Um negro de AÇO

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Quando o Super-homem caiu morto, ficou a vacância em Metrópolis de seu cargo-função de protetor da cidade, alguém precisava vestir o “S”. Quatro candidatos foram construídos para tal campanha, mas um deles se destacava não apenas pelas singularidades, mas por ser o único que não afirmava ser o super-herói morto: John Henry Irons, o Homem de Aço. Na saga O Retorno do Super-homem, Irons era o único ser humano, guiado por uma fé inabalável na justiça. E é claro que também está no hall dos grandes super-heróis negros em qualquer lista de respeito.

9.21.15- ALEC BALDWIN, HILARIA BALDWIN © STEVE SANDS / NEW YORK NEWSWIRE C: 917 673 5739 E: stevesands@verizon.net NEW YORK, NY - 9.19, 2015 At the United Nations press conference to announce the winners of the UN Development Programme's Equator Prize
Mike Colter (Luke Cage)

Uma das coisas mais interessantes é ver elementos da cultura negra urbana e histórica estadunidense na série Luke Cage. Traços diversos, desde vestimentas e músicas, passando por gírias e ideias, fazendo até exposições de atletas, artistas, escritores negros. Luke Cage é um ode ao Blaxploitation, às inserções dos negros na Indústria Cultural nos anos 70, com referências diretas a filmes. Apesar do epicentro estar temporalmente localizado nos anos 70, a onda se manteve entre elevações eventuais, como as que ocorreram nas décadas seguintes, com filmes como O Ultimo Dragão, de 1985 (vai dizer que não lembra ou nunca ouviu falar de Bruce Leroy? “Quem é o mestre?”) e Jackie Brown, de 1997 (e por que não assumir que boa parte – senão toda – da cinematografia de Tarantino é influenciada pelo Blaxploitation, não é?).

Mas meu intuito não é falar do Luke, já existe bastante holofote para ele atualmente (o que é muito bom). Hoje vim falar de dois negros que fizeram parte de minha adolescência e que foram doses salutares de carinho e de combate a qualquer visão de desigualdade. As histórias em quadrinhos possuem o dom de nos fornecer rememorações com sentimentos sobre o momento em que estivemos em contato com algumas narrativas. A memória, essa coisa mais sensorial que racional, é justamente o fio condutor da história, por conta disso precisamos da história muito além dos limites do registro técnico. E nas ultimas semanas caí nos balanços confortáveis da memória, de quando acompanhei nas histórias em quadrinhos o surgimento do super-herói Aço e o quanto que isso estava intrinsecamente ligado a uma grande amizade no meu mundo real.

John Henry Irons, o Homem de Aço, estreou na edição de número 500 da revista The Adventures of Superman em 1993 (Saiu aqui na edição Super-homem: Além da Morte, pela editora Abril em 1994). Com o projeto em andamento da morte do Super-homem, as equipes, envolvidas em cada uma das revistas em que saiam narrativas do Super-homem e seus coadjuvantes, ficaram com as tarefas de criar substitutos ideais a partir da trama central. Dessa maneira, a excelentíssima escritora Louise Simonson e o artista John Bogdanove assumiram a narrativa do “Nigga de Aço”, um personagem que ascendeu rapidamente no período.

Aço é inspirado no mito estadunidense de John Henry, onde modernidade e perseverança disputaram “homem a máquina”. Era o negro John Henry e a máquina, uma broca a vapor, martelando com vigor e força a rocha dura com pregos de aço, um verdadeiro ludista. O Ludismo foi o movimento de trabalhadores contra as máquinas, reação de resistência da mão de obra humana contra a Revolução Industrial no começo do século XIX na Inglaterra. Historiadores ainda hoje não chegaram a um consenso sobre a verdadeira história por trás da lenda, o que é sabido é que John Henry foi um afro-americano livre que ganhou notoriedade ao vencer uma máquina a vapor e pereceu no final do processo. Ouçam as versões de Doc Watson e Harry Belofonte da balada de John Henry! existe até uma animação dele pela Disney, veja aqui!

Na série mensal do personagem, seu próprio título entre 1994 e 1998 (aqui saiu as revistas Super-homem e Superboy, ambas publicadas pela editora Abril, além de sua intensa participação na saga O retorno do Super-homem), sua história é contada com detalhes. Irons trabalhou nas Indústrias AmerTek, onde projetou o BG-60 (ou Toastmasters), uma mortal arma de energia, que estava sendo usada no massacre de civis em operações militares. Irons abandonou seu trabalho, forjou a própria morte e viajou para Metrópolis onde trabalhou na construção civil como operário para não levantar suspeitas. Foi justamente nos alicerces de um prédio em construção que Irons, durante uma luta do Super-homem contra uma ameaça monstruosa, salva a vida de um colega de trabalho e poe em risco a sua própria. O Super-homem salva Irons e lhe dá um propósito: após a morte de Kal-El, usar de suas habilidades físicas e intelecto para proteger Metrópolis.

Em sua carreira solo, voltou para  o gueto de da capital, Washington, e descobriu que as Toastmasters estão sendo vendidas para gangues locais. Enfrentou a vilã “gangsta” Coelha Branca, protegeu sua família (até onde pôde, já que seu sobrinho, Jamahl, se viu envolvido com o crime), em suas páginas estavam presentes as boas e más coisas que envolvem comunidades negras. Seu sucesso foi tamanho que a Warner licenciou a produção do filme de 1997, Aço (Steel: O Homem de Aço, assista o trailer aqui!), com Irons interpretado por Shaquille O´Neal, o famoso jogador de basquete do Los Angeles Lakers. O esporte estava presente nas narrativas do super-herói, uma espécie de orgulho em pano de fundo de um esporte que, como alguns, permite que os esforços e a dedicação falem mais alto que as posses materiais: basta uma cesta e uma bola e a diversão está garantida.

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O misterioso senhor Johnson fala sobre o mito de John Henry

Na época em que o Irons fez parte de meu lazer em quadrinhos, Claudio, meu amigo-irmão, era o parceiro de grandes aventuras e conhecimentos no condomínio em que morei. Acompanhamos a saga da morte e retorno do Super-homem, recebemos com entusiasmo a chegada de Aço nas páginas dos quadrinhos. Mais que dois arruaceiros mirins, sempre fomos duas cabeças fervilhando de curiosidades e inteligências, compartilhando livros, ideias, projetos audaciosos até na área de ornitologia (essa é a hora que meu amigo vai ler isso aqui e rir!). O basquete, porém, era domínio dele e de meu irmão, eu mal fui gandula do esporte! Hoje o meu amigo é um competente DJ e produtor musical (ah, eu tava lá quando a semente musical foi plantada!) e seu trabalho pode ser encontrado no SoundCloud.

acopretoSempre acreditei no poder da memória que exerce as histórias em quadrinhos (por isso sou historiador dos quadrinhos), e cada edição, cada revista, nos faz lembrar do momento em que tivemos cada primeiro contato. Não são memórias só das histórias, mas memórias de nossas vivências naqueles específicos momentos. Histórias em quadrinhos tem sabor de memória, sempre. E John Henry Irons é a memória impagável do meu irmão e amigo Claudio (o Claudio Lord Breu). Foi um personagem que o encantou (e encantou a mim) numa idade em que a ideia de representatividade nem existia, mas existia o sentimento de se ver representado. Que essa postagem sirva para trazer boas lembranças para os leitores que acompanharam esse período e que desperte a curiosidade de novos leitores que não desfrutaram dessas histórias a procurarem por elas! Boas memórias!

 

Savio Queiroz

Aprendeu história com quadrinhos e investiga quadrinhos com história. Ofício de Batman e vocação de historiador: consciência de detetive. “A consciência humana”, diz Augusto dos Anjos, “é este morcego”. Facebook: https://www.facebook.com/savio.roz

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  • A Lenda de John Henry também inspirou a série de TV do Exterminador do Futuro, embora não fosse negro, tinha um ciborgue com esse nome, o Shaquile também aparece em um episódio do Super Choque.