Tá osso esse passado que parece presente (ou esse presente que parece passado)!

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Ultimamente eu tenho visto uma quantidade enorme de retrocessos, intelectuais e políticos, tomando os discursos no Brasil. As pessoas estão estúpidas e parece que a internet tem legitimado a ignorância, lhe dado a falsa coroa régia ratificadora da “opinião”. Não faltam argumentos de que parece que voltamos a um passado que deveria ter sido esquecido. Momentos que parecem tirados de uma narrativa medieval, posturas autoritárias dignas do estado de exceção, a política sendo navegada por canalhas diversos. Com tudo isso, minha lembrança foi até os idos de 1992, atrás de um peralta e sagaz cachorrinho.

cachorrinho10O Mouzar Benedito, eu tive o prazer de conhecer em evento de literatura na cidade baiana de Jequié, a Felisquié. Seu nome está ligado ao tabloide semanal O Pasquim, que foi objeto de pesquisa quando eu estava na graduação em História, ao tratar dos estranhamentos nas produções de Henfil. Trabalhou inclusive com Henfil e Quino para trazer, em 1982, pela editora Global, a personagem Mafalda. Foram cinco edições “widescreen” que rapidamente se esgotaram. Esse mineiro de Nova Resende, quase ao pé da Serra da Canastra, fincou raiz em São Paulo, mas nunca deixou de lado o apreço praticamente amoroso pelos “causos”, verídicos ou não, que alegram e enriquecem nossa cultura narrativa. Junto com Ohi, parceiro de aventuras, fundou a Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), com site próprio, que mantém viva a memória mítica do Brasil contra a invasão cultural estrangeira, segundo suas palavras. Em 2012 lançou uma coletânea, pela editora Liz, com seis livros com o título de Mitologia Brasílica, sobre o Saci, Boitatá, Caipora, Curupira, Iara, Lobisomem e Cuca.cachorrinho1

cachorrinho9Mas seu cachorrinho, diante de tudo, continua sendo uma produção atemporal, pela infelicidade das permanências dos problemas que criticava. Uma figura de seta, pontudo do rabo empinado, sem precisar dar sequer uma única mordida, ladrou sobre corrupção, sobre eleições, sobre burocracia, sobre reforma agrária e sobre salário mínimo. Roendo um osso político duro de roer, o cachorrinho continua atualíssimo. Brasileiro nato, não conquistou (ainda) o prestígio de uma Mafalda (muito mais localizada no espaço e no tempo), mas ainda assombra pela quantidade de críticas vigentes, por discursos ainda tão atuais. Não há nada que eu escreva que funcione melhor do que simplesmente ler seus adágios. Parece que fala justamente de nosso atual momento político, recheado de posturas retrógradas.

Mouzar continua atual muito além do cachorrinho. Ainda um grande apreciador de contos, “causos” e provérbios, de onde faz uso constante nos seus textos. Escreve, atualmente, para o site da editora Boitempo sobre a coletânea de quadrinhos sobre diversos temas pertinentes em nossa sociedade, principalmente no contexto político (acompanhe a produção do Mouzar aqui!). O outrora osso que o cachorrinho rosnou a roer, hoje ainda é alvo dos tiros mordazes do Mouzar em sua coluna quinzenal. Mas isso nos surge como uma infelicidade, um sintoma das tentativas de ressurreições de velhos e caquéticos monstros, como a censura, o autoritarismo, reacionários e moralistas. Que agora sejamos ainda mais empenhados em enterrar esses assombrosos mortos no seu derradeiro passado.

Não convém pensar numa teoria da história cíclica, seria leviano, e a complexabilidade social no tempo é tamanha que tal postura é simplista demais. Tola. Longe da incerteza de um determinismo histórico baseado em repetições, o que temos, de fato, são revolucionários e reacionários, disputando poder, mudando conforme as próprias singularidades dos cenários. Os discursos, semelhantes, são frutos não de uma ciclicidade, mas de concepções rasas e binárias, reapropriações de imagens de um passado. O que o cachinho nos diz é que não são os tempos que repetem os mesmos movimentos, mas são os indivíduos que resistem em mudar, persistem em errar, insistem no desastre. São agentes históricos que, reagindo pela ignorância e medo, querem “fazer girar para trás a roda da história” (MARX; ENGELS, 2015, p.49).

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Referência Bibliográfica:

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. Coleção Marx & Engels. Editora Boitempo, 2015.

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • Stefano Barbosa

    Infelizmente o Brasil vai continuar ruim em virtude da imensa massa de lobotomizados.