos personagens secundários e um maior número de tramas inéditas. Após 60 números e muitos contos marcantes, a revista é encerrada às vésperas de Star Trek: Sem Fronteiras (Filme, 2016) como parte da nova estratégia da editora para seguir as publicações da franquia.

PS: No Brasil, a Mythos Editora publicou em agosto de 2016 o encadernado Star Trek: Na Fronteira da Escuridão, onde aborda as edições #21 a #24 da revista mensal. Estas edições mostram eventos totalmente posteriores ao filme Star Trek: Além da Escuridão.

Uma ode a tripulação

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Assim como acontecem em outras obras ligadas ao Universo Expandido de uma determinada marca, as histórias em quadrinhos de Star Trek dão bastante visibilidade para os personagens coadjuvantes dos filmes em que são baseados. Em Star Trek Ongoing #13, por exemplo, o oficial Hendorff – o mesmo que briga com Kirk no primeiro filme e se torna membro da tripulação – narra uma história sobre a sorte dos “Camisas  Vermelhas“, em sobreviver durante as missões em planetas desconhecidos (sim, isso mesmo que você leu!).

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Já na edição #14, conhecemos um pouco da história do engenheiro Keenser, o parceiro alien do chefe de engenharia Scott. No arco “I Enterprise“, publicado nas edições #31 e #32, o enigmático 0718, que aparece brevemente no filme Além da Escuridão, tem a sua origem explicada. Além destes personagens, a série em quadrinhos também apresenta novos tripulantes como tenente Zahra e Kai, além do oficial Samuel Boma (Boma e Zahra são referências a personagens da série clássica).

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  • Star Trek: Countdown To Darkness (HQ, 2013)

Paralelo a revista mensal, a IDW publica uma minissérie de quatro edições que funciona como um prólogo ao filme Star Trek: Além da Escuridão. Na história, a visita da USS Enterprise ao planeta Phaedus revela um trama secreta que pode ocasionar uma guerra entre a Federação e o Império Klingon. Assim como na HQ regular, cresce a  suspeita de uma conspiração dentro da Frota Estelar.

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  • Star Trek: Khan (HQ, 2013)

Após os fatos ocorridos em Star Trek: Além da Escuridão, esta mini de quatro capítulos revela a história secreta do vilão Khan. Quem é o humano aprimorado? Como aconteceu a sua ascensão ao poder no final do século XX? E o mais “importante”: Por que a sua aparência não lembra em nada o Khan da série original? Uma obra que considera muitos fatos citados na antiga cronologia e que pretende resolver uma grande celeuma dos fãs mais tradicionais com o segundo filme de J.J. Abrams.

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  • Star Trek: Starfleet Academy (HQ, 2015)

Minissérie em cinco edições, Starfleet Academy retrata dois momentos distintos da academia da Frota Estelar: No passado, a vida dos personagens da USS Enterprise antes de sua graduacao. No presente, um novo grupo de estudantes em suas próprias aventuras em torno de uma competição entre escolas militares do futuro. Com mais liberdade poética e pouca preocupação canônica, esta obra é uma homenagem a antiga HQ de mesmo nome.

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  • Star Trek: Manifesty Destiny (HQ, 2016)

Os incidentes com o Império Klingon voltam a tona nesta minisserie em 4 edições, publicada antes do terceiro filme da franquia. Neste arco, um grupo de impiedosos alienígenas fazem um confronto de vida e morte com o Capitão Kirk e a tripulação da Enterprise. Vale destacar que em sua versão em quadrinhos, a nova realidade de Jornada nas Estrelas apresenta grandes tensões entre as três grandes forças da galáxia. Um fato curioso é que a IDW publicou a mini em uma versão escrita no idioma klingon.

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  • Star Trek: Boldly Go (HQ, 2016)

Após o terceiro filme, a IDW anuncia uma nova série mensal da franquia, com foco em novas aventuras na missão de cinco anos da USS Enterprise. Segundo a própria equipe criativa, a promessa é de ter uma grande trama que envolverá novos mundos e personagens completamente inéditos para a o universo de Jornada nas Estrelas.