Turistando na África das Histórias em Quadrinhos

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África. Este continente de dimensões colossais e diversidades naturais e culturais já serviu de cenário para tantas histórias, reais ou fictícias que seu ocultamento é um crime humano. Apesar da lei 10.639 já ter completado 13 anos, a lentos passos pensamos sobre a África e sobre as reminiscências de sua interferência do mundo. Perigosamente, são feitas interpretações estereotipadas sobre o continente.

E isso é bastante usual nas histórias em quadrinhos, onde a África é um cenário geralmente tratado pelo exótico e pelo perigo. Assim é a África de Tarzan (lembra do texto sobre Tarzan? Não leu? Ora, leia aqui!), por exemplo, com animais selvagens e tribos rudimentares, além de ser um cenário bastante reduzido. A grandiosidade africana torna-se um palco pequeno para as rápidas atuações de seus elementos, como acontece nos outros tarzanides, como Sheena e até mesmo o Lion Man (Sobre esse tarzanide negro, da revista All-Negro Comics, fiz um texto dedicado, aqui!).

Mas o foco aqui é sobre as nações fictícias africanas das histórias em quadrinhos de super-heróis. Ainda que sejam continuidades das maneiras que a literatura de aventura do século XIX e as histórias em quadrinhos anteriores dos super-tipos fizeram, os países, nações e cidades, nos quadrinhos de super-heróis, foram além na elaboração de ideias pitorescas sobre a África. Então façamos um exercício turístico nesse mundo imaginário!


WAKANDA

Bandeira Atual de Wakanda

Wakanda é a mais poderosa nação africana no universo Marvel! Liderada pelo super-herói Pantera Negra, ela surge na edição Fantastic Four de número 52, em julho de 1966 (Aqui no Brasil saiu na edição de número 66 da revista Homem-Aranha, em setembro de 1974 e mais recentemente na edição Pantera Negra da editora Salvat agora em 2016). Esse reino fechado, xenófobo, com edificações colossais e ultratecnológicas sendo protegidas por homens seminus com lanças de madeira e escudos de vime tem destaque no universo Marvel. Recentemente esses guerreiros acrescentaram tecnologias em suas vestimentas e armas e houveram significativas mudanças sociais e políticas, ou pelos menos um trato menos pejorativo.

Localização de Wakanda, cercada de pequenas nações

Wakanda por muito tempo esteve geograficamente confusa: nas histórias se viam savanas, florestas, lagos, desertos, a África é reduzida em seu pequeno endereço. Somente mais recentemente ela tem uma inexata localização: Num momento acima da Tanzânia, noutro nas proximidades da Somália. Em sua vizinhança estão sociedades menores, agressivas, que estão sempre em conflito com Wakanda, como são os casos dos reinos de Canaan, Ghudaza, Rudyarda (opa, lembra que o nome do autor de O Livro da Selva se chama Joseph Rudyard Kipling?) e a República Popular de Burunda. A não ser que você seja esperado, não tente ir por conta própria para Wakanda!

Palácio Real de Wakanda

KAHNDAQ

Bandeira oficial de Kahndaq

Kahndaq, da DC Comics, é a prova máxima que as pessoas confundem o norte da África com o Oriente Médio. Em diversos lugares esse Estado Despótico é generalizado como mais um lugar de tirania da antiga crescente fértil, mas na verdade essa confusão ocorre justamente por causa da falta de limites territoriais do mundo faraônico antigo, de onde é atribuída a sua herança cultural e social. Anteriormente controlado pelo ditador Asim Muhunnad, que perseguia minorias étnicas, é tomada a força pelo vilão Adão Negro.

Kahndaq e o casal real

Ela é cidade, mas é país, é uma confusão só, mas é certa a postura política reinante em Kahndaq. Na edição de número 56 da revista Justice Society of America, de 2004 (na minissérie Reino Sombrio, pela Panini em 2005), o vilão Adão Negro, inimigo do ex-Capitão Marvel da DC (atualmente Shazam! Tá pensando que direitos autorais, usos de nomes, não dão processos sérios?), que tem hereditariedade com o povo explorado de Kahndaq. Ela fica a nordeste do Egito ou no extremo oeste da Península do Sinai. Contrate uma agência de viagens de lá, para não se perder nas areias ou não se bater de frente com Adão Negro! O Egito ainda é um lugar melhor para turistas!

HALWAN & MURKATESH

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Bandeira oficial de Halwan

A Marvel também tem curiosos lugares no norte da África, que podem ser visitados num roteiro turístico só, se você sobreviver a isso! Danny Rand, o Punhos de Ferro, já salvou e enamorou a bela princesa de Halwan, a princesa Azir, na edição Marvel Premiere de número 24 em 1975 (aqui saiu em Heróis da TV, agosto de 1981 – melhor data do universo!). Halwan fica entre a Argélia e a Líbia, e disputa limites territoriais com o reino Murkatesh.

Halwan e Murkatesh

A vizinha Murkatesh foi cenário de uma aventura do Luke Cage. Surge como ambiente da trama em Power Man and Iron Fist número 82, junho de 1982 (inédita no Brasil). Luke enfrenta o Tigre Negro (Não aquele de Tex), líder islâmico que enfrenta a exploração de Halwan contra seu povo. No mapa ao lado dá pra perceber que Murkatesh é uma faixa de terra entre a Argélia e o Niger e faz fronteira leste com Halwan. Essas duas nações fictícias estão localizadas, em nosso mapa real, no parque nacional de Tassili n’Ajjer. Caso você não tenha os anos de treinamento de Rand ou a blindagem “pele de ébano” de Cage para enfrentar todos esses problemas sociopolíticos, recomendo que escolha Marrocos!

GORILLA CITY

A cidade-Estado de Gorilla City é velha conhecida dos leitores de Flash e Lanterna Verde. É neste lugar de macacos ultra-inteligentes e tecnologia muito superior à humana, que surge um dos maiores adversários dos super-heróis, o Gorilla Grodd, na edição de número 106 da revista The Flash, datada de maio de 1959 (inédita no Brasil, veja só!).  A DC Comics, na verdade, ressuscitou a cidade de uma história anterior, da revista Congo Bill número 6, de julho de 1955. A cidade vem de outro planeta, chamado Calor, e foi trazida (pasmem) de carona escondida no uniforme do Lanterna Verde para a terra.

Vista do centro de Gorilla City

Por segurança, e por perceber o que a raça humana faz com outros animais, a cidade-Estado preferiu se manter isolada e protegida. Apesar do Gorila Grodd ser um perverso malfeitor, Gorilla City não é um estado vilanesco, fez alianças com os super-heróis da Liga da Justiça através de seu sábio governante, Solovar. Infelizmente essa relação amistosa se encerra, quando Solovar é assassinado por ato terrorista do grupo radical Movimento de Supremacia Humana após discursar em assembleia da ONU. As portas se fecharam em Gorilla City. A República Democrática do Congo tem mais receptividade.

GENOSHA

Bandeira de Genosha sob Apartheid

Ilha costeira do oriente africano, nas imediações ao norte de Madagascar, Genosha é importante logradouro dos quadrinhos dos X-men. Essa nação insular está presente em muitas narrativas dos mutantes, principalmente nas suas primeiras aparições como cenário de conflito. Genosha surge em 1988, na revista Uncanny X-Men de número 235 (aqui nas bancas tupiniquins foi a edição 44 da revista X-men, pela editora Abril, em 1992), como uma clara alegoria sobre o Apartheid, pelo enredo do escritor Chris Claremont. O regime de segregação racial da África do Sul durou de 1948 a 1994, ou seja, dois anos depois do uso da crítica de Claremont nos quadrinhos dos mutantes.

Genosha antes do genocídio
Bandeira da Genosha sob controle de Magneto

Genosha prosperou enquanto nação através da segregação entre humanos e mutantes, fazendo uso do segundo grupo como escravos, já que como não eram juridicamente humanos, então seriam propriedade do Estado. Guerras, conflitos, mortes, as Nações Unidos buscam amenizar os problemas cedendo o país para o radical mutante Magneto, por um curto período de tempo. A cidade é devastada e controlada por mortos-vivos durante a saga E de Extinção, sendo renomeada pela mutante Selene Gallio para Necrosha. Na dúvida, fique em Madagascar mesmo!

Reed Richards analisando a África

Desconstruindo a África

A cidade é um personagem, não há dúvida! Ela tem uma vida própria que é a somatória das vidas de seus cidadãos. Países e nações, seus sistemas políticos e suas culturas, são reconhecíveis através de estereótipos que fazemos de acordo com a bagagem de conhecimentos que temos. Por isso, as nações africanas são tão minimizadas no entretenimento de estrangeiros. Cada um dos 55 países oficiais da África tem, dentro de si, uma miríade de grupos diferentes, de uma riqueza quase infinitesimal.

Que essa nossa viagem, divertida e assombrosa, seja útil para desconstruirmos essa África mais imaginada que respeitada. Para podermos dizer, apontando para a fantasia, o que NÃO é a África. Irmos além de reduções de que a África são natureza exótica e populações rudes e de “cultura rudimentar”, expressão depreciativa da antropologia neocolonial. Existem quadrinhos que buscaram uma pesquisa mais elaborada, recentemente, como é o caso de Batwing na República Democrática do Congo. Mas é pouco e precisamos conhecer os muitos lugares como são.

A pesquisa acima, bastante lúdica, foi iniciada em 2014 e apresentada no VII Encontro Estadual de História da ANPUH-BA, na cidade de Cachoeira. Na próxima quinta (dia 6 de outubro, às 14 horas no prédio B da Universidade Salgado de Oliveira – Niterói – RJ),  estarei comunicando-a no Primeiro Colóquio Internacional Movimentos, da Universidade Salgado de Oliveira em parceria com a UERJ, Universidade do Chile, entre outras, e sugerir seu uso nos estudos de história da África (e por que não geografia). Por enquanto, façamos aqui essas viagens em nossas cabeças para as tantas Áfricas a nossos alcances!

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

More Posts

  • Wakanda parece um misto de Egito com aquela visão da africa tribal que se tinha antigamente, no Tv Tropes, o país se enquadra como Advanced Ancient Acropolis.

    O júlio Shimamoto deu uma entrevista do Noryuki Sato disponível no sites Imigração Japonesa que poderia facilmente se enquadrar nessas visões da Africa:

    “Existe alguma vantagem em ser nissei para desenhar quadrinhos?
    Só quando for desenhar temas históricos e contemporâneos ligados ao Japão. A cultura herdada dos pais nos dá uma boa vantagem. Cansei de ver artistas não nikkeis brasileiros, americanos ou europeus cometerem erros colossais misturando costumes, vestimentas e arquiteturas chinesas, coreanas e mongóis como se fossem japonesas. Perdão, mas não consigo tocar no assunto sem rir por puro constrangimento. Fora isso não temos vantagem alguma. “

  • Bem legal o artigo!

    Um material interessantíssimo para as HQs seria criar cidades perdidas do Império Ashanti por exemplo, que continuaram existindo, ou então, que tinham tamanha tecnologia que se tornaram invisíveis, como Wakanda, para os europeus.

    Ou mesmo ligar essas cidades a esses impérios históricos seria muito interessante.

    O mais interessante dessas representações é exatamente uma forma de perceber o nosso próprio olhar sobre a África. Seria muito interessante ver como um leitor africano reage a estas representações.

    A sacada do Clearmont, o qual é genial em usar X-Men para discutir temas em torno do racismo, é exatamente usar personagens caucasianos, mas excluídos por suas mutações, ou seja, o exato motivo que gera admiração pelo leitor os leva a serem excluídos, buscado trazer empatia aos excluídos por parte dos leitores.

    Tudo de bom!

    • Savio Roz

      E contato com um amigo moçambicano, fiquei com a dimensão ampliada dessa visão estereotipada que vai além do entretenimento. Ele sempre conta anedotas ou casos de conflitos entre o imaginário dos estrangeiros sobre a sua realidade. Acusarmos sempre essas estereotipias pode ser um exercício de desconstrução das mesmas. Ao menos nisso eu acredito.
      No recente livro Quadrinhos & Educação (volume 3), escrevi uma análise e proposta de uso de Tintim na África em sala de aula, justamente na modalidade de desconstrução desse imaginário. Claro que aqui falamos bastante do mainstream (tirando o Quiof, que é um garimpeiro de mão cheia), mas certamente existem outras abordagens sobre a África.

      Abraços!

      • Acusá-las é uma boa forma. Só a desconstrução mesmo.

        O uso do Tintim é bem interessante para isso mesmo!

        Nisso, penso eu, é necessário ter como eixo de análise a produção mainstream, afinal, subvertê-la seja atração da desconstrução, seja através de pressão para mudança desta, é uma forma interessante de lidar com o status quo.

        Fica uma sugestão: abordar o imaginário dos quadrinhos em torno do Oriente Médio. Pois há deste as obras do Frank Miller, por exemplo, inclusive o Cavaleiro das Trevas 3, ao mesmo tempo em que quadrinistas tem colocado o ponto de vista de alguém de lá, seja na forma documental, que ainda apresenta um olhar de fora, como o John Sacco faz, seja o olhar de dentro, como em Persépolis a Marjane Strappi, aqui inclusive seu olhar sobre o ocidente .

        Tudo de bom!

  • Stefano Barbosa

    infelizmente todo pais região etc que são considerados “pobres” “atrasados” são alvos de preconceitos

    • Savio Roz

      Considera-los “pobre”, muitas vezes, já é preconceito. A RDC é um país riquíssimo não apenas ao referencial africano como ao sulamericano também.

  • Stefano Barbosa

    chamo a RD do Congo de Congo-Kinshasa ou pelo antigo nome Zaire, pra destinguir do outro Congo… o Brazzaville.

    • Savio Roz

      Mas os congoleses não são unânimes no uso do nome Zaire. Ainda mais por ter sido um período de autoritarismo muito forte.

      • Stefano Barbosa

        então melhor chamar de Congo Kinshasa mesmo

      • Stefano Barbosa

        outro caso similar é a Guiné!
        Guiné-Bissau, Guiné-Conacry e Guiné Equatorial.

  • Stefano Barbosa

    O palácio real de Wakanda me lembrou o QG dos Thundercats !

    • Savio Roz

      E a bandeira nova, então? Parece Thundercats da Jamaica!

      • Ou Hawkman, sempre achei parecido também.

  • Wakanda lembra um pouco a Núbia, mas com pouca ou nenhuma pesquisa